domingo, 30 de agosto de 2026
Silêncio
Filhos
Estava assistindo a uma moça desabafando sobre amar o filho, mas não estar dando conta das demandas. O menino tem dois anos e explora todos os ambientes. Na casa de ração, puxou uma alavanca e derrubou ração no chão. No sacolão, fez o maior fuzuê. Ela chorava na rua, dizendo que o amava, mas também dizendo que estava esgotada.
Eu não consigo julgá-la. Fui mãe aos 20 anos. Morava com minha mãe, estava recém-separada e, de repente, minha vida deu um salto de uma década.
Passei a seguir praticamente a mesma rotina, indo apenas aos lugares onde podia levar meu filho. Minha vida passou a girar em torno das necessidades dele. Eu trabalhava pensando em como continuar dando suporte, construía pensando em oferecer segurança e, muitas vezes, deixava a mim mesma por último.
Enquanto ele era pequeno, minha mãe nunca se dispôs a ficar com ele para que eu pudesse sair daquele ambiente por algumas horas. Era um filho só, e era meu. Então, simplesmente, eu não saía.
Vi minha juventude passar sem conhecer muitos lugares, pessoas e experiências. Eu era mãe solo, e a prioridade era sempre ele. Fora dele, quase não havia vida. Poucas realizações que fossem minhas. Poucas coisas que eu pudesse dizer: isso eu fiz por mim.
Por isso, quando vejo uma mãe chorando porque não está dando conta, não consigo apontar o dedo. Muitas vezes eu também não dei conta.
A diferença é que, naquele tempo, eu precisava ir assim mesmo. Porque filho é para sempre.
E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender na maternidade seja justamente esta: é possível amar alguém mais do que tudo e, ainda assim, estar cansada daquela responsabilidade. Uma coisa não anula a outra.
O filho pode ser o maior amor da sua vida e, ao mesmo tempo, representar a maior responsabilidade que você já carregou.
Amar não transforma ninguém em uma máquina incansável.
Mãe também se cansa. Mãe também se irrita. Mãe também precisa de silêncio, descanso, espaço, companhia e, às vezes, simplesmente de algumas horas em que ninguém precise dela. Isso não faz dela uma mãe ruim. Faz dela humana.
Eu teria feito algumas coisas de maneira diferente se tivesse tido outras possibilidades. Talvez tivesse procurado preservar um pouco mais de mim. Talvez tivesse entendido antes que ser mãe não deveria significar desaparecer completamente como mulher.
Mas fiz o que consegui com os recursos que tinha.
E é por isso que, quando vejo uma mãe dizendo “eu amo meu filho, mas não estou dando conta”, eu não escuto falta de amor. Eu escuto cansaço.
E talvez seja importante dizer isso com toda honestidade: Tenham filhos se quiserem muito ser pais.
Porque criança não é apenas o amor que cabe no colo. É uma vida inteira de responsabilidade. O amor é imenso. Mas a responsabilidade também.
Direito a ter direitos
Lutamos todos pelo direito de ter direitos.
E, se é assim, quem escolhe os amigos apenas pela posição política não está procurando diálogo; está procurando um espelho — alguém que pense como ele, confirme suas certezas e não lhe ofereça o desconforto da diferença.
Quando a divergência abre caminho para o desrespeito, a acusação, a tentativa de silenciamento e a castração do pensamento, talvez seja porque o carinho já tenha desaparecido. Porque quem ama não precisa concordar com tudo para preservar a dignidade do outro.
Respeito ao próximo não é favor, é dever.
O desrespeito muitas vezes nasce de espíritos complexados, que precisam diminuir o outro para conseguir enxergar algum valor em si mesmos.
Quem preserva a minha integridade sou eu. Portanto, sou eu quem decide com quem quero conviver, quais limites estabeleço e de quais relações escolho me retirar.
Não acredito que seja obrigação resgatar todo vínculo. Há relações que podem ser reconstruídas pela conversa, pelo perdão e pelo respeito.
Mas, quando o respeito acaba, talvez não reste mais nada a resgatar — apenas a coragem de reconhecer que é hora de partir.
sábado, 29 de agosto de 2026
A fé que não se transforma em vida
Descobri um grupo que prega a eleição e, ao mesmo tempo, abomina alguns livros da Bíblia, entre eles Tiago, por entender que ele aparentemente contradiz Paulo quando afirma que “a fé sem obras é morta”.
Mas penso que não há contradição alguma quando compreendemos do que Tiago está falando.
Paulo afirma que somos salvos pela graça, mediante a fé, e não pelas obras como mérito ou moeda de troca com Deus. E o mesmo Paulo, logo depois, escreve:
“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
Efésios 2:10
Portanto, Paulo não coloca fé e obras como inimigas. Ele rejeita as obras como fundamento da salvação, mas as reconhece como fruto de uma vida alcançada pela graça.
Tiago está dizendo essencialmente a mesma coisa por outro caminho.
A fé que permanece apenas no discurso, que não produz misericórdia, justiça, cuidado e amor pelo próximo, é uma fé morta. Não porque as obras comprem a salvação, mas porque uma fé viva inevitavelmente começa a produzir vida.
E, quando lemos Tiago, percebemos que suas “obras” não são um catálogo de atividades religiosas. Não é quantidade de cultos, cargos, ministérios, jejuns, campanhas ou qualquer outra forma de ativismo que possa alimentar a vaidade religiosa.
São obras que têm carne.
É alimentar o faminto.
É vestir quem está nu.
É não fazer acepção de pessoas.
É socorrer o necessitado.
É controlar a língua.
É tratar o outro com misericórdia.
Por isso, é profundamente incoerente com o Evangelho o homem que honra a Deus com os lábios enquanto maldiz o próximo, feito à imagem e semelhança de Deus.
De que vale pronunciar o nome de Deus com reverência, levantar as mãos, cantar louvores e falar de santidade, se a mesma boca que O bendiz é usada para ferir, humilhar e amaldiçoar aquele que carrega em si a marca do Criador?
Tiago já havia percebido essa contradição:
“Com ela bendizemos ao Senhor e Pai; também com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto seja assim.”
Tiago 3:9-10
O Evangelho não nos ensina a amar uma ideia de Deus enquanto desprezamos gente.
Ele nos ensina que o amor a Deus se torna visível na maneira como tratamos o outro.
Porque é fácil dizer: “Eu amo a Deus.”
Difícil é reconhecer Sua imagem naquele que nos contraria, naquele de quem discordamos, naquele que não pode nos oferecer nada em troca.
E talvez seja justamente aí que nossa fé seja colocada à prova: não naquilo que dizemos sobre Deus, mas naquilo que fazemos com aqueles que Deus colocou diante de nós.
A boca pode construir uma liturgia inteira.
Pode conhecer a doutrina correta, recitar versículos, defender a eleição, discutir predestinação e falar incessantemente sobre a graça.
Mas é a vida que revela se aquilo que professamos realmente alcançou o coração.
Fé que não se torna amor é apenas discurso religioso.
A graça que não produz misericórdia ainda não foi compreendida.
E a boca que bendiz a Deus enquanto destrói o próximo denuncia a incoerência da própria religião que professa.
Fé é maneira de existir
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Atraídos por Deus
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
As obras da fé
Glorificar
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Morte de Jesus
Um rapaz perguntou por que a morte de Jesus seria especial, se tantas pessoas já enfrentaram mortes terríveis, inclusive por causas nobres.
Para o cristão, a resposta começa antes da cruz.
Jesus não é apenas um homem que morreu injustamente. Ele é a revelação de Deus no Filho, o cumprimento da promessa, o Cordeiro destinado à redenção desde antes da fundação do mundo, manifestado no tempo oportuno para consumar aquilo que estava proposto.
Por isso, não é sobre a quantidade de sofrimento. É sobre perfeição.
Se a pena de morte aplicada naquele tempo fosse o apedrejamento, e não a crucificação, ainda assim Jesus seria o Salvador e Senhor das nossas vidas. O instrumento da morte não é o que confere valor à sua obra.
O que torna sua morte singular é que aquele que morreu não morreu como um pecador pagando a própria culpa. Morreu sem pecado, sem defeito, tendo cumprido perfeitamente aquilo que a Lei exigia.
Ele não foi simplesmente uma vítima da violência humana. Entregou-se.
E é justamente essa obediência perfeita que o torna o Cordeiro apto para a oferta.
A cruz, portanto, não é extraordinária porque tenha sido a morte mais dolorosa já experimentada por um ser humano. Muitos sofreram dores terríveis. Muitos morreram injustamente. Muitos entregaram a própria vida por aquilo em que acreditavam.
A singularidade de Cristo está em outra coisa:
o Justo morrendo pelos injustos; o Santo assumindo a condição daquele que deve morrer; aquele que não devia nada entregando-se voluntariamente pelos que nada poderiam oferecer em troca.
E a morte não foi o ponto final. Ele ressuscitou.
Por isso, para o cristão, a cruz não é simplesmente a história de um homem que sofreu e morreu por uma causa nobre.
É a história da obediência perfeita que atravessou a morte e venceu-a.
Não foi a crueldade da cruz que salvou. Foi Cristo.
Eu lembro, mas não quero voltar
Minha memória é horrorosa. Não porque eu esqueça facilmente as coisas, mas porque ela grava na carne tudo o que senti na vida. É um perpétuo ressentir, redoer, remoer... Horrorosa.
Ela alcança a mais tenra idade, quando eu precisava de injeções de penicilina, até o dia de ontem com meus netos. Quando tenho que relembrar alguma conversa, lembro até das vírgulas.
Observo meus irmãos. Volta e meia, viajam para o Rio de Janeiro em busca dos velhos amigos do tempo da adolescência. Para mim, isso seria como uma viagem ao passado, tentando reencontrar pessoas que já não existem mais.
Não vou. Viajaria se fosse para passar férias na praia, sair do ambiente, desligar-me dos problemas. Mas, para cavucar o que enterrei, jamais.
Apesar de nunca esquecer nada, nem o que disseram, nem o que fizeram , assisto à minha vida como quem assiste a um filme. Emociono-me, sinto, lembro. Mas não como alguém que precisa voltar para viver outra vez aquilo que já passou.
Acho que minha natureza observadora e contemplativa me faz olhar a vida minuciosamente, nunca pela superfície. E, talvez por isso, com as pessoas eu me desprenda com a mesma intensidade com que me conecto.
Tenho dificuldade para me aproximar, mas, se for preciso me afastar, sou ótima nisso. Talvez, com as outras pessoas, o processo também seja assim.
Penso em mim há dez, vinte, trinta anos e vejo tantas versões diferentes de quem fui. Características que foram aperfeiçoadas, outras que desapareceram completamente, outras que só descobri com o tempo. Então, como poderia buscar nos outros quem eles foram na minha juventude?
