terça-feira, 15 de setembro de 2026
O que respondi à Josi num grupo hoje
Deixando as coisas de menino
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Depois da curva
Crença ou fé
Crenças existem às dúzias, ao gosto de cada um, segundo a conveniência ou a debilidade de quem se deixa conduzir. A fé, porém, é uma construção de vida.
Ela se constrói à medida que se busca a Deus e se experimenta a condição de filho que escuta o Pai. Vem do ouvir — não apenas de escutar sons, mas de dar ouvidos, aprender e confiar — para, a partir disso, fazer escolhas.
Às vezes é possível identificar-se com irmãos que caminham na mesma fé. Mas, na maioria das vezes, as pessoas apenas se conformam. Entram em fôrmas, repetem padrões e, pouco a pouco, perdem a própria individuação.
No Evangelho, a Boa-Nova é para aquele que se compreende filho, co-herdeiro com Cristo. É Cristo quem se revela, e essa revelação produz uma relação pessoal, viva e intransferível. Nesse relacionamento, cada filho é aperfeiçoado, recebe dons e missões que não podem ser terceirizados e, como cooperador, prestará contas daquilo que lhe foi confiado.
Na crença, basta cumprir protocolos: não questionar regras, estatutos e dogmas; não falhar nos compromissos da instituição; permanecer fiel à rotina e viver em função da empresa religiosa.
Há quem precise dessa dinâmica. Mas há também quem viva pela fé.
E eu só não consigo entender por que estes últimos são chamados de desviados, se foi justamente a esses que Jesus chamou para fora das fôrmas, e a quem Ele mesmo justificou.
Talvez o desvio, aos olhos da religião, seja simplesmente o caminho de quem deixou de caber na fôrma para aprender a caminhar como filho.
Vendo Jesus na greta
Quando fui desenganada aos dois anos, minha avó me levou a uma campanha de oração, e o pastor me fez engolir um cálice de azeite. Eu, que nem tinha condições de crer em nada, já saí dali voltando a caminhar e a me alimentar, habilidades que eu havia perdido.
Aos três ou quatro anos, lembrei da salada no prato da minha mãe e mastiguei uma folha de comigo-ninguém-pode. Automaticamente, minha garganta fechou. Eu sentia algo muito estranho. A moça que cuidava de mim correu e me encheu de leite. Não lembro se vomitei ou se apenas senti alívio, mas parece que o leite funcionou como um antídoto.
Aos sete, eu brincava na Ilha de Paquetá quando algumas crianças me atropelaram com um pedalinho. Fiquei alguns segundos submersa, tentando voltar à superfície, enquanto as pás do pedalinho giravam contra mim. Foi outro momento em que senti que poderia ter partido.
Aos vinte, a pessoa que me evangelizou, enquanto eu estava em uma crise existencial e enfrentava uma infecção que não conseguia curar, me deu um punhado de folhas para fazer chá. E o que os antibióticos não estavam conseguindo fazer, as ervas fizeram. Mais uma vez, minha vida se renovou.
Aos 32, perdi um bebê e quase não sobrou sangue em mim. Demorei algum tempo até me recuperar da anemia.
Quando retirei a vesícula, o residente disse que dei muito trabalho para voltar a respirar. Lembro-me da garganta arranhando e da voz rouca enquanto recuperava a saturação. Fiquei um bom tempo com oxigênio no nariz, mas ficou tudo bem... até o ano seguinte, quando operei uma hérnia enorme e rara, decorrente da primeira cirurgia.
Em outros momentos, escapei ilesa de acidentes que aconteceram bem ao meu lado, como se algo realmente tivesse me segurado no lugar para que o dano não me alcançasse.
Daqui a alguns meses, estarei de novo em um centro cirúrgico.
A intenção é começar um novo ciclo, mais saudável, livre de tantas dores crônicas, para conseguir ao menos envelhecer podendo cuidar de mim.
Mas passa um filme na cabeça.
Foram tantas situações em que vi Jesus na greta e voltei... Será que vai dar certo desta vez também?
Não é uma ansiedade abstrata diante de uma cirurgia. Carrego na memória vários momentos concretos em que estive muito perto da morte ou de uma situação grave e voltei.
É natural que, diante de outro centro cirúrgico, todas essas cenas se levantem juntas.
Nunca estive no controle.
