Fé não é poder sobre o outro
Israel foi um povo rebelde, que muitas vezes colheu o fruto de sua própria desobediência. É, portanto, um modelo que também nos ensina pelo que não devemos repetir: cumpria protocolos religiosos, observava uma Lei cheia de prescrições e, ainda assim, muitas vezes se afastava de Deus. Tanto que não reconheceu Jesus, a revelação plena de Deus, caminhando entre eles.
A Igreja histórica, por sua vez, muito cedo reproduziu estruturas de religiosidade e poder, embora não encontremos nas palavras de Jesus uma ordem para institucionalizar a fé nos moldes que conhecemos. Jesus passou boa parte de seu ministério desconstruindo mal-entendidos religiosos e confrontando a hipocrisia, enquanto construía em seus seguidores algo muito mais profundo: caráter.
Ainda hoje, parte da Igreja se comporta como paladina da verdade, apontando o dedo para a sociedade e tentando preservar uma influência que já não possui — ou que gostaria de continuar possuindo — como nos períodos em que a religião esteve profundamente entrelaçada ao poder político e social. Houve tempos em que discordar da autoridade religiosa podia resultar em excomunhão, perseguição e, em determinados contextos históricos, até na morte.
Mas a sociedade não é composta apenas de cristãos. Nem todo mundo nasceu em uma família conservadora, nem todo mundo professa a mesma fé, nem todo mundo precisa se encaixar nos parâmetros estabelecidos por instituições religiosas.
Todos têm o direito de existir, pensar, discordar, se manifestar e escolher seus próprios representantes sem carregar sobre si o estigma de endemoniado, imoral ou inimigo de Deus.
Precisamos aprender a conviver em respeito, enxergando o outro como concidadão, e não como adversário. A diferença não deveria ser motivo de discriminação, porque direitos não são prêmio concedido aos que pensam como nós.
Muitas vezes, a religião presta um desserviço quando blinda seus membros do contato com a realidade e inculca neles a necessidade de manter distância do chamado “mundo”, como se uns fossem mais importantes do que outros, como se a religião conferisse algum tipo de superioridade ou poder, ou como se seus parâmetros particulares fossem a medida universal do que todos deveriam ser.
Não são.
O Estado é laico. A lei deve ser aplicada sem acepção de pessoas. E os direitos pertencem a todos, independentemente de religião ou ausência dela — pelo menos, é assim que deveria ser.
Siga sua religião. Viva sua fé. Vote em quem você acredita que deve representá-lo.
Mas tenha consciência de uma coisa:
o seu direito não lhe dá autoridade sobre a consciência do outro.
E o seu direito termina exatamente onde começa o direito de quem não pensa, não crê e não vive como você.