domingo, 16 de agosto de 2026
Onde estás?
Moradas de Deus
sábado, 15 de agosto de 2026
Meu pai
Meu pai era um homem alegre. Sambista, jovial, gostava de contar e ouvir piadas, até a risada virar um assovio.
Foi criado em uma família evangélica raiz, daquelas o mais fundamentalista possível. Meu avô não tinha religião, mas minha avó era irmã do coque. Daquelas que praticavam e buscavam sem desviar o olhar. Os filhos todos iam para a igreja em carreirinha.
Ele contava que trabalhava desde a infância. Foi engraxate, ajudante na venda e, como primogênito, precisava ajudar em casa. Ainda assim, as dificuldades eram muitas e passavam por muitas privações.
Especialmente quando falava que ia para a escola de tamancos de pau. O coro dos colegas, chamando-o de pobre, fazia sua voz embargar. Naquele momento, aparecia o menino que ainda carregava as marcas da humilhação.
Mas o bom humor sempre o salvou.
Cresceu cedo demais, cercado de responsabilidades. Casou-se jovem e cuidou de nós com muita dedicação, para que nada nos faltasse.
Tanto ele quanto minha mãe tinham o hábito de relembrar o passado. Não para lamentar, mas para nos ensinar gratidão: pelo pouco que tínhamos, pelas oportunidades que surgiam e, principalmente, por termos uns aos outros.
Mas passar a infância e a adolescência dentro de uma igreja que, para ele, era castradora do ser, acabou produzindo um jovem "transgressor" da religiosidade.
Ele se desviou — segundo a igreja — e foi viver o que desejava viver.
Amava uma festa. Cantava músicas da Jovem Guarda em bandas, vestia roupas coloridas, deixou o cabelo crescer e chegou a ter fãs.
Casou-se com minha mãe aos 22 anos; ela tinha 18. Aos 27 e 23, já tinham os três filhos.
De vez em quando, oscilava entre a reconciliação com a igreja e a atração pela vida boêmia. Disputava samba-enredo em blocos e escolas de samba. E, quando estava na igreja, compunha hinos ao som do violão.
Era bonito e nada fiel. Isso desgastou muito o casamento. Minha mãe sofreu bastante com suas infidelidades. Mas ele também tentava ser um bom pai e um bom marido. Naquela época, esses deslizes masculinos eram muito mais tolerados pela sociedade, e minha mãe acabava sempre perdoando.
Depois ele amadureceu. Já não tinha o mesmo ímpeto de fazer tudo o que dava na telha. Estava dedicado a pagar as prestações do apartamento que haviam comprado. Trabalhava no quartel e, nas horas vagas, dirigia táxi. Já não tinha a mesma energia para passar a noite na rua.
Até que, um dia, tudo terminou.
Estava de férias-prêmio no Corpo de Bombeiros e trabalhou no táxi o dia inteiro. Quando estava chegando em casa, a apenas um quarteirão, parou na padaria onde sempre comprava alguma coisa para levar para casa.
Estacionou em frente ao supermercado, foi até lá e voltou. Mas, antes de entrar no carro, um ônibus sem freio subiu no estacionamento e o atropelou.
Perdi meu pai aos quinze anos, de uma forma repentina e trágica.
Quando vieram avisar sobre o acidente, fui eu quem atendeu. Chamei minha mãe e fomos juntas ao pronto-socorro. Foi lá que soubemos de sua morte.
Foi devastador para toda a família.
Dias antes, ele estava bastante sensível. Sempre dizia que sabia que morreria aos quarenta anos. Naquele agosto, estava particularmente pensativo. Chegou a nos orientar sobre quem procurar caso alguma coisa lhe acontecesse.
No dia 30, conversava com minha mãe e disse: "Eu nunca gostei de agosto. Tudo de ruim que aconteceu comigo foi nesse mês. Eu tinha certeza que seria esse mês. Mas hoje é dia 30 e nada aconteceu. Vamos sair. Enquanto as meninas ficam no clube, a gente fica no bar em frente."
E lá ficaram os dois, conversando. Ele instruiu minha mãe sobre todos os procedimentos.
