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sábado, 22 de agosto de 2026

Inerrância bíblica


Hoje alguém me perguntou se eu considerava a Bíblia inerrante.

Respondi que, onde o homem coloca a mão, existe a possibilidade de erro. A própria formação do cânon bíblico foi um processo humano, embora minucioso, envolvendo comunidades, tradição e reconhecimento dos textos ao longo do tempo. 

Há também passagens cuja transmissão manuscrita apresenta dificuldades e cuja reconstrução depende do trabalho de estudiosos.

Para mim, a Bíblia é um registro precioso que contém o testemunho da Palavra de Deus, mas não é, por isso, um documento humano absolutamente isento de erros.

Ele então disse que, continuando assim, eu acabaria me tornando ateia.

Respondi que não. Minha fé é parte de quem sou no mundo. É essencial para mim, mas não castra minha inteligência, minha autonomia ou meu discernimento.

Aliás, escrevo sobre fé diariamente porque amo o Evangelho. Não sou religiosa no sentido de precisar me submeter a uma ortodoxia para continuar crendo. E não tenho medo de pensar.

Ele então disse: “Com todas as contradições e coisas sem nexo, mesmo assim você consegue continuar acreditando. Parabéns!”

Ora, ainda que não existisse Bíblia, eu creria, porque a Palavra é Cristo. E não fui eu quem O escolheu.

Ele riu e respondeu que, sem a Bíblia, a tradição não teria permanecido por muito tempo e hoje eu sequer teria conhecimento de Jesus.

Talvez ele tenha razão quanto à importância histórica das Escrituras para a preservação e transmissão do conhecimento sobre Jesus. Mas ele estava falando da transmissão histórica da fé; eu estava falando da origem da minha.

Não importa a cultura. Não importa como a mente humana assimile o sagrado, nem o nome que dê ao mistério. Não tenho vínculo com a necessidade de uma ortodoxia que determine os limites do que posso pensar.

Deus se revela a quem quer e da maneira que quer.

Ele ficou em silêncio. Respondeu apenas: “Ok.” Talvez ele não soubesse o que responder.

Quando a medicina não sabia mais o que fazer comigo, disseram aos meus pais que era questão de dias para que eu morresse. Recebi tratamento paliativo e fui liberada para passar meus últimos momentos em casa, porque já representava risco para outras crianças na enfermaria.

Foi em um grupo de oração que recebi aquilo que compreendi como cura para o corpo  e, junto dela, a pequena semente da minha fé.

Eu era criança. Não tinha condições de compreender teologia, conhecer a Bíblia ou escolher uma religião.

Mas havia um nome que latejava dentro de mim: Jesus.

Comigo, foi através da cura que Ele se manifestou. Sei, porém, que não precisa ser assim com todo mundo.

Também creio que, quando o Pai dá, Ele não lança fora. Mesmo quando alguém não possui conhecimento intelectual suficiente para compreender aquilo que está recebendo, Deus não está limitado pela capacidade humana de formular conceitos.

Eu não sabia. E fui crescendo, respondendo a um amor que sentia antes mesmo de conseguir compreendê-lo.

Onde há amor, há Deus agindo na vida do homem.

O conhecimento veio muito depois.

Sabendo ou não sabendo da boa-nova, o ser humano é capaz de perceber o sagrado. Pode chamar o mistério de Jesus ou dar-lhe outro nome. Pode até não saber nomeá-lo. Ainda assim, pode deixar-se transformar, aperfeiçoar, tornar-se mais humano.

Da mesma forma, abraçar uma religião, seguir seus decretos e defender sua ortodoxia não garante a ninguém um relacionamento com a pessoa de Cristo Jesus.

Eu não saberia explicar quando minha fé começou. É como um pedaço de mim.

Só sei que não viveria sem ela — e que não deixarei de falar do Evangelho enquanto houver em mim palavras para fazê-lo.

Eu penso justamente porque acredito. E minha fé não precisa ter medo daquilo que meu intelecto encontra.

Minha fé não nasceu de uma certeza intelectual sobre um livro. Nasceu antes que eu tivesse intelecto suficiente para formular qualquer certeza.

A Bíblia veio depois. Ela me ajudou a nomear, compreender e aprofundar aquilo que já havia acontecido em mim.

Por isso, posso questionar a Bíblia sem precisar abandonar Cristo.

Meu fundamento não é a inerrância de um texto. É a pessoa de Jesus.

E, se algum dia eu descobrir que estava errada sobre alguma coisa que hoje acredito, ainda assim continuarei procurando a verdade.

Porque minha fé não me ensinou a ter medo da verdade.

Ensinou-me a amá-la.

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