Páginas

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

39 anos


Ele deitava a cabeça no meu colo, enquanto eu passava os dedos entre as ondas de seus cabelos.

Eu dizia, num tom irônico:

— Tem certeza de que você já foi um bebê?

E ele caía na risada.

Sempre ria das minhas brincadeiras. Sempre dizia que eu era a mais parecida com ele, no jeito e nos traços.

A gente se engalfinhava de vez em quando. Era semelhança demais para caber sempre em paz. Mas também tínhamos liberdade para brincar pelo chão, cantar juntos enquanto ele tocava violão ou simplesmente rir, lado a lado, assistindo a uma comédia na televisão.

Ele não economizava elogios quando eu me perfumava e me arrumava para sair. Dizia logo:

— Uau! Toda maravilhosa! Se eu tivesse condições, eu te daria muito mais.

Você me deu tudo, meu amor.

Tudo o que eu precisava.
Mais do que eu merecia.
O bastante para eu ser grata por toda a vida.

Por causa do seu esforço, eu estou segura.
Por causa do seu amor, tive os melhores exemplos.
E por causa de você, sei que há amores que o tempo não consegue levar.

Hoje fazem 39 anos que meu pai se foi.

Mas ele ficou.

Ficou nas minhas feições, no meu jeito, nas lembranças que ainda me fazem rir.
Ficou nas coisas que aprendi olhando para ele.
Ficou no amor que recebi e que continua vivendo em mim.

Porque a morte pode levar a presença,
pode silenciar a voz,
pode interromper um abraço.

Mas o amor não acaba.

E talvez seja por isso que, depois de 39 anos,
quando fecho os olhos,
ainda consigo sentir sua cabeça no meu colo
e passar, outra vez, os dedos entre as ondas dos seus cabelos.

Meu pai se foi há 39 anos.
Mas, de algum modo bonito e inexplicável,
ele ainda está aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário