O Evangelho não faz acepção de pessoas
Sabe como os religiosos tratavam os publicanos?
Eram vistos como traidores do próprio povo, porque trabalhavam a serviço do Império Romano na cobrança de impostos. Alguns, inclusive, enriqueciam cobrando além do que era devido. Por isso carregavam o peso da desconfiança, da exclusão e do julgamento.
Mas Jesus se assentava à mesa com eles.
Chamou Mateus para segui-lo. Entrou na casa de Zaqueu. E contou a parábola do publicano e do fariseu para mostrar que, diante de Deus, não é a posição religiosa que justifica alguém.
Sabe como os judeus tratavam os samaritanos?
Havia entre eles uma profunda hostilidade religiosa, histórica e étnica. Os samaritanos eram considerados impuros e religiosamente inferiores por muitos judeus.
Jesus, porém, colocou um samaritano como personagem central de uma parábola para ensinar que religião não torna ninguém superior a ninguém.
O próximo não é aquele que pertence ao nosso grupo. É aquele diante de quem somos capazes de exercer misericórdia.
E foi a uma mulher samaritana que Jesus falou sobre a Água Viva, uma água que não dependeria de Jerusalém, do monte Gerizim, de linhagem ou de pertencimento étnico, porque brotaria no interior daquele que recebe a vida de Deus.
Sabe como mulheres consideradas pecadoras eram tratadas?
Com julgamento, vergonha e exclusão. Mas Jesus não se relacionava com elas a partir do desprezo. Mulheres que carregavam histórias moralmente condenadas pela sociedade encontraram nele alguém que não as reduzia ao próprio passado.
A mulher que lavou seus pés com lágrimas foi recebida. A mulher que derramou perfume sobre ele foi recebida. A mulher acusada de adultério foi colocada diante daqueles que queriam condená-la, e Jesus os fez olhar primeiro para a própria condição.
O Evangelho não começa apontando o dedo para o pecado do outro. Começa revelando o nosso próprio coração.
Agora olhe para os nossos dias.
Como alguns pastores conservadores tratam pastores progressistas? Como alguns progressistas tratam conservadores?
Muitas vezes, exatamente como os grupos religiosos que Jesus confrontou: não há escuta, diálogo ou disposição para compreender. Há demonização, descredibilização e uma necessidade permanente de provar que o outro está completamente errado.
Troca-se o amor pela disputa. A consciência pela identidade de grupo. O Evangelho pelo slogan. E, quando isso acontece, podemos continuar pronunciando o nome de Jesus enquanto reproduzimos exatamente aquilo que ele confrontou.
Como sociedade, porém, somos outra coisa. Vivemos numa sociedade plural. Pessoas pensam diferente, creem diferente, votam diferente e fazem escolhas diferentes.
E devem ser tratadas como iguais perante a lei. Não precisamos concordar para respeitar. Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer a dignidade do outro. Não precisamos transformar o diferente em inimigo.
E aqui existe também uma dimensão social importante no princípio bíblico do dízimo.
Na legislação de Israel, a produção daqueles que possuíam recursos tinha também uma dimensão comunitária: havia provisão para levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas.
A lógica era que aqueles que tinham mais recursos também participassem da sustentação daqueles que não tinham.
Hoje podemos discutir quais são os melhores instrumentos para produzir justiça social. Podemos discordar sobre impostos, programas sociais, tamanho do Estado, responsabilidade individual e tantas outras questões.
Mas uma coisa não deveria ser confundida: quem precisa de ajuda não deve ser automaticamente tratado como vagabundo.
Corrupção existe. Abuso existe. Fraude existe. E deve ser combatida.
Mas a existência de pessoas que fraudam um benefício não transforma todos os beneficiários em fraudadores. Assim como a existência de religiosos que roubam não transforma todo religioso em ladrão. O próprio profeta Malaquias denuncia a corrupção envolvendo os dízimos.
Portanto, talvez devêssemos parar de olhar para a política como uma guerra entre santos e pecadores.
"Ah, mas o outro é ladrão!" E daí? Isso não torna automaticamente honesto aquele que você apoia. Nesse jogo ninguém deveria ser tratado como ungido.
Candidatos não são messias. Partidos não são igrejas. Políticos não são salvadores. E eleitor não deveria ser massa de manobra.
Sou cristã.
Mas sinto vergonha quando vejo pessoas idolatrando políticos porque eles aparecem em igrejas, participam de batismos, citam versículos ou transformam a linguagem cristã em slogan eleitoral, enquanto suas atitudes concretas revelam pouca disposição para tratar pessoas com dignidade, misericórdia e justiça.
O Evangelho não me ensinou a perguntar primeiro: "De que lado ele está?" Ensinou-me a perguntar: "Que frutos essa pessoa produz?"
Na política, porém, há ainda outra pergunta: "Quem representa os interesses que considero importantes?" Sou empresária? Trabalhador? Artista? Aposentado? Pobre? Classe média?
Quais propostas podem favorecer ou prejudicar aquilo que considero justo? Quais candidatos existem? O que eles fizeram antes? O que estão propondo? Quem os financia? Quais informações são verificáveis?
E, principalmente: o que é fato e o que é fake news?Investigar antes de votar não é falta de fé. É responsabilidade.
O Reino de Deus não pertence a partido algum. Não está sentado numa cadeira presidencial. Não tem número eleitoral. Não precisa de palanque.
O Reino de Deus não é deste mundo.
Por isso, nenhum candidato pode receber aquilo que pertence somente a Cristo.
Na perspectiva da nossa fé, toda a humanidade permanece igualmente dependente da Graça.
Não existe candidato ungido. Não existe eleitor santo. Não existe partido cristão por natureza. Existem seres humanos, com interesses, virtudes, defeitos, contradições e responsabilidades.
E, como sociedade, precisamos construir aquilo que a política deve buscar: justiça, liberdade, dignidade e igualdade perante a lei.
Não precisamos votar como cristãos para impor o Reino. Precisamos viver como cristãos sem transformar o Reino em instrumento de poder.
Não entregue sua consciência a político nenhum.
Não entregue sua inteligência a partido nenhum.
Não transforme candidato em salvador.
Pesquise. Questione. Compare. Desconfie das certezas fáceis. Confira antes de compartilhar. E vote conscientemente. Porque fé não é terceirização da consciência.
Outubro é logo alí.