Se reencontro alguém, a conversa termina nas superficialidades. Não porque não haja história, mas justamente porque há história demais. E, às vezes, o que fomos um para o outro pertence àquele tempo e somente àquele tempo.
Não é que eu não sinta saudade.
É que quem de fato é importante nunca se foi. Quem se importa dá o ar da graça, mesmo que virtualmente. Quem atravessa a vida com a gente porque quer e porque gosta nunca perde o lugar.
Minha memória, entretanto, permanece intacta. Visita o passado e reencontra dores, amores, decepções, malquerenças, sorrisos. Registra tudo. Não apaga quase nada. Não é falta de memória, é excesso dela.
Mas também não quero reviver nada. Eu lembro, só não volto.
Deixo cada coisa quietinha, no lugar onde a vida a colocou e sigo.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Na presença de Deus
O encontro mais esperado
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Entre crenças e encontros
Em páginas de debates, na maioria das vezes só encontro embates.
Crente ameaçando ateu com condenação eterna; ateu chamando cristão de ignorante, manipulado ou incapaz de pensar por si mesmo.
E, daqui da minha insignificância, eu só consigo enxergar um espaço desperdiçado, um lugar onde os encontros poderiam ser de troca de percepções.
Que cada um pudesse falar de si, de suas experiências, das coisas que viveu, das perguntas que carrega, das respostas que encontrou ou não encontrou.
Sem a obrigação de convencer ninguém.
Mas parece que, para muita gente, o divertido é depreciar o outro. Como se uma crença só pudesse sobreviver quando a crença alheia fosse destruída.
Aqui em casa é diferente.
Na minha família, eu sou cristã desigrejada. Meu filho é ateu. Minha nora é católica não praticante. Minha irmã é espírita. Minha sobrinha simpatiza com religiões de matriz africana. Meu irmão é católico, a esposa é toda mística e os filhos são agnósticos.
E estamos todos muito bem, obrigada. Na mais perfeita harmonia, com respeito e liberdade.
Ninguém tenta converter ninguém. Ninguém precisa provar que está certo. Ninguém precisa sair vencedor de uma conversa.
Nos nossos encontros, quase não falamos de fé. Há coisas íntimas demais para serem transformadas em instrumento de disputa.
O que nos une não é a concordância sobre Deus. É o vínculo do amor.
E talvez seja justamente isso que tantos debates sobre religião esquecem: antes de sermos cristãos, ateus, espíritas, católicos, agnósticos ou qualquer outra coisa, somos pessoas.
Pessoas com histórias que não cabem em rótulos.
Eu não preciso que meu filho creia como eu para amá-lo. Ele não precisa acreditar no que acredito para me respeitar.
Minha irmã não precisa abandonar sua fé para que a minha seja verdadeira. E nenhum de nós precisa transformar o outro em inimigo para preservar aquilo em que acredita. Nem todo encontro precisa produzir concordância.
Às vezes, o verdadeiro encontro acontece justamente quando conseguimos permanecer diferentes sem deixar de nos reconhecer como irmãos na humanidade.
Quando a experiência vira medida para o outro
domingo, 23 de agosto de 2026
Mundo castrador
sábado, 22 de agosto de 2026
O caminho inverso
Inerrância bíblica
Hoje alguém me perguntou se eu considerava a Bíblia inerrante.
Respondi que, onde o homem coloca a mão, existe a possibilidade de erro. A própria formação do cânon bíblico foi um processo humano, embora minucioso, envolvendo comunidades, tradição e reconhecimento dos textos ao longo do tempo.
Há também passagens cuja transmissão manuscrita apresenta dificuldades e cuja reconstrução depende do trabalho de estudiosos.
Para mim, a Bíblia é um registro precioso que contém o testemunho da Palavra de Deus, mas não é, por isso, um documento humano absolutamente isento de erros.
Ele então disse que, continuando assim, eu acabaria me tornando ateia.
Respondi que não. Minha fé é parte de quem sou no mundo. É essencial para mim, mas não castra minha inteligência, minha autonomia ou meu discernimento.
Aliás, escrevo sobre fé diariamente porque amo o Evangelho. Não sou religiosa no sentido de precisar me submeter a uma ortodoxia para continuar crendo. E não tenho medo de pensar.
Ele então disse: “Com todas as contradições e coisas sem nexo, mesmo assim você consegue continuar acreditando. Parabéns!”
Ora, ainda que não existisse Bíblia, eu creria, porque a Palavra é Cristo. E não fui eu quem O escolheu.
Ele riu e respondeu que, sem a Bíblia, a tradição não teria permanecido por muito tempo e hoje eu sequer teria conhecimento de Jesus.
Talvez ele tenha razão quanto à importância histórica das Escrituras para a preservação e transmissão do conhecimento sobre Jesus. Mas ele estava falando da transmissão histórica da fé; eu estava falando da origem da minha.
Não importa a cultura. Não importa como a mente humana assimile o sagrado, nem o nome que dê ao mistério. Não tenho vínculo com a necessidade de uma ortodoxia que determine os limites do que posso pensar.
Deus se revela a quem quer e da maneira que quer.
Ele ficou em silêncio. Respondeu apenas: “Ok.” Talvez ele não soubesse o que responder.
Quando a medicina não sabia mais o que fazer comigo, disseram aos meus pais que era questão de dias para que eu morresse. Recebi tratamento paliativo e fui liberada para passar meus últimos momentos em casa, porque já representava risco para outras crianças na enfermaria.
Foi em um grupo de oração que recebi aquilo que compreendi como cura para o corpo e, junto dela, a pequena semente da minha fé.
