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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Deixar ir

Aprendi com Cristo a ser tardia em me irar.

Mas a longanimidade não é ausência de limites. Não desisto por impulso; desisto depois de ter tentado.

Ser tardio em irar-se não significa ser tardio em partir quando a permanência deixou de ser saudável

A vida inteira tentei dar chances: às amizades que me machucaram, aos lugares onde trabalhei e não  foram justos, aos relacionamentos amorosos. Não porque eu não enxergasse os erros, mas porque acredito que todo mundo erra  e que, quando há arrependimento, todo mundo merece a oportunidade de tentar se consertar.

Também aprendi alguma coisa sobre mim: quando eu desisto, é uma vez só.

Porque meu olhar muda quando deixo de acreditar.

E, quando a esperança de que algo possa ser diferente se desfaz dentro de mim, não consigo mais fingir que ainda existe aquilo que já morreu.

Ponto final também serve para usar.

Hoje, no ônibus, fui me lembrando de cada situação, de cada coisa que relevei, de cada vez que precisei engolir o orgulho para não desistir das pessoas.

Houve insistências que duraram anos a fio.

Anos tentando compreender, perdoando, esperando mudanças. Anos acreditando que talvez, desta vez, fosse diferente.

Mas, quando finalmente desisto, eu me retiro sem olhar para trás.

Já aconteceu de doer muitas vezes. Depois do luto, descobri que era alívio.

Tirar dos lombos o peso de carregar relações que já acabaram, lugares que perderam o sentido, amores falidos e amizades desleais muitas vezes é cura.

É voltar para nós mesmos.

Há uma diferença entre abandonar alguém no primeiro erro e reconhecer que uma relação se tornou um lugar onde só uma pessoa continua tentando.

Ser tardia em irar-se não significa permanecer indefinidamente onde somos feridos.

Perdoar não nos obriga a continuar.
Dar uma chance não significa dar todas.
Ter paciência não significa não ter limites.

Às vezes, a maneira mais honesta de reconhecer que algo terminou é simplesmente parar de carregá-lo.

Permanecer naquilo que já acabou pode se tornar uma espécie de dependência: continuamos porque temos medo do vazio que ficará quando soltarmos.

Mas eu não quero mais viver assim. Não quero carregar nas costas aquilo que já não existe.

Quero aprender a deixar ir sem transformar a partida em vingança.

Porque algumas despedidas não são fracassos. Deixar ir também pode ser um ato de amor, especialmente a nós mesmos.

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