No dia seguinte, acordou cedo, mas não foi logo trabalhar. Ficou limpando o carro enquanto nós ríamos de suas gracinhas pelas janelas dos quartos, dois em cada janela.
Depois entrou no carro. Foi saindo de ré e, a cada dois metros, colocava a cabeça para fora para dar tchau. Fez isso umas cinco vezes. Até sair e não voltar mais.
Ele foi atropelado de costas. Não viu a morte chegar. O ônibus o imprensou contra o poste do semáforo.
Como ele sabia? Ninguém pode explicar. O sobrenatural nos ronda. E comigo também acontecem coisas que não consigo explicar.
Mas há coisas que não precisam ser explicadas para permanecerem. As boas lembranças que guardo fazem meu pai continuar presente.
A morte levou seu corpo, mas não levou aquilo que ele deixou em nós. E há uma lembrança que, hoje, tem para mim um significado ainda maior.
Uma de nossas últimas conversas foi sobre fé. Ele me disse: "Não tem a ver com o que faço. Tem a ver com o que Cristo fez."
Eu ainda não entendia muito bem. Só fui estudar essas coisas muitos anos depois. Mas guardei aquelas palavras.
E hoje penso que talvez elas expliquem um pouco daquele homem que se permitia viver tão intensamente. Ele tinha fé e descansava na Graça.
Meu pai viveu quarenta anos. Este ano completaria oitenta. E, de algum modo, ainda vive nas coisas que deixou em mim.
Era um homem inteiro: alegre e ferido, boêmio e responsável, transgressor e homem de fé, infiel e dedicado aos filhos, marcado pela pobreza e ainda assim capaz de rir. Humano e feliz.
Às vezes penso que eu teria ainda tanta coisa para aprender com ele. Mas talvez tenha aprendido justamente uma das coisas mais importantes: que uma vida pode ser curta e, ainda assim, deixar marcas que atravessam décadas.
Quarenta anos foram pouco para quem ficou. Mas o pouco que vivemos juntos é inesquecível e valioso para mim.
O que é sagrado?
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Reconciliação com o corpo
Até entender que o peso que carrego no corpo também guarda emoções não trabalhadas, eu encontrava justificativas para o meu não emagrecimento.
É claro que fiz muitas tentativas frustradas. E, depois de cada frustração, ganhei mais peso e acrescentei outros pesos aos que já carregava.
Mas localizar a minha falta dentro de mim me fez finalmente decidir combater essa doença.
Entendi que não posso mais abandonar o meu corpo, porque ele é o instrumento que tenho para realizar, nesta vida, tudo aquilo que ainda me cabe viver.
O que fizeram comigo e o que continuaram fazendo ao longo da vida , não pode me dominar a ponto de eu deixar de me importar com aquilo que a comida faz com o meu corpo.
Até porque, se eu não despertasse, talvez morresse antes mesmo de chegar à terceira idade.
A crosta que me envolve foi, durante muito tempo, aquilo que me abraçou, me protegeu e me confortou. Mas hoje ela também me cansa, destrói minhas articulações e sobrecarrega meu coração.
Enganei-me por muito tempo, achando que o que importava era cuidar da minha alma, sem perceber que, quando negligencio meu corpo, minha saúde também deixa de ser integral.
Cuidar do corpo não é abandonar a alma.
É também cuidar dela.
Deixar o peso do passado para trás começa a aliviar o corpo. Consigo enxergar agora o quanto me anestesiei com a comida. Quantas vezes tentei calar com alimento aquilo que não sabia nomear, suportar ou elaborar.
Mas eu não preciso continuar fazendo isso.
Já que não posso mudar o mundo, nem as pessoas que atravessam minha trajetória, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para mudar por mim mesma.
Não porque finalmente aprendi a me amar perfeitamente. Mas porque, talvez pela primeira vez, entendi que eu também preciso ser alguém por quem vale a pena lutar.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Deixar ir
Aprendi com Cristo a ser tardia em me irar.
Mas a longanimidade não é ausência de limites. Não desisto por impulso; desisto depois de ter tentado.
Ser tardio em irar-se não significa ser tardio em partir quando a permanência deixou de ser saudável.
