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domingo, 30 de agosto de 2026

Filhos

Estava assistindo a uma moça desabafando sobre amar o filho, mas não estar dando conta das demandas. O menino tem dois anos e explora todos os ambientes. Na casa de ração, puxou uma alavanca e derrubou ração no chão. No sacolão, fez o maior fuzuê. Ela chorava na rua, dizendo que o amava, mas também dizendo que estava esgotada.

Eu não consigo julgá-la. Fui mãe aos 20 anos. Morava com minha mãe, estava recém-separada e, de repente, minha vida deu um salto de uma década.

Passei a seguir praticamente a mesma rotina, indo apenas aos lugares onde podia levar meu filho. Minha vida passou a girar em torno das necessidades dele. Eu trabalhava pensando em como continuar dando suporte, construía pensando em oferecer segurança e, muitas vezes, deixava a mim mesma por último.

Enquanto ele era pequeno, minha mãe nunca se dispôs a ficar com ele para que eu pudesse sair daquele ambiente por algumas horas. Era um filho só, e era meu. Então, simplesmente, eu não saía.

Vi minha juventude passar sem conhecer muitos lugares, pessoas e experiências. Eu era mãe solo, e a prioridade era sempre ele. Fora dele, quase não havia vida. Poucas realizações que fossem minhas. Poucas coisas que eu pudesse dizer: isso eu fiz por mim.

Por isso, quando vejo uma mãe chorando porque não está dando conta, não consigo apontar o dedo. Muitas vezes eu também não dei conta.

A diferença é que, naquele tempo, eu precisava ir assim mesmo. Porque filho é para sempre.

E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender na maternidade seja justamente esta: é possível amar alguém mais do que tudo e, ainda assim, estar cansada daquela responsabilidade. Uma coisa não anula a outra.

O filho pode ser o maior amor da sua vida e, ao mesmo tempo, representar a maior responsabilidade que você já carregou.

Amar não transforma ninguém em uma máquina incansável.

Mãe também se cansa. Mãe também se irrita. Mãe também precisa de silêncio, descanso, espaço, companhia e, às vezes, simplesmente de algumas horas em que ninguém precise dela. Isso não faz dela uma mãe ruim. Faz dela humana.

Eu teria feito algumas coisas de maneira diferente se tivesse tido outras possibilidades. Talvez tivesse procurado preservar um pouco mais de mim. Talvez tivesse entendido antes que ser mãe não deveria significar desaparecer completamente como mulher.

Mas fiz o que consegui com os recursos que tinha.

E é por isso que, quando vejo uma mãe dizendo “eu amo meu filho, mas não estou dando conta”, eu não escuto falta de amor. Eu escuto cansaço.

E talvez seja importante dizer isso com toda honestidade: Tenham filhos se quiserem muito ser pais.

Porque criança não é apenas o amor que cabe no colo. É uma vida inteira de responsabilidade. O amor é imenso. Mas a responsabilidade também.

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