Aos dois anos, não podia sequer compreender o que estava acontecendo. Aos sete, foi um acidente. Aos vinte, estava fragilizada. Aos 32, perdi muito sangue. Nas cirurgias, dependia inteiramente da equipe e do próprio corpo.
E, ainda assim, a história terminou repetidamente comigo voltando para a vida.
Confiar não é receber uma garantia de que nada dará errado. É não precisar conhecer o desfecho para continuar caminhando.
Já atravessei portas que pareciam portas de saída. E voltei. Algumas vezes, voltei imediatamente. Outras, precisei de tempo para recuperar sangue, força, respiração, saúde. Mas voltei.
Agora estou indo para uma cirurgia justamente porque quero continuar vivendo. Quero diminuir dores, recuperar mobilidade, cuidar melhor de mim e chegar à velhice com mais autonomia.
Talvez essa seja a parte mais bonita dessa história.
A menina de dois anos que voltou a caminhar não sabia o que a esperava. A menina de sete anos que voltou à superfície não sabia o que a esperava. A mulher de vinte anos que se recuperou também não.
E a mulher de 54 anos que agora entra novamente em uma sala cirúrgica já sabe muito mais sobre a vida do que todas elas juntas.
Ela sabe que o corpo é frágil. Sabe que pode ter medo e, ainda assim, prosseguir. E sabe, sobretudo, que sobreviver não é a única maneira de viver.
Talvez esse próximo ciclo não seja mais uma vez em que eu precise “voltar da greta”.
Passei tantas vezes pela greta que aprendi a reconhecer a presença de Jesus não apenas quando voltei dela, mas também enquanto caminhava em sua direção.
Eu não sei como será. Mas cheguei até aqui.
E não estou sozinha. Nunca estive.
domingo, 13 de setembro de 2026
Jesus faz pensar
Livre arbítrio
Ninguém escolhe onde vai nascer, o sexo que terá, a família que o educará, as batalhas que enfrentará, as doenças que terá ou as intercorrências que viverá. Há coisas que simplesmente nos acontecem, sem que tenhamos sido consultados.
O que cabe ao homem escolher é se obedecerá ou não à essência amorosa que transcende de Deus para o homem e emana do homem em direção ao próximo.
Amor é decisão. É escolher fazer o bem, mesmo quando nossa própria natureza conspira contra nós. É negar o impulso de colocar o próprio interesse no centro e reconhecer que o outro também importa.
Não fazemos o mal somente quando matamos, roubamos ou ferimos deliberadamente. O mal começa antes, quando tiramos Deus do centro e nos colocamos em seu lugar.
Talvez o pecado mais profundo não seja simplesmente fazer o que é mau, mas assumir para nós mesmos o lugar que não nos pertence: o centro. Porque, quando o homem se torna o próprio centro, o outro deixa de ser próximo e passa a ser obstáculo, instrumento ou ameaça.
Amar, portanto, é mais do que sentir. É uma escolha diária de deslocar-se do centro para que o bem possa ocupar o lugar que lhe pertence. É permitir que aquilo que procede de Deus atravesse nossa vida e alcance quem está ao nosso redor.
Não escolhemos tudo o que nos acontece. Mas podemos escolher o que emanará de nós a partir daquilo que nos aconteceu.
sábado, 12 de setembro de 2026
A sabedoria que nasce na adversidade
A maioria de nós prefere o raso, o linear, a calmaria. Preferimos caminhos previsíveis, dias sem grandes sobressaltos e águas que não nos obriguem a aprender a nadar. É compreensível. Ninguém, espontaneamente, escolhe a dor, a perda, a espera ou aquilo que desorganiza nossos planos.
Mas há coisas que somente as profundezas nos ensinam.
A sabedoria proveniente da fé não se conquista apenas ouvindo, lendo ou acumulando conhecimento. Ela se forma enquanto caminhamos. É fruto de perseverança, experiência e esperança.
Paulo escreveu:
“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.”
Romanos 5:3-4
É interessante perceber que existe uma sequência. A tribulação não produz imediatamente esperança. Primeiro ela nos confronta com nossa própria fragilidade. Depois, somos chamados a perseverar. É nessa permanência, muitas vezes dolorosa, que adquirimos experiência. E é a experiência de atravessar aquilo que parecia impossível que amadurece nossa esperança.