A vida inteira tentei dar chances: às amizades que me machucaram, aos lugares onde trabalhei e não foram justos, aos relacionamentos amorosos. Não porque eu não enxergasse os erros, mas porque acredito que todo mundo erra e que, quando há arrependimento, todo mundo merece a oportunidade de tentar se consertar.
Também aprendi alguma coisa sobre mim: quando eu desisto, é uma vez só.
Porque meu olhar muda quando deixo de acreditar.
E, quando a esperança de que algo possa ser diferente se desfaz dentro de mim, não consigo mais fingir que ainda existe aquilo que já morreu.
Ponto final também serve para usar.
Hoje, no ônibus, fui me lembrando de cada situação, de cada coisa que relevei, de cada vez que precisei engolir o orgulho para não desistir das pessoas.
Houve insistências que duraram anos a fio.
Anos tentando compreender, perdoando, esperando mudanças. Anos acreditando que talvez, desta vez, fosse diferente.
Mas, quando finalmente desisto, eu me retiro sem olhar para trás.
Já aconteceu de doer muitas vezes. Depois do luto, descobri que era alívio.
Tirar dos lombos o peso de carregar relações que já acabaram, lugares que perderam o sentido, amores falidos e amizades desleais muitas vezes é cura.
É voltar para nós mesmos.
Há uma diferença entre abandonar alguém no primeiro erro e reconhecer que uma relação se tornou um lugar onde só uma pessoa continua tentando.
Ser tardia em irar-se não significa permanecer indefinidamente onde somos feridos.
Perdoar não nos obriga a continuar.
Dar uma chance não significa dar todas.
Ter paciência não significa não ter limites.
Às vezes, a maneira mais honesta de reconhecer que algo terminou é simplesmente parar de carregá-lo.
Permanecer naquilo que já acabou pode se tornar uma espécie de dependência: continuamos porque temos medo do vazio que ficará quando soltarmos.
Mas eu não quero mais viver assim. Não quero carregar nas costas aquilo que já não existe.
Quero aprender a deixar ir sem transformar a partida em vingança.
Porque algumas despedidas não são fracassos. Deixar ir também pode ser um ato de amor, especialmente a nós mesmos.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
O inferno que a religião construiu
E se o inferno for a consciência diante daquilo que rejeitamos?
Não encontro nas Escrituras uma descrição tão detalhada do inferno quanto aquela que a tradição religiosa construiu ao longo dos séculos.
Há fogo. Há trevas. Há choro e ranger de dentes. Há Geena. Há Hades. Há o lago de fogo. Há imagens de destruição e juízo.
Mas transformar todas essas imagens em uma geografia literal do além, com demônios torturando pessoas eternamente em chamas, é outra coisa.
Boa parte dessa representação pertence muito mais ao imaginário religioso desenvolvido posteriormente do que a uma descrição sistemática feita pelos próprios textos bíblicos.
O inferno de Dante, por exemplo, tornou-se uma das imagens mais poderosas do imaginário ocidental, mas Dante não escreveu uma doutrina bíblica do inferno; escreveu uma obra literária.
E talvez devêssemos ter mais cuidado para não atribuir a Deus aquilo que nasceu da nossa própria imaginação religiosa.
Porque, se existe um lugar de tormento, talvez o tormento não precise ser imaginado como uma tortura aplicada por Deus.
Talvez seja muito mais profundo.
Aqui, enquanto estamos revestidos de carne, conseguimos fugir de nós mesmos. Podemos anestesiar a consciência. Distrair-nos. Construir justificativas. Colocar o ego no centro. Dizer que somos suficientes. Convencer-nos de que não precisamos de Deus.
Podemos até olhar para quem crê e dizer que lhe falta inteligência, que foi manipulado pela cultura, pela família ou pela religião.
Podemos construir uma vida inteira sem sentir falta daquilo que rejeitamos.
Mas e se, depois da morte, a consciência deixar de possuir os mesmos mecanismos de fuga?
E se aquilo que agora conseguimos silenciar tornar-se impossível de ignorar?
Então talvez o tormento não seja Deus torturando alguém. Talvez seja a própria consciência finalmente percebendo aquilo que passou a vida inteira recusando.
Não porque Deus tenha deixado de amar. Mas porque, diante da verdade, já não há como continuar mentindo para si mesmo.
