Minha alma se entrelaçou com a tua. O corpo, não.
Na verdade, amei a tua mente, a tua sensibilidade, a tua intuição. Amei a suavidade, e também a revolta de quem despertava mais cético, menos religioso, menos encantado com as respostas prontas.
Amei o toque que moveu minhas certezas, o calor no peito, o frio na espinha. Amei até o medo de despertar para uma nova visão de mundo. Amei também o imaginário que construí.
Sofri com o silêncio. Morri um pouco no vazio. E fui me recriando, como quem nasce depois de um encontro.
Não diga que nada aconteceu. Para mim, foi imenso. Amei sem tocar. Toquei sem planejar. Abracei sem perceber.
Depois te deixei, como quem desperta de um sonho, mas leva consigo a lembrança de um tempo que já nasceu em contagem regressiva. E era mesmo para ser assim.
Você chegou quando eu já carregava mais invernos do que promessas. Trazia nos olhos uma inteligência que não fazia barulho, mas iluminava tudo o que tocava.
Havia em você uma ousadia serena, dessas que desafiam certezas sem levantar a voz.
Sua fé respirava liberdade, como quem havia descoberto que Deus não cabe nas molduras que os homens insistem em construir. Eu o admirava.
Nunca pela juventude, que sempre foi apenas um detalhe, mas pela delicadeza de enxergar o que tantos atravessam sem ver.
Você intuía o invisível. Escutava os silêncios. Fazia perguntas que poucos teriam coragem de fazer, entre Bach e Jobim.
Mas também havia o orgulho. Esse escudo discreto que costuma proteger os corações mais assustados. E tudo bem. Nem todo encontro nasce para permanecer.
Alguns chegam apenas para revelar uma parte de nós que ainda estava escondida. Você nunca soube, mas deixou em mim mais perguntas do que respostas. E, curiosamente, foi isso que me fez crescer.
Não porque tenha sido perfeito.
Houve dores, mal-entendidos e silêncios.
Mas essas lembranças eu escrevi no pó, e o vento levou. Guardei apenas o que era digno de permanecer.
Gratidão por ter encontrado alguém capaz de pensar com profundidade, de sentir sem superficialidade e de buscar Deus com a coragem de quem prefere a verdade ao conforto das certezas.
Se algum dia você se lembrar de mim, mesmo duas décadas depois, espero que não seja como um peso, embora eu saiba que por um tempo eu fui.
Eu também era processo, não sabia expressar o que estava acontecendo na minha alma, nunca quis fazer mal a vocês.
Lembre-se apenas de que foi profundamente amado.
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