Eu era criança. Não tinha condições de compreender teologia, conhecer a Bíblia ou escolher uma religião.
Mas havia um nome que latejava dentro de mim: Jesus.
Comigo, foi através da cura que Ele se manifestou. Sei, porém, que não precisa ser assim com todo mundo.
Também creio que, quando o Pai dá, Ele não lança fora. Mesmo quando alguém não possui conhecimento intelectual suficiente para compreender aquilo que está recebendo, Deus não está limitado pela capacidade humana de formular conceitos.
Eu não sabia. E fui crescendo, respondendo a um amor que sentia antes mesmo de conseguir compreendê-lo.
Onde há amor, há Deus agindo na vida do homem.
O conhecimento veio muito depois.
Sabendo ou não sabendo da boa-nova, o ser humano é capaz de perceber o sagrado. Pode chamar o mistério de Jesus ou dar-lhe outro nome. Pode até não saber nomeá-lo. Ainda assim, pode deixar-se transformar, aperfeiçoar, tornar-se mais humano.
Da mesma forma, abraçar uma religião, seguir seus decretos e defender sua ortodoxia não garante a ninguém um relacionamento com a pessoa de Cristo Jesus.
Eu não saberia explicar quando minha fé começou. É como um pedaço de mim.
Só sei que não viveria sem ela — e que não deixarei de falar do Evangelho enquanto houver em mim palavras para fazê-lo.
Eu penso justamente porque acredito. E minha fé não precisa ter medo daquilo que meu intelecto encontra.
Minha fé não nasceu de uma certeza intelectual sobre um livro. Nasceu antes que eu tivesse intelecto suficiente para formular qualquer certeza.
A Bíblia veio depois. Ela me ajudou a nomear, compreender e aprofundar aquilo que já havia acontecido em mim.
Por isso, posso questionar a Bíblia sem precisar abandonar Cristo.
Meu fundamento não é a inerrância de um texto. É a pessoa de Jesus.
E, se algum dia eu descobrir que estava errada sobre alguma coisa que hoje acredito, ainda assim continuarei procurando a verdade.
Porque minha fé não me ensinou a ter medo da verdade.
Ensinou-me a amá-la.
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Deus trabalha na nossa imperfeição
Deus é amor
Deus conosco
Cada um com sua percepção
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
Dependente de Cristo
Grande, Santo, Puro e Bom é Deus.
Eu não passo de um ser humano possível, viável, provável, no meio de uma humanidade corrompida.Sou, portanto, desesperadamente dependente de Cristo para mediar a minha causa, porque, fora dEle, não houve, não há e não haverá um justo sequer que possa se apresentar apoiado nos próprios méritos.
Minha esperança não está naquilo que consigo produzir de bom, nem naquilo que consigo esconder de ruim. Está nEle.
Porque diante da grandeza, da santidade, da pureza e da bondade de Deus, toda pretensão humana de justiça própria desmorona.
E talvez seja justamente aí que começa a graça: quando finalmente deixamos de tentar parecer justos e admitimos que precisamos de um Justo que nos sustente.
Goteiras no olhar
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Espelho para a alma
Se não houver impacto, se não virar do avesso, se não funcionar como um espelho refletindo o interior, não é Evangelho, mas qualquer coisa genérica, baseada em ilusão.
O verdadeiro Evangelho provoca vergonha, arrependimento e conversão de caminhos. Provoca o desejo de recomeçar, de abandonar o passado e de aprender o ensino de Jesus.
O Evangelho nos coloca diante da batalha entre o ego e o amor. Por isso, nos confronta diretamente. Afinal, vencer o próprio ego não é nada fácil.
Quando anunciamos o Evangelho, é a própria Verdade que confronta. Sem força, sem violência, sem coerção. Ainda assim, ela provoca diferentes reações em quem a ouve.
Talvez seja justamente por isso que eu sempre diga que a Graça é um espelho.
Ou você se enxerga e deseja mudar, ou quebra o espelho para não precisar encarar a verdade.
A Graça não humilha para destruir.
Ela revela para curar.
Não mostra nossas deformidades para nos condenar, mas para que finalmente reconheçamos aquilo que precisa ser transformado.
O problema é que nem todos querem ser transformados.
Alguns preferem quebrar o espelho.
É mais fácil destruir aquilo que revela a verdade do que permitir que a verdade destrua aquilo que precisa morrer em nós.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O que não me interessa
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Sacerdócio é entrega
domingo, 16 de agosto de 2026
Onde estás?
Moradas de Deus
sábado, 15 de agosto de 2026
Meu pai
Meu pai era um homem alegre. Sambista, jovial, gostava de contar e ouvir piadas, até a risada virar um assovio.
Foi criado em uma família evangélica raiz, daquelas o mais fundamentalista possível. Meu avô não tinha religião, mas minha avó era irmã do coque. Daquelas que praticavam e buscavam sem desviar o olhar. Os filhos todos iam para a igreja em carreirinha.
Ele contava que trabalhava desde a infância. Foi engraxate, ajudante na venda e, como primogênito, precisava ajudar em casa. Ainda assim, as dificuldades eram muitas e passavam por muitas privações.
Especialmente quando falava que ia para a escola de tamancos de pau. O coro dos colegas, chamando-o de pobre, fazia sua voz embargar. Naquele momento, aparecia o menino que ainda carregava as marcas da humilhação.
Mas o bom humor sempre o salvou.
Cresceu cedo demais, cercado de responsabilidades. Casou-se jovem e cuidou de nós com muita dedicação, para que nada nos faltasse.
