Eu era uma adolescente romântica.
Gostava das informações de moda que ressaltavam a delicadeza: tecidos leves, cores suaves, nada muito curto ou transparente. Gostava de renda, laise, tecidos de boa qualidade, estampas discretas, bordados, pequenos detalhes que faziam uma roupa parecer especial.
Eu escolhia minhas roupas com cuidado e recebia elogios constantemente. Diziam que eu parecia rica. Talvez porque eu soubesse escolher aquilo que combinava comigo, mesmo sem ter muito dinheiro.
Eu gostava de me vestir, então engravidei.
Vieram a gravidez, os problemas emocionais e mais de vinte quilos. Meu corpo mudou rapidamente. Perdi minhas curvas, ganhei estrias, a barriga ficou caída depois da cesárea e, à medida que o peso aumentava, minha autoestima diminuía.
As pessoas começaram a dizer que eu tinha me abandonado. Que estava ficando deformada. Algumas me olhavam com perplexidade, como se meu corpo tivesse se tornado uma espécie de assunto público.
E eu acreditei.
Perdi todas as minhas roupas e, junto com elas, perdi um pouco da mulher que eu tinha sido.
Passei a querer apenas jeans e camisas largas. Quanto mais largas, melhor. Eu queria me esconder dentro delas.
Não queria vestidos nem saias. Não queria nada que marcasse o corpo. Se pudesse, teria ficado invisível.
Naquele tempo não havia internet. E encontrar roupas bonitas para um corpo grande era quase impossível. O que chegava até mim eram túnicas, roupas largas, modelos que pareciam feitos para mulheres muito mais velhas.
Eu tinha pouco mais de vinte anos e me vestia como senhora, era a numeração que me servia e isso era um sofrimento.
Então chegou a internet. E, com ela, uma possibilidade que parecia pequena, mas mudou muita coisa: eu descobri que existiam roupas para mulheres como eu.
Lojas plus size, modelos modernos, referências, combinações. Pela primeira vez, pude procurar uma roupa pensando não apenas em "o que cabe em mim?", mas também em "o que eu gosto?"
Comecei devagar a me olhar com mais carinho.
Descobri o que valorizava meu corpo, o que me deixava bonita, o que fazia sentido para mim. Fui encontrando um estilo mais clássico e casual. Virei uma gordinha charmosa.
Entendi que meu corpo não precisava desaparecer para que eu pudesse aparecer. Hoje tenho muitas roupas.
E isso talvez diga mais sobre minha história do que parece. Porque durante muito tempo eu não comprava roupas para mim. Eu comprava aquilo que conseguisse esconder meu corpo.
Hoje, quando olho para o meu guarda-roupa, vejo uma mulher que voltou a gostar de se escolher.
E agora existe uma possibilidade nova diante de mim.
Se o meu corpo mudar novamente, quero aproveitar essa mudança sem transformar emagrecimento em condição para me amar. Quero simplesmente experimentar.
Vestir as coisas que sempre quis. Usar uma saia, um vestido, uma roupa mais ajustada, tecidos leves. Cores suaves, rendas, bordados, delicadezas.
Quero reencontrar aquela adolescente romântica que gostava de escolher o que vestir.
Mas não quero voltar a ser quem eu era, quero levar aquela menina comigo para a mulher que me tornei.
Hoje sou bem mais eclética, gosto de moda para vários estilos. E quero voltar a cuidar de mim inclusive escolhendo minhas roupas com carinho.