E se o inferno for a consciência diante daquilo que rejeitamos?
Não encontro nas Escrituras uma descrição tão detalhada do inferno quanto aquela que a tradição religiosa construiu ao longo dos séculos.
Há fogo. Há trevas. Há choro e ranger de dentes. Há Geena. Há Hades. Há o lago de fogo. Há imagens de destruição e juízo.
Mas transformar todas essas imagens em uma geografia literal do além, com demônios torturando pessoas eternamente em chamas, é outra coisa.
Boa parte dessa representação pertence muito mais ao imaginário religioso desenvolvido posteriormente do que a uma descrição sistemática feita pelos próprios textos bíblicos.
O inferno de Dante, por exemplo, tornou-se uma das imagens mais poderosas do imaginário ocidental, mas Dante não escreveu uma doutrina bíblica do inferno; escreveu uma obra literária.
E talvez devêssemos ter mais cuidado para não atribuir a Deus aquilo que nasceu da nossa própria imaginação religiosa.
Porque, se existe um lugar de tormento, talvez o tormento não precise ser imaginado como uma tortura aplicada por Deus.
Talvez seja muito mais profundo.
Aqui, enquanto estamos revestidos de carne, conseguimos fugir de nós mesmos. Podemos anestesiar a consciência. Distrair-nos. Construir justificativas. Colocar o ego no centro. Dizer que somos suficientes. Convencer-nos de que não precisamos de Deus.
Podemos até olhar para quem crê e dizer que lhe falta inteligência, que foi manipulado pela cultura, pela família ou pela religião.
Podemos construir uma vida inteira sem sentir falta daquilo que rejeitamos.
Mas e se, depois da morte, a consciência deixar de possuir os mesmos mecanismos de fuga?
E se aquilo que agora conseguimos silenciar tornar-se impossível de ignorar?
Então talvez o tormento não seja Deus torturando alguém. Talvez seja a própria consciência finalmente percebendo aquilo que passou a vida inteira recusando.
Não porque Deus tenha deixado de amar. Mas porque, diante da verdade, já não há como continuar mentindo para si mesmo.
A parábola do rico e Lázaro é intrigante justamente por isso. O rico está em tormento. Mas Abraão ainda o chama de “filho”. Não o chama de monstro. Não o trata como lixo. Não parece haver prazer na condenação. Há reconhecimento, diálogo e consciência.
O homem compreende. Lembra. Reconhece. Pensa nos irmãos. Deseja adverti-los. Percebe que sua vida poderia ter sido diferente.
A angústia começa justamente quando a consciência enxerga aquilo que antes não queria enxergar.
É interessante também que o texto não diga que Abraão deixou de amá-lo por ele estar naquela condição.
E isso me faz pensar.
Será que o juízo de Deus é vingança ou revelação? Será que o fogo é simplesmente instrumento de tortura? Ou pode ser também a imagem de algo que consome tudo aquilo que não pode permanecer diante da verdade?
A própria linguagem bíblica do fogo permite essa reflexão. O fogo destrói. Purifica. Revela. Consome.
E, no Apocalipse, até a própria morte e o Hades são lançados no lago de fogo. Isso é uma imagem extremamente provocadora. Porque, se o lago de fogo representa o destino definitivo do mal, não seria estranho perguntar: o que exatamente permanece eternamente — o mal ou a consciência de quem foi vencido pelo mal?
Não sei. E aqui faço questão de dizer: não sei.
A Bíblia não me permite transformar essa esperança em certeza doutrinária.
Ela também contém textos que parecem apontar para um juízo definitivo e textos cuja linguagem permite interpretações diferentes.
Por isso, eu não afirmaria que todas as pessoas certamente serão salvas depois da morte. Mas também não vejo necessidade de fechar a porta onde a Escritura não a fechou de maneira inequívoca.
Existe uma esperança que me parece compatível com o caráter de Deus: se, depois de toda a ilusão, toda a resistência e todo o autoengano, uma consciência finalmente desejar a luz, por que imaginaríamos que Deus teria prazer em recusá-la?
Não estou dizendo que sei que isso acontecerá.
Estou dizendo que espero que a misericórdia de Deus seja maior do que a nossa capacidade de compreendê-la.
Porque o Deus revelado em Cristo não parece alguém procurando oportunidades para excluir.
É aquele que procura. Que chama. Que espera. Que recebe. Que deixa noventa e nove para procurar uma. Que corre ao encontro do filho que volta. Que pede perdão para os que o crucificam. Que diz que veio salvar o mundo.
Então talvez devêssemos ter muito cuidado com uma teologia que transforma o inferno em instrumento de intimidação.
O medo pode produzir conformidade. Mas não produz necessariamente amor. Pode fazer alguém obedecer para escapar da punição.
Mas o Evangelho parece querer algo muito mais profundo: que conheçamos a Deus e, conhecendo-o, aprendamos a amá-lo.
Talvez o verdadeiro inferno seja justamente viver separado daquilo para o qual fomos criados. E talvez a salvação seja mais do que escapar de um lugar de fogo. Talvez seja ser finalmente reconciliado com a Fonte da própria existência.
Por isso não consigo imaginar a eternidade como uma espécie de prisão onde Deus conserva conscientemente milhões de criaturas apenas para que sofram para sempre.
Posso estar errada.
A Escritura tem mistérios que ultrapassam minha compreensão. Mas, quando não sei, prefiro deixar aberta a pergunta do que preencher o silêncio com uma certeza construída pelo medo.
Se eternidade não é simplesmente uma quantidade infinita de tempo, mas uma realidade que transcende nossa experiência temporal, então talvez não devêssemos transportar para ela todas as categorias que usamos aqui.
E se o mal terá fim? Se a morte será vencida? Se o Hades será lançado no lago de fogo? Se Deus finalmente será “tudo em todos”? Então me permito esperar. Não como quem possui uma doutrina pronta. Mas como quem conhece o caráter daquele em quem escolheu confiar.
Se houver uma consciência que, depois de atravessar toda a escuridão, finalmente desejar a Luz, eu quero acreditar que a Luz não lhe dirá: “Você chegou tarde demais.”
Quero acreditar que Deus continuará sendo Deus. E que a última palavra não será dada pelo medo. Será dada pela Graça.
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