Tanto ele quanto minha mãe tinham o hábito de relembrar o passado. Não para lamentar, mas para nos ensinar gratidão: pelo pouco que tínhamos, pelas oportunidades que surgiam e, principalmente, por termos uns aos outros.
Mas passar a infância e a adolescência dentro de uma igreja que, para ele, era castradora do ser, acabou produzindo um jovem "transgressor" da religiosidade.
Ele se desviou — segundo a igreja — e foi viver o que desejava viver.
Amava uma festa. Cantava músicas da Jovem Guarda em bandas, vestia roupas coloridas, deixou o cabelo crescer e chegou a ter fãs.
Casou-se com minha mãe aos 22 anos; ela tinha 18. Aos 27 e 23, já tinham os três filhos.
De vez em quando, oscilava entre a reconciliação com a igreja e a atração pela vida boêmia. Disputava samba-enredo em blocos e escolas de samba. E, quando estava na igreja, compunha hinos ao som do violão.
Era bonito e nada fiel. Isso desgastou muito o casamento. Minha mãe sofreu bastante com suas infidelidades. Mas ele também tentava ser um bom pai e um bom marido. Naquela época, esses deslizes masculinos eram muito mais tolerados pela sociedade, e minha mãe acabava sempre perdoando.
Depois ele amadureceu. Já não tinha o mesmo ímpeto de fazer tudo o que dava na telha. Estava dedicado a pagar as prestações do apartamento que haviam comprado. Trabalhava no quartel e, nas horas vagas, dirigia táxi. Já não tinha a mesma energia para passar a noite na rua.
Até que, um dia, tudo terminou.
Estava de férias-prêmio no Corpo de Bombeiros e trabalhou no táxi o dia inteiro. Quando estava chegando em casa, a apenas um quarteirão, parou na padaria onde sempre comprava alguma coisa para levar para casa.
Estacionou em frente ao supermercado, foi até lá e voltou. Mas, antes de entrar no carro, um ônibus sem freio subiu no estacionamento e o atropelou.
Perdi meu pai aos quinze anos, de uma forma repentina e trágica.
Quando vieram avisar sobre o acidente, fui eu quem atendeu. Chamei minha mãe e fomos juntas ao pronto-socorro. Foi lá que soubemos de sua morte.
Foi devastador para toda a família.
Dias antes, ele estava bastante sensível. Sempre dizia que sabia que morreria aos quarenta anos. Naquele agosto, estava particularmente pensativo. Chegou a nos orientar sobre quem procurar caso alguma coisa lhe acontecesse.
No dia 30, conversava com minha mãe e disse: "Eu nunca gostei de agosto. Tudo de ruim que aconteceu comigo foi nesse mês. Eu tinha certeza que seria esse mês. Mas hoje é dia 30 e nada aconteceu. Vamos sair. Enquanto as meninas ficam no clube, a gente fica no bar em frente."
E lá ficaram os dois, conversando. Ele instruiu minha mãe sobre todos os procedimentos.
No dia seguinte, acordou cedo, mas não foi logo trabalhar. Ficou limpando o carro enquanto nós ríamos de suas gracinhas pelas janelas dos quartos, dois em cada janela.
Depois entrou no carro. Foi saindo de ré e, a cada dois metros, colocava a cabeça para fora para dar tchau. Fez isso umas cinco vezes. Até sair e não voltar mais.
Ele foi atropelado de costas. Não viu a morte chegar. O ônibus o imprensou contra o poste do semáforo.
Como ele sabia? Ninguém pode explicar. O sobrenatural nos ronda. E comigo também acontecem coisas que não consigo explicar.
Mas há coisas que não precisam ser explicadas para permanecerem. As boas lembranças que guardo fazem meu pai continuar presente.
A morte levou seu corpo, mas não levou aquilo que ele deixou em nós. E há uma lembrança que, hoje, tem para mim um significado ainda maior.
Uma de nossas últimas conversas foi sobre fé. Ele me disse: "Não tem a ver com o que faço. Tem a ver com o que Cristo fez."
Eu ainda não entendia muito bem. Só fui estudar essas coisas muitos anos depois. Mas guardei aquelas palavras.
E hoje penso que talvez elas expliquem um pouco daquele homem que se permitia viver tão intensamente. Ele tinha fé e descansava na Graça.
Meu pai viveu quarenta anos. Este ano completaria oitenta. E, de algum modo, ainda vive nas coisas que deixou em mim.
Era um homem inteiro: alegre e ferido, boêmio e responsável, transgressor e homem de fé, infiel e dedicado aos filhos, marcado pela pobreza e ainda assim capaz de rir. Humano e feliz.
Às vezes penso que eu teria ainda tanta coisa para aprender com ele. Mas talvez tenha aprendido justamente uma das coisas mais importantes: que uma vida pode ser curta e, ainda assim, deixar marcas que atravessam décadas.
Quarenta anos foram pouco para quem ficou. Mas o pouco que vivemos juntos é inesquecível e valioso para mim.
O que é sagrado?
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Reconciliação com o corpo
Até entender que o peso que carrego no corpo também guarda emoções não trabalhadas, eu encontrava justificativas para o meu não emagrecimento.
É claro que fiz muitas tentativas frustradas. E, depois de cada frustração, ganhei mais peso e acrescentei outros pesos aos que já carregava.
Mas localizar a minha falta dentro de mim me fez finalmente decidir combater essa doença.
