Meu pai era um homem alegre. Sambista, jovial, gostava de contar e ouvir piadas, até a risada virar um assovio.
Foi criado em uma família evangélica raiz, daquelas o mais fundamentalista possível. Meu avô não tinha religião, mas minha avó era irmã do coque. Daquelas que praticavam e buscavam sem desviar o olhar. Os filhos todos iam para a igreja em carreirinha.
Ele contava que trabalhava desde a infância. Foi engraxate, ajudante na venda e, como primogênito, precisava ajudar em casa. Ainda assim, as dificuldades eram muitas e passavam por muitas privações.
Especialmente quando falava que ia para a escola de tamancos de pau. O coro dos colegas, chamando-o de pobre, fazia sua voz embargar. Naquele momento, aparecia o menino que ainda carregava as marcas da humilhação.
Mas o bom humor sempre o salvou.
Cresceu cedo demais, cercado de responsabilidades. Casou-se jovem e cuidou de nós com muita dedicação, para que nada nos faltasse.
Tanto ele quanto minha mãe tinham o hábito de relembrar o passado. Não para lamentar, mas para nos ensinar gratidão: pelo pouco que tínhamos, pelas oportunidades que surgiam e, principalmente, por termos uns aos outros.
Mas passar a infância e a adolescência dentro de uma igreja que, para ele, era castradora do ser, acabou produzindo um jovem "transgressor" da religiosidade.
Ele se desviou — segundo a igreja — e foi viver o que desejava viver.
Amava uma festa. Cantava músicas da Jovem Guarda em bandas, vestia roupas coloridas, deixou o cabelo crescer e chegou a ter fãs.
Casou-se com minha mãe aos 22 anos; ela tinha 18. Aos 27 e 23, já tinham os três filhos.
De vez em quando, oscilava entre a reconciliação com a igreja e a atração pela vida boêmia. Disputava samba-enredo em blocos e escolas de samba. E, quando estava na igreja, compunha hinos ao som do violão.
Era bonito e nada fiel. Isso desgastou muito o casamento. Minha mãe sofreu bastante com suas infidelidades. Mas ele também tentava ser um bom pai e um bom marido. Naquela época, esses deslizes masculinos eram muito mais tolerados pela sociedade, e minha mãe acabava sempre perdoando.
Depois ele amadureceu. Já não tinha o mesmo ímpeto de fazer tudo o que dava na telha. Estava dedicado a pagar as prestações do apartamento que haviam comprado. Trabalhava no quartel e, nas horas vagas, dirigia táxi. Já não tinha a mesma energia para passar a noite na rua.
Até que, um dia, tudo terminou.
Estava de férias-prêmio no Corpo de Bombeiros e trabalhou no táxi o dia inteiro. Quando estava chegando em casa, a apenas um quarteirão, parou na padaria onde sempre comprava alguma coisa para levar para casa.
Estacionou em frente ao supermercado, foi até lá e voltou. Mas, antes de entrar no carro, um ônibus sem freio subiu no estacionamento e o atropelou.
Perdi meu pai aos quinze anos, de uma forma repentina e trágica.
Quando vieram avisar sobre o acidente, fui eu quem atendeu. Chamei minha mãe e fomos juntas ao pronto-socorro. Foi lá que soubemos de sua morte.
Foi devastador para toda a família.
Dias antes, ele estava bastante sensível. Sempre dizia que sabia que morreria aos quarenta anos. Naquele agosto, estava particularmente pensativo. Chegou a nos orientar sobre quem procurar caso alguma coisa lhe acontecesse.
No dia 30, conversava com minha mãe e disse: "Eu nunca gostei de agosto. Tudo de ruim que aconteceu comigo foi nesse mês. Eu tinha certeza que seria esse mês. Mas hoje é dia 30 e nada aconteceu. Vamos sair. Enquanto as meninas ficam no clube, a gente fica no bar em frente."
E lá ficaram os dois, conversando. Ele instruiu minha mãe sobre todos os procedimentos.
No dia seguinte, acordou cedo, mas não foi logo trabalhar. Ficou limpando o carro enquanto nós ríamos de suas gracinhas pelas janelas dos quartos, dois em cada janela.
Depois entrou no carro. Foi saindo de ré e, a cada dois metros, colocava a cabeça para fora para dar tchau. Fez isso umas cinco vezes. Até sair e não voltar mais.
Ele foi atropelado de costas. Não viu a morte chegar. O ônibus o imprensou contra o poste do semáforo.
Como ele sabia? Ninguém pode explicar. O sobrenatural nos ronda. E comigo também acontecem coisas que não consigo explicar.
Mas há coisas que não precisam ser explicadas para permanecerem. As boas lembranças que guardo fazem meu pai continuar presente.
A morte levou seu corpo, mas não levou aquilo que ele deixou em nós. E há uma lembrança que, hoje, tem para mim um significado ainda maior.
Uma de nossas últimas conversas foi sobre fé. Ele me disse: "Não tem a ver com o que faço. Tem a ver com o que Cristo fez."
Eu ainda não entendia muito bem. Só fui estudar essas coisas muitos anos depois. Mas guardei aquelas palavras.
E hoje penso que talvez elas expliquem um pouco daquele homem que se permitia viver tão intensamente. Ele tinha fé e descansava na Graça.
Meu pai viveu quarenta anos. Este ano completaria oitenta. E, de algum modo, ainda vive nas coisas que deixou em mim.
Era um homem inteiro: alegre e ferido, boêmio e responsável, transgressor e homem de fé, infiel e dedicado aos filhos, marcado pela pobreza e ainda assim capaz de rir. Humano e feliz.
Às vezes penso que eu teria ainda tanta coisa para aprender com ele. Mas talvez tenha aprendido justamente uma das coisas mais importantes: que uma vida pode ser curta e, ainda assim, deixar marcas que atravessam décadas.
Quarenta anos foram pouco para quem ficou. Mas o pouco que vivemos juntos é inesquecível e valioso para mim.
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