A fé que nunca foi testada pode até ser bonita no discurso, mas a fé que atravessou a tempestade ganha outra consistência.
É como uma flor que cresce onde o frio poderia tê-la impedido de florescer. Como a água encontrada no deserto, que não é apenas água: é alívio, sobrevivência, celebração. Como uma estrela que parece ainda mais luminosa quando o céu ao redor está escuro.
Talvez seja por isso que a fé mais preciosa não seja necessariamente aquela que fala mais alto, mas aquela que permanece quando já não há respostas fáceis.
Há uma diferença entre acreditar que Deus pode sustentar alguém na adversidade e descobrir, na própria pele, que Ele sustenta.
A primeira é uma convicção aprendida. A segunda se torna experiência. E experiência ninguém consegue nos dar pronta.
Podemos receber ensinamentos, conselhos, testemunhos e exemplos. Podemos ouvir pessoas que já atravessaram vales e aprender alguma coisa com elas. Mas há caminhos que só se tornam nossos quando os percorremos.
É na espera que aprendemos perseverança. É na perda que descobrimos o que realmente permanece. É na frustração que percebemos que nem todo desejo precisa ser atendido. É na solidão que aprendemos a distinguir ausência de abandono. É no sofrimento que muitas certezas superficiais são desmontadas e aquilo que é essencial permanece.
A adversidade não é boa em si mesma. Não precisamos romantizar a dor para reconhecer o que ela pode produzir em nós.
Há sofrimentos que apenas ferem. Há outros que, atravessados com fé, também nos transformam.
Por isso, talvez não devêssemos medir a qualidade de uma fé pela quantidade de calmaria que ela proporciona, mas pela maneira como ela nos sustenta quando a calmaria termina.
A fé madura não é aquela que nunca enfrenta montanhas, mas aquela que aprendeu a subir.
Não é aquela que nunca atravessa desertos, mas aquela que continua procurando a fonte.
Não é aquela que nunca passa por noites escuras, mas aquela que aprendeu a esperar pelo amanhecer.
Como escreveu C. H. Spurgeon, “A fé provada traz experiência.”
E talvez seja justamente essa experiência que torne a fé menos ingênua, menos dependente de circunstâncias e mais profunda.
Porque depois de atravessar algumas tempestades, já não cremos somente porque nos disseram que Deus é fiel.
Cremos porque, em algum momento da caminhada, descobrimos que Ele foi.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Amar ou gostar
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Percebendo o que não cabe nas mãos
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
O fruto que se aperfeiçoa no caminho
“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio.”
— Gálatas 5:22-23
Os atributos desse fruto são aperfeiçoados nos encontros, inclusive nas trombadas. É no atrito das relações, nas contrariedades e nas circunstâncias difíceis que nossas arestas vão sendo aparadas. Menos de nós, mais de Deus.
Quem reconhece e vive o amor, se nunca foi alvo do ódio?
Quem valoriza a paz, se nunca esteve em um ambiente hostil?
Quem pode aprender a ser bom, se nunca precisou escolher a bondade diante da maldade?
Quem pode exercitar a longanimidade, se nunca atravessou tribulações?
Quem pode permanecer manso, se nunca foi afrontado?
Quem pode exercer o domínio próprio, se jamais foi tentado?
É fácil parecer paciente quando nada nos incomoda, manso quando ninguém nos afronta, generoso quando nada nos é negado e pacífico quando tudo está em ordem.
Mas é quando somos contrariados que descobrimos o quanto ainda precisamos crescer.
Talvez por isso Deus não nos transforme retirando todas as dificuldades do caminho, mas nos ensinando a atravessá-las sem perder aquilo que Ele está formando em nós.
Viver é um exercício contínuo de esvaziamento de si mesmo e crescimento em Deus. Não se trata de nos tornarmos pessoas que nunca são feridas, contrariadas ou tentadas, mas de permitirmos que, em cada encontro, cada conflito e cada trombada, o Espírito produza em nós um pouco mais de Cristo.
Porque o fruto não amadurece longe da vida.
É no chão da vida que Deus poda, aperfeiçoa e faz frutificar.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
A raiz e o fruto
Para cada solução, um problema
O bem precisa estar na superfície
Todo mundo erra. Errar é uma condição intrínseca à humanidade. Somos seres em construção, capazes de tropeçar, ferir, agir por impulso, tomar decisões equivocadas e, depois, reconhecer o erro, reparar o dano e aprender com ele.
