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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Goteiras no olhar


A tempestade passou
Ficaram as goteiras
Goteiras... no olhar
Mesmo décadas depois,
pois morreu o futuro
que poderia ser de nós dois.

Perdi o idealizado.
Perdi o acolhimento que tinha.
Perdi a voz,
com mordaça imposta.
Perdi.
Só perdi.

Desfiguraram minha imagem.
Vestiram-me com mentiras.
Deram-me uma camisa de força.
E jamais voltaram atrás.
Os fatos não interessam mais.
O tempo é outro.

Mas a dor ainda atravessa.
Ainda sangra na lembrança.
Ainda visita os sonhos.
Ainda aprisiona.

Um foi perverso.
O outro, omisso.
O outro, orgulhoso.
E eu,
condenada e sentenciada
a nunca mais ser.

A nunca mais ser quem eu era.
A nunca mais ser vista como eu era.
A nunca mais ser aquilo que poderia ter sido.

Mas a pena foi cumprida 
Enquanto saravam as feridas
Enquanto o giro da vida 
Mudava os cenários 

Aprendi a viver com a falta
Ninguém pode ter tudo 
Há goteiras que nunca param
Goteiras... No olhar.

A possibilidade morreu
Não eu

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