Num Pod Cast, acabei de ver uma mulher calar um homem.
Ele resumia sua história dizendo que, quando conheceu a esposa, a primeira condição que ela colocou para se casar era não ter filhos. Queria liberdade para viajar, conhecer o mundo. Era uma questão dela e também das amigas, que haviam combinado viver assim. Mas ele hoje tem filhos.
E dizia que algumas pessoas transferem o amor para um afilhado, um sobrinho, um animal de estimação. Mas que amar um filho é diferente, porque existe ali uma questão de posteridade.
A entrevistadora respirou fundo justamente nessa palavra.
Posteridade.
E começou a falar das mães que, mesmo quando não conseguem enxergar no filho aquilo que esperavam que ele se tornasse, conhecem um amor que não depende de resultado: um amor transcendental, inexplicável, imensurável.
Lembrou das mães que fazem fila em presídios enquanto quase todos já deram as costas aos filhos que cometeram crimes hediondos.
Lembrou das mães de crianças com deficiências, para quem a maior alegria no dia pode ser simplesmente ver o filho abrir os olhos, engolir sozinho, sorrir.
Porque, para muitas mães, o filho não precisa representar uma promessa de posteridade. Ele precisa apenas estar ali.
É corriqueiro que muitos pais dão as costas aos filhos quando o relacionamento com a mãe termina, quando chega um diagnóstico difícil ou quando percebem que aquele filho não correspondeu às expectativas que depositaram nele.
A maternidade também conhece abandonos, é claro. Nem toda mãe consegue ou deseja exercer esse lugar.
Mas existe algo que atravessa a experiência da maioria das mulheres que se tornam mães: o filho passa a ocupar um lugar que não depende do que ele pode oferecer em troca.
É comum uma mulher sobrecarregada comer o que o filho deixou no prato. Ela nem pensa sobre isso.
Come para não desperdiçar, para não precisar preparar outra coisa, para ganhar alguns minutos, para que sobre mais tempo para o filho.
A maternidade não acontece somente nos grandes sacrifícios. Ela acontece nesses pequenos desaparecimentos de si mesma que ninguém registra.
Na comemoração de uma conquista que talvez para qualquer outra pessoa pareça pequena, mas que para aquela mãe representa uma montanha vencida.
Parir muda prioridades, mas o vínculo materno, para muitas mulheres, começa na concepção, na expectativa, no corpo que passa a abrigar outro corpo, na consciência de que existe alguém cuja vida depende inteiramente dela.
E sim, existem mulheres que não desejam ter filhos. Existem mulheres que não se identificam com a maternidade. Existem também mães que abandonam, rejeitam ou não conseguem estabelecer esse vínculo.
Mas, para muitas das mulheres que têm filhos e assumem a maternidade, alguma coisa muda de lugar dentro delas.
É como receber um sacerdócio, porque quando ela assume esse lugar, é convocada a uma entrega que muitas vezes ultrapassa aquilo que imaginava ser capaz de dar.
Aquele homem tentou explicar quando falou em posteridade. Mas a entrevistadora mostrou outra coisa: para uma mãe, muitas vezes, o filho não precisa ser a sua posteridade.
Ele já é, simplesmente, o seu filho.
E isso pode ser uma forma de amor que não cabe em nenhuma explicação.