Mas há uma diferença enorme entre errar e fazer da maldade um modo de existir.
Diante da frieza, da crueldade ou da perversidade de alguém, é comum ouvirmos: “No fundo, ele é uma boa pessoa.” Como se a bondade estivesse escondida em algum lugar profundo da alma, enquanto tudo aquilo que chega à superfície fosse justamente o contrário dela.
Mas, se é preciso cavar muito fundo para encontrar a bondade de alguém, talvez seja necessário perguntar: que espécie de bondade é essa que ninguém consegue enxergar?
Penso que o bem não deveria morar nas profundezas. O bem precisa estar na superfície.
Não porque sejamos incapazes de ter impulsos ruins, mas porque aquilo que fazemos com esses impulsos revela quem estamos escolhendo ser.
No fundo, talvez seja onde devamos guardar nossa tendência animalesca de reagir por instinto, de pensar primeiro em nós mesmos, de agir sem considerar o sentimento alheio. É ali que devem ser contidos o egoísmo, o orgulho, o desejo de vingança, a necessidade de ter razão, o nosso pequeno geocentrismo — essa tendência humana de fazer de nós mesmos o centro em torno do qual tudo e todos deveriam girar.
Não somos responsáveis por nunca sentir raiva, inveja, ressentimento ou vontade de revidar. Somos responsáveis pelo que fazemos com tudo isso.
Porque sentir não é necessariamente escolher.
A bondade verdadeira não é a ausência de sombras; é a decisão de não deixar que elas governem nossas mãos, nossa língua e nossas relações.
E talvez seja justamente por isso que Jesus tenha falado da luz que não deve ser colocada debaixo do alqueire. A luz não foi feita para ficar escondida dentro da casa. Ela precisa estar no alto, onde possa iluminar o ambiente e permitir que outros também enxerguem.
A bondade é essa lanterna.
Precisa estar suficientemente alta para ser vista, não como propaganda de virtude, mas como consequência natural de uma vida que aprendeu a considerar o outro.
Bondade escondida não consola quem sofre.
Bondade escondida não protege quem está vulnerável.
Bondade escondida não alimenta quem tem fome.
Bondade escondida não pede perdão, não faz justiça, não estende a mão, não acolhe.
O bem que ninguém consegue experimentar pode até existir como uma intenção, mas ainda não se transformou em vida.
Por isso, talvez seja mais honesto parar de procurar a “boa pessoa que existe lá no fundo” e observar aquilo que ela coloca para fora.
Porque é na superfície que a vida toca a vida.
É nas palavras que alguém ouve.
É nas mãos que ajudam ou ferem.
É nas escolhas que afetam os outros.
É na maneira como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca.
Não precisamos ser perfeitos para sermos bons. Mas a nossa imperfeição não pode servir de esconderijo para a maldade.
Que nossas sombras permaneçam sob vigilância, enquanto a luz permanece no alto.
Não para parecermos bons.
Mas para que, através de nós, alguém consiga enxergar o caminho.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Cada um cuide da própria consciência
domingo, 6 de setembro de 2026
Fé não é poder sobre o outro
Fé não é poder sobre o outro
Israel foi um povo rebelde, que muitas vezes colheu o fruto de sua própria desobediência. É, portanto, um modelo que também nos ensina pelo que não devemos repetir: cumpria protocolos religiosos, observava uma Lei cheia de prescrições e, ainda assim, muitas vezes se afastava de Deus. Tanto que não reconheceu Jesus, a revelação plena de Deus, caminhando entre eles.
A Igreja histórica, por sua vez, muito cedo reproduziu estruturas de religiosidade e poder, embora não encontremos nas palavras de Jesus uma ordem para institucionalizar a fé nos moldes que conhecemos. Jesus passou boa parte de seu ministério desconstruindo mal-entendidos religiosos e confrontando a hipocrisia, enquanto construía em seus seguidores algo muito mais profundo: caráter.
Ainda hoje, parte da Igreja se comporta como paladina da verdade, apontando o dedo para a sociedade e tentando preservar uma influência que já não possui — ou que gostaria de continuar possuindo — como nos períodos em que a religião esteve profundamente entrelaçada ao poder político e social. Houve tempos em que discordar da autoridade religiosa podia resultar em excomunhão, perseguição e, em determinados contextos históricos, até na morte.