A parábola do rico e Lázaro é intrigante justamente por isso. O rico está em tormento. Mas Abraão ainda o chama de “filho”. Não o chama de monstro. Não o trata como lixo. Não parece haver prazer na condenação. Há reconhecimento, diálogo e consciência.
O homem compreende. Lembra. Reconhece. Pensa nos irmãos. Deseja adverti-los. Percebe que sua vida poderia ter sido diferente.
A angústia começa justamente quando a consciência enxerga aquilo que antes não queria enxergar.
É interessante também que o texto não diga que Abraão deixou de amá-lo por ele estar naquela condição.
E isso me faz pensar.
Será que o juízo de Deus é vingança ou revelação? Será que o fogo é simplesmente instrumento de tortura? Ou pode ser também a imagem de algo que consome tudo aquilo que não pode permanecer diante da verdade?
A própria linguagem bíblica do fogo permite essa reflexão. O fogo destrói. Purifica. Revela. Consome.
E, no Apocalipse, até a própria morte e o Hades são lançados no lago de fogo. Isso é uma imagem extremamente provocadora. Porque, se o lago de fogo representa o destino definitivo do mal, não seria estranho perguntar: o que exatamente permanece eternamente — o mal ou a consciência de quem foi vencido pelo mal?
Não sei. E aqui faço questão de dizer: não sei.
A Bíblia não me permite transformar essa esperança em certeza doutrinária.
Ela também contém textos que parecem apontar para um juízo definitivo e textos cuja linguagem permite interpretações diferentes.
Por isso, eu não afirmaria que todas as pessoas certamente serão salvas depois da morte. Mas também não vejo necessidade de fechar a porta onde a Escritura não a fechou de maneira inequívoca.
Existe uma esperança que me parece compatível com o caráter de Deus: se, depois de toda a ilusão, toda a resistência e todo o autoengano, uma consciência finalmente desejar a luz, por que imaginaríamos que Deus teria prazer em recusá-la?
Não estou dizendo que sei que isso acontecerá.
Estou dizendo que espero que a misericórdia de Deus seja maior do que a nossa capacidade de compreendê-la.
Porque o Deus revelado em Cristo não parece alguém procurando oportunidades para excluir.
É aquele que procura. Que chama. Que espera. Que recebe. Que deixa noventa e nove para procurar uma. Que corre ao encontro do filho que volta. Que pede perdão para os que o crucificam. Que diz que veio salvar o mundo.
Então talvez devêssemos ter muito cuidado com uma teologia que transforma o inferno em instrumento de intimidação.
O medo pode produzir conformidade. Mas não produz necessariamente amor. Pode fazer alguém obedecer para escapar da punição.
Mas o Evangelho parece querer algo muito mais profundo: que conheçamos a Deus e, conhecendo-o, aprendamos a amá-lo.
Talvez o verdadeiro inferno seja justamente viver separado daquilo para o qual fomos criados. E talvez a salvação seja mais do que escapar de um lugar de fogo. Talvez seja ser finalmente reconciliado com a Fonte da própria existência.
Por isso não consigo imaginar a eternidade como uma espécie de prisão onde Deus conserva conscientemente milhões de criaturas apenas para que sofram para sempre.
Posso estar errada.
A Escritura tem mistérios que ultrapassam minha compreensão. Mas, quando não sei, prefiro deixar aberta a pergunta do que preencher o silêncio com uma certeza construída pelo medo.
Se eternidade não é simplesmente uma quantidade infinita de tempo, mas uma realidade que transcende nossa experiência temporal, então talvez não devêssemos transportar para ela todas as categorias que usamos aqui.
E se o mal terá fim? Se a morte será vencida? Se o Hades será lançado no lago de fogo? Se Deus finalmente será “tudo em todos”? Então me permito esperar. Não como quem possui uma doutrina pronta. Mas como quem conhece o caráter daquele em quem escolheu confiar.
Se houver uma consciência que, depois de atravessar toda a escuridão, finalmente desejar a Luz, eu quero acreditar que a Luz não lhe dirá: “Você chegou tarde demais.”
Quero acreditar que Deus continuará sendo Deus. E que a última palavra não será dada pelo medo. Será dada pela Graça.
