A narrativa do Éden não precisa ser reduzida à discussão sobre a literalidade de seus personagens para cumprir sua função espiritual. Ela nos coloca diante de nós mesmos.
Onde estás?
A inspiração de Moisés não foi para que o religioso passasse a afirmar que uma víbora enganou uma mulher e que um homem resolveu desobedecer a Deus, provocando consequências desastrosas sobre o mundo.
Tanto faz, para o propósito da narrativa, se as figuras são compreendidas literalmente ou metaforicamente, quando conseguimos enxergar o que elas representam — e, principalmente, quando nos enxergamos nelas.
A narrativa fala da humanidade.
Afinal, o objeto do desejo não era simplesmente um fruto. Era o conhecimento do bem e do mal. Era a possibilidade de determinar por si mesmo aquilo que pertence a Deus.
O ego sempre esteve lá. O desejo de ser como Deus não nasceu naquele momento; apenas foi despertado.
Essa ânsia por independência, por estar no centro, por decidir sozinho o que é certo e errado, por transgredir a vontade de Deus em nome da própria vontade, não é privilégio de Adão.
É humana.
Por isso, talvez a pergunta mais importante da narrativa não seja “quem era a serpente?”, nem “que fruto era aquele?”
É a pergunta que Deus fez depois:
“Onde estás?”
Essa é uma pergunta que atravessa os séculos e alcança cada um de nós.
Onde você está?
Não geograficamente, mas diante de Deus.
Quem você se tornou?
O que fez com a liberdade que recebeu?
Quanto de Deus ainda há no centro, e quanto de você mesmo tomou o lugar?
Quando um homem finalmente admite a própria farsa, começa a ficar mais sensível à graça.
Quando deixa de justificar a si mesmo, consegue agradecer pela misericórdia.
E talvez seja justamente por isso que a misericórdia se renova a cada manhã: porque, se dependesse da nossa própria justiça, já teríamos sido consumidos.
Mas não somos.
Não porque sejamos bons o bastante.
Porque Deus é misericordioso.
E diante disso só consigo dizer:
Deus é maravilhoso!
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