Mas a sociedade não é composta apenas de cristãos. Nem todo mundo nasceu em uma família conservadora, nem todo mundo professa a mesma fé, nem todo mundo precisa se encaixar nos parâmetros estabelecidos por instituições religiosas.
Todos têm o direito de existir, pensar, discordar, se manifestar e escolher seus próprios representantes sem carregar sobre si o estigma de endemoniado, imoral ou inimigo de Deus.
Precisamos aprender a conviver em respeito, enxergando o outro como concidadão, e não como adversário. A diferença não deveria ser motivo de discriminação, porque direitos não são prêmio concedido aos que pensam como nós.
Muitas vezes, a religião presta um desserviço quando blinda seus membros do contato com a realidade e inculca neles a necessidade de manter distância do chamado “mundo”, como se uns fossem mais importantes do que outros, como se a religião conferisse algum tipo de superioridade ou poder, ou como se seus parâmetros particulares fossem a medida universal do que todos deveriam ser.
Não são.
O Estado é laico. A lei deve ser aplicada sem acepção de pessoas. E os direitos pertencem a todos, independentemente de religião ou ausência dela — pelo menos, é assim que deveria ser.
Siga sua religião. Viva sua fé. Vote em quem você acredita que deve representá-lo.
Mas tenha consciência de uma coisa:
o seu direito não lhe dá autoridade sobre a consciência do outro.
E o seu direito termina exatamente onde começa o direito de quem não pensa, não crê e não vive como você.
sábado, 5 de setembro de 2026
Deus não se deixa monopolizar
Ninguém monopoliza Deus.
Não ter vínculo com o Cristianismo histórico não impede ninguém de ser servo de Cristo.
Aliás, estar arrolado no rol de membros de uma instituição pode ser apenas uma máscara para muita gente. Enquanto isso, uma consciência firmada no Evangelho dispensa a necessidade de transformar a fé em rotina, ritual ou cumprimento de regras. Quem compreendeu o amor aprende simplesmente a amar.
Para reconhecer os que são de Cristo, o fruto do Espírito é um critério muito mais revelador do que os dogmas. E isso não nos impede de servir dentro ou fora de qualquer endereço.
Porque Igreja não é endereço, e pertencimento institucional não é certificado de filiação a Cristo.
“Ah, você tem mágoa da religião?”
Não, amado.
Ter liberdade para falar sobre qualquer coisa sem temer perseguição, censura ou exclusão é maturidade espiritual. É aprender a discernir entre aquilo que está escrito e aquilo que fizeram do que está escrito — transformando-o em cabresto para inibir a liberdade.
Quem já não vive sob o véu da separação não precisa de intermediários para ter acesso à Fonte da sabedoria.
Eu sou livre.
E liberdade não significa desprezar quem escolhe viver de ilusões. Deus se revela a quem quer, como quer e quando quer. Não cabe a mim controlar esse processo.
Cabe-me apenas falar.
E eu falo porque sou livre.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
A fé que cresce
A fé começa pela recepção, mas precisa amadurecer até a autonomia; a comunhão é necessária, mas a dependência da estrutura não é maturidade.
Ninguém ama a fé que não conhece.
Há tempo para ser menino, neófito, aprendiz, discípulo. Mas ninguém permanece saudável tomando leite e papinha a vida inteira. Há um tempo de se aprofundar, de se nutrir, de mergulhar no conhecimento, de esmiuçar as Escrituras, para ter fundamento e saber dar razão da esperança que há em nós.
Acredito, realmente, que a maioria das pessoas precise começar a caminhada cristã junto de pessoas da mesma fé. Nem todo mundo é despertado dentro de casa, como eu fui, nem começa a estudar sozinho, como comecei. Para muitos, é necessário o ambiente de ouvir, perguntar, conversar, debater, aprender e amadurecer — até que tenham condições de ensinar, explicar, transmitir conhecimento e compartilhar experiências.
O que não concordo é que alguém se conforme em engolir aquilo que já vem pré-mastigado, sem se dar ao trabalho de pensar por si mesmo.
Quando se deixa de ser menino, é preciso alimento sólido. Nutrientes completos que sustentem a continuidade do crescimento. Porque fé que nunca amadurece acaba se tornando dependência de quem pensa por nós.