Entendi que não posso mais abandonar o meu corpo, porque ele é o instrumento que tenho para realizar, nesta vida, tudo aquilo que ainda me cabe viver.
O que fizeram comigo e o que continuaram fazendo ao longo da vida , não pode me dominar a ponto de eu deixar de me importar com aquilo que a comida faz com o meu corpo.
Até porque, se eu não despertasse, talvez morresse antes mesmo de chegar à terceira idade.
A crosta que me envolve foi, durante muito tempo, aquilo que me abraçou, me protegeu e me confortou. Mas hoje ela também me cansa, destrói minhas articulações e sobrecarrega meu coração.
Enganei-me por muito tempo, achando que o que importava era cuidar da minha alma, sem perceber que, quando negligencio meu corpo, minha saúde também deixa de ser integral.
Cuidar do corpo não é abandonar a alma.
É também cuidar dela.
Deixar o peso do passado para trás começa a aliviar o corpo. Consigo enxergar agora o quanto me anestesiei com a comida. Quantas vezes tentei calar com alimento aquilo que não sabia nomear, suportar ou elaborar.
Mas eu não preciso continuar fazendo isso.
Já que não posso mudar o mundo, nem as pessoas que atravessam minha trajetória, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para mudar por mim mesma.
Não porque finalmente aprendi a me amar perfeitamente. Mas porque, talvez pela primeira vez, entendi que eu também preciso ser alguém por quem vale a pena lutar.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Deixar ir
Aprendi com Cristo a ser tardia em me irar.
Mas a longanimidade não é ausência de limites. Não desisto por impulso; desisto depois de ter tentado.
Ser tardio em irar-se não significa ser tardio em partir quando a permanência deixou de ser saudável.
A vida inteira tentei dar chances: às amizades que me machucaram, aos lugares onde trabalhei e não foram justos, aos relacionamentos amorosos. Não porque eu não enxergasse os erros, mas porque acredito que todo mundo erra e que, quando há arrependimento, todo mundo merece a oportunidade de tentar se consertar.
Também aprendi alguma coisa sobre mim: quando eu desisto, é uma vez só.
Porque meu olhar muda quando deixo de acreditar.
E, quando a esperança de que algo possa ser diferente se desfaz dentro de mim, não consigo mais fingir que ainda existe aquilo que já morreu.
Ponto final também serve para usar.
Hoje, no ônibus, fui me lembrando de cada situação, de cada coisa que relevei, de cada vez que precisei engolir o orgulho para não desistir das pessoas.
Houve insistências que duraram anos a fio.
Anos tentando compreender, perdoando, esperando mudanças. Anos acreditando que talvez, desta vez, fosse diferente.
Mas, quando finalmente desisto, eu me retiro sem olhar para trás.
Já aconteceu de doer muitas vezes. Depois do luto, descobri que era alívio.
Tirar dos lombos o peso de carregar relações que já acabaram, lugares que perderam o sentido, amores falidos e amizades desleais muitas vezes é cura.
É voltar para nós mesmos.
Há uma diferença entre abandonar alguém no primeiro erro e reconhecer que uma relação se tornou um lugar onde só uma pessoa continua tentando.
Ser tardia em irar-se não significa permanecer indefinidamente onde somos feridos.
Perdoar não nos obriga a continuar.
Dar uma chance não significa dar todas.
Ter paciência não significa não ter limites.
Às vezes, a maneira mais honesta de reconhecer que algo terminou é simplesmente parar de carregá-lo.
Permanecer naquilo que já acabou pode se tornar uma espécie de dependência: continuamos porque temos medo do vazio que ficará quando soltarmos.
Mas eu não quero mais viver assim. Não quero carregar nas costas aquilo que já não existe.
Quero aprender a deixar ir sem transformar a partida em vingança.
Porque algumas despedidas não são fracassos. Deixar ir também pode ser um ato de amor, especialmente a nós mesmos.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
O inferno que a religião construiu
E se o inferno for a consciência diante daquilo que rejeitamos?
Não encontro nas Escrituras uma descrição tão detalhada do inferno quanto aquela que a tradição religiosa construiu ao longo dos séculos.
Há fogo. Há trevas. Há choro e ranger de dentes. Há Geena. Há Hades. Há o lago de fogo. Há imagens de destruição e juízo.
Mas transformar todas essas imagens em uma geografia literal do além, com demônios torturando pessoas eternamente em chamas, é outra coisa.
Boa parte dessa representação pertence muito mais ao imaginário religioso desenvolvido posteriormente do que a uma descrição sistemática feita pelos próprios textos bíblicos.
O inferno de Dante, por exemplo, tornou-se uma das imagens mais poderosas do imaginário ocidental, mas Dante não escreveu uma doutrina bíblica do inferno; escreveu uma obra literária.
E talvez devêssemos ter mais cuidado para não atribuir a Deus aquilo que nasceu da nossa própria imaginação religiosa.
Porque, se existe um lugar de tormento, talvez o tormento não precise ser imaginado como uma tortura aplicada por Deus.
Talvez seja muito mais profundo.
Aqui, enquanto estamos revestidos de carne, conseguimos fugir de nós mesmos. Podemos anestesiar a consciência. Distrair-nos. Construir justificativas. Colocar o ego no centro. Dizer que somos suficientes. Convencer-nos de que não precisamos de Deus.
Podemos até olhar para quem crê e dizer que lhe falta inteligência, que foi manipulado pela cultura, pela família ou pela religião.
Podemos construir uma vida inteira sem sentir falta daquilo que rejeitamos.
