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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Eu lembro, mas não quero voltar


Minha memória é horrorosa. Não porque eu esqueça facilmente as coisas, mas porque ela grava na carne tudo o que senti na vida. É um perpétuo ressentir, redoer, remoer... Horrorosa.

Ela alcança a mais tenra idade, quando eu precisava de injeções de penicilina, até o dia de ontem com meus netos. Quando tenho que relembrar alguma conversa, lembro até das vírgulas.

Observo meus irmãos. Volta e meia, viajam para o Rio de Janeiro em busca dos velhos amigos do tempo da adolescência. Para mim, isso seria como uma viagem ao passado, tentando reencontrar pessoas que já não existem mais.

Não vou. Viajaria se fosse para passar férias na praia, sair do ambiente, desligar-me dos problemas. Mas, para cavucar o que enterrei, jamais.

Apesar de nunca esquecer nada, nem o que disseram, nem o que fizeram , assisto à minha vida como quem assiste a um filme. Emociono-me, sinto, lembro. Mas não como alguém que precisa voltar para viver outra vez aquilo que já passou.

Acho que minha natureza observadora e contemplativa me faz olhar a vida minuciosamente, nunca pela superfície. E, talvez por isso, com as pessoas eu me desprenda com a mesma intensidade com que me conecto.

Tenho dificuldade para me aproximar, mas, se for preciso me afastar, sou ótima nisso. Talvez, com as outras pessoas, o processo também seja assim.

Penso em mim há dez, vinte, trinta anos e vejo tantas versões diferentes de quem fui. Características que foram aperfeiçoadas, outras que desapareceram completamente, outras que só descobri com o tempo. Então, como poderia buscar nos outros quem eles foram na minha juventude?

Se reencontro alguém, a conversa termina nas superficialidades. Não porque não haja história, mas justamente porque há história demais. E, às vezes, o que fomos um para o outro pertence àquele tempo e somente àquele tempo.

Não é que eu não sinta saudade.

É que quem de fato é importante nunca se foi. Quem se importa dá o ar da graça, mesmo que virtualmente. Quem atravessa a vida com a gente porque quer e porque gosta nunca perde o lugar.

Minha memória, entretanto, permanece intacta. Visita o passado e reencontra dores, amores, decepções, malquerenças, sorrisos. Registra tudo. Não apaga quase nada. Não é falta de memória, é excesso dela.

Mas também não quero reviver nada. Eu lembro, só não volto.

Deixo cada coisa quietinha, no lugar onde a vida a colocou e sigo. 

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