Orações
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Outubro é logo alí
O Evangelho não faz acepção de pessoas
Sabe como os religiosos tratavam os publicanos?
Eram vistos como traidores do próprio povo, porque trabalhavam a serviço do Império Romano na cobrança de impostos. Alguns, inclusive, enriqueciam cobrando além do que era devido. Por isso carregavam o peso da desconfiança, da exclusão e do julgamento.
Mas Jesus se assentava à mesa com eles.
Chamou Mateus para segui-lo. Entrou na casa de Zaqueu. E contou a parábola do publicano e do fariseu para mostrar que, diante de Deus, não é a posição religiosa que justifica alguém.
Sabe como os judeus tratavam os samaritanos?
Havia entre eles uma profunda hostilidade religiosa, histórica e étnica. Os samaritanos eram considerados impuros e religiosamente inferiores por muitos judeus.
Jesus, porém, colocou um samaritano como personagem central de uma parábola para ensinar que religião não torna ninguém superior a ninguém.
O próximo não é aquele que pertence ao nosso grupo. É aquele diante de quem somos capazes de exercer misericórdia.
E foi a uma mulher samaritana que Jesus falou sobre a Água Viva, uma água que não dependeria de Jerusalém, do monte Gerizim, de linhagem ou de pertencimento étnico, porque brotaria no interior daquele que recebe a vida de Deus.
Sabe como mulheres consideradas pecadoras eram tratadas?
Com julgamento, vergonha e exclusão. Mas Jesus não se relacionava com elas a partir do desprezo. Mulheres que carregavam histórias moralmente condenadas pela sociedade encontraram nele alguém que não as reduzia ao próprio passado.
A mulher que lavou seus pés com lágrimas foi recebida. A mulher que derramou perfume sobre ele foi recebida. A mulher acusada de adultério foi colocada diante daqueles que queriam condená-la, e Jesus os fez olhar primeiro para a própria condição.
O Evangelho não começa apontando o dedo para o pecado do outro. Começa revelando o nosso próprio coração.
Agora olhe para os nossos dias.
Como alguns pastores conservadores tratam pastores progressistas? Como alguns progressistas tratam conservadores?
Muitas vezes, exatamente como os grupos religiosos que Jesus confrontou: não há escuta, diálogo ou disposição para compreender. Há demonização, descredibilização e uma necessidade permanente de provar que o outro está completamente errado.
Troca-se o amor pela disputa. A consciência pela identidade de grupo. O Evangelho pelo slogan. E, quando isso acontece, podemos continuar pronunciando o nome de Jesus enquanto reproduzimos exatamente aquilo que ele confrontou.
Como sociedade, porém, somos outra coisa. Vivemos numa sociedade plural. Pessoas pensam diferente, creem diferente, votam diferente e fazem escolhas diferentes.
E devem ser tratadas como iguais perante a lei. Não precisamos concordar para respeitar. Não precisamos pensar da mesma maneira para reconhecer a dignidade do outro. Não precisamos transformar o diferente em inimigo.
E aqui existe também uma dimensão social importante no princípio bíblico do dízimo.
Na legislação de Israel, a produção daqueles que possuíam recursos tinha também uma dimensão comunitária: havia provisão para levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas.
A lógica era que aqueles que tinham mais recursos também participassem da sustentação daqueles que não tinham.
Hoje podemos discutir quais são os melhores instrumentos para produzir justiça social. Podemos discordar sobre impostos, programas sociais, tamanho do Estado, responsabilidade individual e tantas outras questões.
Mas uma coisa não deveria ser confundida: quem precisa de ajuda não deve ser automaticamente tratado como vagabundo.
Corrupção existe. Abuso existe. Fraude existe. E deve ser combatida.
Mas a existência de pessoas que fraudam um benefício não transforma todos os beneficiários em fraudadores. Assim como a existência de religiosos que roubam não transforma todo religioso em ladrão. O próprio profeta Malaquias denuncia a corrupção envolvendo os dízimos.
Portanto, talvez devêssemos parar de olhar para a política como uma guerra entre santos e pecadores.
"Ah, mas o outro é ladrão!" E daí? Isso não torna automaticamente honesto aquele que você apoia. Nesse jogo ninguém deveria ser tratado como ungido.