Mas e se, depois da morte, a consciência deixar de possuir os mesmos mecanismos de fuga?
E se aquilo que agora conseguimos silenciar tornar-se impossível de ignorar?
Então talvez o tormento não seja Deus torturando alguém. Talvez seja a própria consciência finalmente percebendo aquilo que passou a vida inteira recusando.
Não porque Deus tenha deixado de amar. Mas porque, diante da verdade, já não há como continuar mentindo para si mesmo.
A parábola do rico e Lázaro é intrigante justamente por isso. O rico está em tormento. Mas Abraão ainda o chama de “filho”. Não o chama de monstro. Não o trata como lixo. Não parece haver prazer na condenação. Há reconhecimento, diálogo e consciência.
O homem compreende. Lembra. Reconhece. Pensa nos irmãos. Deseja adverti-los. Percebe que sua vida poderia ter sido diferente.
A angústia começa justamente quando a consciência enxerga aquilo que antes não queria enxergar.
É interessante também que o texto não diga que Abraão deixou de amá-lo por ele estar naquela condição.
E isso me faz pensar.
Será que o juízo de Deus é vingança ou revelação? Será que o fogo é simplesmente instrumento de tortura? Ou pode ser também a imagem de algo que consome tudo aquilo que não pode permanecer diante da verdade?
A própria linguagem bíblica do fogo permite essa reflexão. O fogo destrói. Purifica. Revela. Consome.
E, no Apocalipse, até a própria morte e o Hades são lançados no lago de fogo. Isso é uma imagem extremamente provocadora. Porque, se o lago de fogo representa o destino definitivo do mal, não seria estranho perguntar: o que exatamente permanece eternamente — o mal ou a consciência de quem foi vencido pelo mal?
Não sei. E aqui faço questão de dizer: não sei.
A Bíblia não me permite transformar essa esperança em certeza doutrinária.
Ela também contém textos que parecem apontar para um juízo definitivo e textos cuja linguagem permite interpretações diferentes.
Por isso, eu não afirmaria que todas as pessoas certamente serão salvas depois da morte. Mas também não vejo necessidade de fechar a porta onde a Escritura não a fechou de maneira inequívoca.
Existe uma esperança que me parece compatível com o caráter de Deus: se, depois de toda a ilusão, toda a resistência e todo o autoengano, uma consciência finalmente desejar a luz, por que imaginaríamos que Deus teria prazer em recusá-la?
Não estou dizendo que sei que isso acontecerá.
Estou dizendo que espero que a misericórdia de Deus seja maior do que a nossa capacidade de compreendê-la.
Porque o Deus revelado em Cristo não parece alguém procurando oportunidades para excluir.
É aquele que procura. Que chama. Que espera. Que recebe. Que deixa noventa e nove para procurar uma. Que corre ao encontro do filho que volta. Que pede perdão para os que o crucificam. Que diz que veio salvar o mundo.
Então talvez devêssemos ter muito cuidado com uma teologia que transforma o inferno em instrumento de intimidação.
O medo pode produzir conformidade. Mas não produz necessariamente amor. Pode fazer alguém obedecer para escapar da punição.
Mas o Evangelho parece querer algo muito mais profundo: que conheçamos a Deus e, conhecendo-o, aprendamos a amá-lo.
Talvez o verdadeiro inferno seja justamente viver separado daquilo para o qual fomos criados. E talvez a salvação seja mais do que escapar de um lugar de fogo. Talvez seja ser finalmente reconciliado com a Fonte da própria existência.
Por isso não consigo imaginar a eternidade como uma espécie de prisão onde Deus conserva conscientemente milhões de criaturas apenas para que sofram para sempre.
Posso estar errada.
A Escritura tem mistérios que ultrapassam minha compreensão. Mas, quando não sei, prefiro deixar aberta a pergunta do que preencher o silêncio com uma certeza construída pelo medo.
Se eternidade não é simplesmente uma quantidade infinita de tempo, mas uma realidade que transcende nossa experiência temporal, então talvez não devêssemos transportar para ela todas as categorias que usamos aqui.
E se o mal terá fim? Se a morte será vencida? Se o Hades será lançado no lago de fogo? Se Deus finalmente será “tudo em todos”? Então me permito esperar. Não como quem possui uma doutrina pronta. Mas como quem conhece o caráter daquele em quem escolheu confiar.
Se houver uma consciência que, depois de atravessar toda a escuridão, finalmente desejar a Luz, eu quero acreditar que a Luz não lhe dirá: “Você chegou tarde demais.”
Quero acreditar que Deus continuará sendo Deus. E que a última palavra não será dada pelo medo. Será dada pela Graça.
Orações
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Outubro é logo alí
O Evangelho não faz acepção de pessoas
Sabe como os religiosos tratavam os publicanos?
Eram vistos como traidores do próprio povo, porque trabalhavam a serviço do Império Romano na cobrança de impostos. Alguns, inclusive, enriqueciam cobrando além do que era devido. Por isso carregavam o peso da desconfiança, da exclusão e do julgamento.
Mas Jesus se assentava à mesa com eles.
Chamou Mateus para segui-lo. Entrou na casa de Zaqueu. E contou a parábola do publicano e do fariseu para mostrar que, diante de Deus, não é a posição religiosa que justifica alguém.
Sabe como os judeus tratavam os samaritanos?
Havia entre eles uma profunda hostilidade religiosa, histórica e étnica. Os samaritanos eram considerados impuros e religiosamente inferiores por muitos judeus.
