Entre crenças e encontros
Em páginas de debates, na maioria das vezes só encontro embates.
Crente ameaçando ateu com condenação eterna; ateu chamando cristão de ignorante, manipulado ou incapaz de pensar por si mesmo.
E, daqui da minha insignificância, eu só consigo enxergar um espaço desperdiçado, um lugar onde os encontros poderiam ser de troca de percepções.
Que cada um pudesse falar de si, de suas experiências, das coisas que viveu, das perguntas que carrega, das respostas que encontrou ou não encontrou.
Sem a obrigação de convencer ninguém.
Mas parece que, para muita gente, o divertido é depreciar o outro. Como se uma crença só pudesse sobreviver quando a crença alheia fosse destruída.
Aqui em casa é diferente.
Na minha família, eu sou cristã desigrejada. Meu filho é ateu. Minha nora é católica não praticante. Minha irmã é espírita. Minha sobrinha simpatiza com religiões de matriz africana. Meu irmão é católico, a esposa é toda mística e os filhos são agnósticos.
E estamos todos muito bem, obrigada. Na mais perfeita harmonia, com respeito e liberdade.
Ninguém tenta converter ninguém. Ninguém precisa provar que está certo. Ninguém precisa sair vencedor de uma conversa.
Nos nossos encontros, quase não falamos de fé. Há coisas íntimas demais para serem transformadas em instrumento de disputa.
O que nos une não é a concordância sobre Deus. É o vínculo do amor.
E talvez seja justamente isso que tantos debates sobre religião esquecem: antes de sermos cristãos, ateus, espíritas, católicos, agnósticos ou qualquer outra coisa, somos pessoas.
Pessoas com histórias que não cabem em rótulos.
Eu não preciso que meu filho creia como eu para amá-lo. Ele não precisa acreditar no que acredito para me respeitar.
Minha irmã não precisa abandonar sua fé para que a minha seja verdadeira. E nenhum de nós precisa transformar o outro em inimigo para preservar aquilo em que acredita. Nem todo encontro precisa produzir concordância.
Às vezes, o verdadeiro encontro acontece justamente quando conseguimos permanecer diferentes sem deixar de nos reconhecer como irmãos na humanidade.
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