Candidatos não são messias. Partidos não são igrejas. Políticos não são salvadores. E eleitor não deveria ser massa de manobra.
Sou cristã.
Mas sinto vergonha quando vejo pessoas idolatrando políticos porque eles aparecem em igrejas, participam de batismos, citam versículos ou transformam a linguagem cristã em slogan eleitoral, enquanto suas atitudes concretas revelam pouca disposição para tratar pessoas com dignidade, misericórdia e justiça.
O Evangelho não me ensinou a perguntar primeiro: "De que lado ele está?" Ensinou-me a perguntar: "Que frutos essa pessoa produz?"
Na política, porém, há ainda outra pergunta: "Quem representa os interesses que considero importantes?" Sou empresária? Trabalhador? Artista? Aposentado? Pobre? Classe média?
Quais propostas podem favorecer ou prejudicar aquilo que considero justo? Quais candidatos existem? O que eles fizeram antes? O que estão propondo? Quem os financia? Quais informações são verificáveis?
E, principalmente: o que é fato e o que é fake news?Investigar antes de votar não é falta de fé. É responsabilidade.
O Reino de Deus não pertence a partido algum. Não está sentado numa cadeira presidencial. Não tem número eleitoral. Não precisa de palanque.
O Reino de Deus não é deste mundo.
Por isso, nenhum candidato pode receber aquilo que pertence somente a Cristo.
Na perspectiva da nossa fé, toda a humanidade permanece igualmente dependente da Graça.
Não existe candidato ungido. Não existe eleitor santo. Não existe partido cristão por natureza. Existem seres humanos, com interesses, virtudes, defeitos, contradições e responsabilidades.
E, como sociedade, precisamos construir aquilo que a política deve buscar: justiça, liberdade, dignidade e igualdade perante a lei.
Não precisamos votar como cristãos para impor o Reino. Precisamos viver como cristãos sem transformar o Reino em instrumento de poder.
Não entregue sua consciência a político nenhum.
Não entregue sua inteligência a partido nenhum.
Não transforme candidato em salvador.
Pesquise. Questione. Compare. Desconfie das certezas fáceis. Confira antes de compartilhar. E vote conscientemente. Porque fé não é terceirização da consciência.
Outubro é logo alí.
Tudo por nós
domingo, 9 de agosto de 2026
Nossa lente
sábado, 8 de agosto de 2026
O monte não encurta o caminho
Há quem suba aos montes para orar, como se o sacrifício do corpo encurtasse o caminho até os ouvidos de Deus. Entre esses, há também os que mistificam o próprio monte, como se os fenômenos que dizem enxergar fossem sinais da resposta ao fervor com que oraram.
Jesus foi assertivo quando disse à mulher samaritana que, independentemente do lugar geográfico, o que realmente importa é encontrar, em espírito, o Espírito de Deus, com a verdade da própria alma. Porque são esses os que o Pai procura.
Também ensinou aos seus seguidores que, diferente dos religiosos hipócritas que oravam nas praças para serem vistos e reconhecidos como homens separados e espirituais, seus discípulos deveriam buscar o silêncio do quarto — o lugar onde ninguém os vê, onde é possível interiorizar-se, silenciar os ruídos, esvaziar-se de si e abrir-se para ser cheio Dele.
É saudável reunir-se para aprender e ter comunhão. Mas o trabalho está do lado de fora.
Está onde os campos brancos esperam pela colheita; onde ouvidos carentes de verdade esperam ouvir a boa notícia de que o preço foi pago; onde há gente sedenta pela Água da Vida e faminta pelo Pão do Céu.
Jesus sequer ensinou uma religião.
O tempo de seu ministério terreno foi, em grande parte, utilizado para desvincular os corações dos costumes, das tradições e das deturpações religiosas, conduzindo seus ouvintes à autoavaliação, ao arrependimento, à reconciliação e a uma vida harmoniosa com o próximo.
Porque é na vida que a fé se torna visível.
É no modo como tratamos o outro que revelamos o que realmente compreendemos de Deus.
E é assim que nos aproximamos Dele: não pela geografia de um monte, pela quantidade de sacrifícios, pela aparência de espiritualidade ou pela performance religiosa, mas pela verdade que a Graça produz em nós, mediante Cristo.