Jesus, porém, colocou um samaritano como personagem central de uma parábola para ensinar que religião não torna ninguém superior a ninguém.
O próximo não é aquele que pertence ao nosso grupo. É aquele diante de quem somos capazes de exercer misericórdia.
E foi a uma mulher samaritana que Jesus falou sobre a Água Viva, uma água que não dependeria de Jerusalém, do monte Gerizim, de linhagem ou de pertencimento étnico, porque brotaria no interior daquele que recebe a vida de Deus.
Sabe como mulheres consideradas pecadoras eram tratadas?
Com julgamento, vergonha e exclusão. Mas Jesus não se relacionava com elas a partir do desprezo. Mulheres que carregavam histórias moralmente condenadas pela sociedade encontraram nele alguém que não as reduzia ao próprio passado.
A mulher que lavou seus pés com lágrimas foi recebida. A mulher que derramou perfume sobre ele foi recebida. A mulher acusada de adultério foi colocada diante daqueles que queriam condená-la, e Jesus os fez olhar primeiro para a própria condição.
O Evangelho não começa apontando o dedo para o pecado do outro. Começa revelando o nosso próprio coração.
Agora olhe para os nossos dias.
Como alguns pastores conservadores tratam pastores progressistas? Como alguns progressistas tratam conservadores?
Muitas vezes, exatamente como os grupos religiosos que Jesus confrontou: não há escuta, diálogo ou disposição para compreender. Há demonização, descredibilização e uma necessidade permanente de provar que o outro está completamente errado.
Troca-se o amor pela disputa. A consciência pela identidade de grupo. O Evangelho pelo slogan. E, quando isso acontece, podemos continuar pronunciando o nome de Jesus enquanto reproduzimos exatamente aquilo que ele confrontou.
Como sociedade, porém, somos outra coisa. Vivemos numa sociedade plural. Pessoas pensam diferente, creem diferente, votam diferente e fazem escolhas diferentes.
E devem ser tratadas como iguais perante a lei. Não precisamos concordar para respeitar. Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer a dignidade do outro. Não precisamos transformar o diferente em inimigo.
E aqui existe também uma dimensão social importante no princípio bíblico do dízimo.
Na legislação de Israel, a produção daqueles que possuíam recursos tinha também uma dimensão comunitária: havia provisão para levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas.
A lógica era que aqueles que tinham mais recursos também participassem da sustentação daqueles que não tinham.
Hoje podemos discutir quais são os melhores instrumentos para produzir justiça social. Podemos discordar sobre impostos, programas sociais, tamanho do Estado, responsabilidade individual e tantas outras questões.
Mas uma coisa não deveria ser confundida: quem precisa de ajuda não deve ser automaticamente tratado como vagabundo.
Corrupção existe. Abuso existe. Fraude existe. E deve ser combatida.
Mas a existência de pessoas que fraudam um benefício não transforma todos os beneficiários em fraudadores. Assim como a existência de religiosos que roubam não transforma todo religioso em ladrão. O próprio profeta Malaquias denuncia a corrupção envolvendo os dízimos.
Portanto, talvez devêssemos parar de olhar para a política como uma guerra entre santos e pecadores.
"Ah, mas o outro é ladrão!" E daí? Isso não torna automaticamente honesto aquele que você apoia. Nesse jogo ninguém deveria ser tratado como ungido.
Candidatos não são messias. Partidos não são igrejas. Políticos não são salvadores. E eleitor não deveria ser massa de manobra.
Sou cristã.
Mas sinto vergonha quando vejo pessoas idolatrando políticos porque eles aparecem em igrejas, participam de batismos, citam versículos ou transformam a linguagem cristã em slogan eleitoral, enquanto suas atitudes concretas revelam pouca disposição para tratar pessoas com dignidade, misericórdia e justiça.
O Evangelho não me ensinou a perguntar primeiro: "De que lado ele está?" Ensinou-me a perguntar: "Que frutos essa pessoa produz?"
Na política, porém, há ainda outra pergunta: "Quem representa os interesses que considero importantes?" Sou empresária? Trabalhador? Artista? Aposentado? Pobre? Classe média?
Quais propostas podem favorecer ou prejudicar aquilo que considero justo? Quais candidatos existem? O que eles fizeram antes? O que estão propondo? Quem os financia? Quais informações são verificáveis?
E, principalmente: o que é fato e o que é fake news?Investigar antes de votar não é falta de fé. É responsabilidade.
O Reino de Deus não pertence a partido algum. Não está sentado numa cadeira presidencial. Não tem número eleitoral. Não precisa de palanque.
O Reino de Deus não é deste mundo.
Por isso, nenhum candidato pode receber aquilo que pertence somente a Cristo.
Na perspectiva da nossa fé, toda a humanidade permanece igualmente dependente da Graça.
Não existe candidato ungido. Não existe eleitor santo. Não existe partido cristão por natureza. Existem seres humanos, com interesses, virtudes, defeitos, contradições e responsabilidades.
E, como sociedade, precisamos construir aquilo que a política deve buscar: justiça, liberdade, dignidade e igualdade perante a lei.
Não precisamos votar como cristãos para impor o Reino. Precisamos viver como cristãos sem transformar o Reino em instrumento de poder.
Não entregue sua consciência a político nenhum.
Não entregue sua inteligência a partido nenhum.
Não transforme candidato em salvador.
Pesquise. Questione. Compare. Desconfie das certezas fáceis. Confira antes de compartilhar. E vote conscientemente. Porque fé não é terceirização da consciência.
Outubro é logo alí.