Somos feitos filhos da obediência, não para permanecer encerrados em nossos templos, mas para cooperar com o Reino — um Reino que não se encontra em determinado lugar, porque está dentro daqueles em quem a Graça abriu os olhos.
Embora cada um olhe para a própria religião como detentora de toda a verdade, Deus não pertence às nossas instituições, aos nossos mapas, aos nossos montes ou às nossas fórmulas.
Deus é.
E Ele se revela a quem quer.
Jesus mesmo disse que o Pai ocultou essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos.
Talvez porque os simples ainda tenham espaço para receber.
Não precisam defender uma imagem.
Não precisam provar que sabem.
Não precisam subir mais alto que os outros.
Apenas buscam relacionamento.
E, quando encontram o Deus que procuravam do lado de fora, descobrem que Ele já os chamava por dentro.
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Questões que movem a vida
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Cicatrizes invisíveis
Quebrando correntes
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Amor eterno e circular
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Amor de alma (Entre o que fomos e o que permaneceu)
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Nada está oculto
domingo, 2 de agosto de 2026
Cinco primaveras
sábado, 1 de agosto de 2026
Segurança da salvação
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Entretenimento nas igrejas
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Sombras e esperança
terça-feira, 28 de julho de 2026
Oceano de encontros
segunda-feira, 27 de julho de 2026
O culto racional
domingo, 26 de julho de 2026
Descanso é Cristo
Leveza
sábado, 25 de julho de 2026
Fóruns de ateus
sexta-feira, 24 de julho de 2026
A igreja invisível aos olhos da religião
quinta-feira, 23 de julho de 2026
A verdade que liberta
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Assistir ao próprio funeral
terça-feira, 21 de julho de 2026
Antes de tudo, coração transformado
Desde o Antigo Testamento, Deus falou por meio dos profetas que não desejava sacrifícios vazios, mas corações quebrantados e contritos. Os rituais eram símbolos que deveriam ser precedidos por uma disposição sincera do coração.
Assim, os sacrifícios deveriam nascer do arrependimento. As cinzas sobre a cabeça e as vestes de pano de saco, usadas pelos judeus em tempos de jejum e lamento, deveriam expressar verdadeira renúncia.
Os dízimos deveriam cumprir sua finalidade de socorrer aqueles que não possuíam herança na terra, e a Páscoa deveria ser uma autêntica celebração de comunhão e memória da libertação.
Embora algumas práticas da antiga aliança tenham encontrado seu cumprimento em Cristo — como os sacrifícios do templo, as distinções de pureza ritual e outros preceitos cerimoniais —, Jesus não veio abolir a Lei, mas revelar sua plenitude e denunciar a hipocrisia de quem reduzia esses sinais a meras aparências, esvaziando-lhes o verdadeiro significado.
Toda prática exterior só encontra sentido quando procede de uma fé viva, pois, como diz a Escritura: "Tudo o que não provém da fé é pecado."
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Por que?
domingo, 19 de julho de 2026
Compromisso comigo
Tolos e sábios
sábado, 18 de julho de 2026
Exposição sobre o sábado e a Igreja
Frutificando
No Reino de Deus, nada se faz por obrigação. Dar fruto faz parte da nossa nova natureza. Não frutificar é tornar-se inútil, porque fomos criados para produzir vida naturalmente.
Ninguém faz favor ao cumprir aquilo para o qual foi chamado. Também não há mérito em fazer apenas o que nos foi designado, pois o Senhor mesmo disse: "Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer."
Mas o chamado da graça vai além do simples dever. Quem foi agraciado é chamado a agraciar; quem recebeu abundantemente torna-se fonte para outros. Somos chamados a transbordar, a fazer infinitamente mais do que imaginamos, não por esforço da carne, mas pela vida que recebemos de Cristo.
A seiva vem da Raiz Santíssima. Nós somos os ramos. Nela temos todo o sustento necessário para crescer, florescer, frutificar e produzir sementes que deem continuidade à vida. Tudo o que nasce dessa união é abundante, porque a fonte é perfeita.
O ramo apenas permanece. É justamente esse "permanecer em Cristo" que torna a frutificação algo natural, e não uma obrigação religiosa.