E o crescimento pleno acontece da porta para fora.
É lá que estão os campos brancos esperando a colheita. É nos encontros da vida que somos chamados a ser luz e sal. É no chão das relações, no serviço, na misericórdia, na justiça, no perdão e no amor que aquilo que aprendemos deixa de ser discurso e se torna vida.
Dependência da estrutura também pode se tornar vício.
Se a consciência está firmada no Evangelho e na sã doutrina, o ambiente de reunião deve servir antes de tudo à comunhão, ao encorajamento e ao fortalecimento mútuo — não à necessidade de provar, por meio de uma estrutura, que somos cristãos.
A igreja pode ser lugar de aprendizado, mas não pode se tornar a muleta permanente de uma fé que deveria caminhar.
Porque todo aquele que é nascido do Espírito é livre.
O vento sopra onde quer. Não pede licença, não fica preso a paredes e não necessita de cadastro para existir.
E talvez uma das maiores evidências de maturidade espiritual seja justamente esta: saber permanecer em comunhão sem se tornar dependente da estrutura; aprender com outros sem entregar a eles a própria consciência; receber alimento sem permanecer eternamente à mesa, quando já se deveria estar levando alimento a outros.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
A Graça dá chances
“Olho por olho e dente por dente” é uma das formas mais perversas de lidar com o erro humano.
Todo mundo tem o direito de errar e aprender com o próprio erro.
Todo mundo pode mudar de opinião, de ponto de vista, de comportamento.
Todo mundo pode rever conceitos, ampliar o entendimento, amadurecer e ser aperfeiçoado.
Todo mundo merece a oportunidade de buscar sua melhor versão sem carregar, pela vida inteira, o estigma de quem um dia foi.
Todo mundo merece uma segunda chance, um voto de confiança e a alforria de ser perdoado.
Porque ninguém deveria ser condenado para sempre pelo pior capítulo da própria história.
A Graça não chama o erro de acerto.
Não ignora as consequências, nem transforma o mal em bem.
Mas ela abre a porta para o arrependimento, para a mudança, para o recomeço.
A Graça dá chances.
E quem já precisou dela sabe que não existe lugar melhor para aprender a concedê-la.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
No chão da vida
A coisa mais fácil que existe é adotar uma rotina religiosa: cumprir protocolos, frequentar cultos, participar de eventos que, muitas vezes, servem mais ao entretenimento do que ao ensino.
Mas é no chão da vida, nas relações, nas escolhas e nas oportunidades de servir ao próximo que se revela a quem pertencemos.
Joio e trigo são separados diariamente. Deus sabe quem é quem.
Dentro do arraial, talvez baste estar inscrito num rol de membros. Mas os inscritos no Livro da Vida são reconhecidos por aquilo que sua vida revela: refletem o Senhor e obedecem ao seu ensino.
Porque pertencer a Cristo não é uma questão de cadastro, frequência ou protocolo. É uma vida que, pouco a pouco, se parece com Ele.
Antes do abraço
terça-feira, 1 de setembro de 2026
O Deus do religioso
Quando os religiosos inventam o Deus que os ateus rejeitam.
Faz parte do meu cotidiano falar sobre a fé cristã em vários grupos na internet, inclusive em grupos de ateus. E há algo que percebo repetidamente: o que incomoda muitos deles não é propriamente a Bíblia, mas a leitura rasa que se faz dela e, sobretudo, a caricatura de Deus construída a partir dessa leitura.
Citam versículos que, isoladamente, parecem contraditórios. Reúnem passagens sem considerar contexto, gênero literário, cultura ou o desenvolvimento da compreensão de Deus ao longo da história bíblica. E, a partir disso, desenham um Deus tenebroso: preocupado com coisas insignificantes, vingativo, ciumento, arbitrário, que escolhe uns e abandona outros; um Deus que enriqueceria alguns enquanto permanece indiferente à fome e ao sofrimento de tantos.
E, nesse ponto, a culpa é escancaradamente dos religiosos.
Primeiro, dos próprios judeus, que atribuíram diretamente a Deus tanto o bem quanto o mal. Massacres, guerras, mortes, catástrofes, ataques de animais e toda sorte de acontecimentos eram compreendidos dentro de uma visão de mundo na qual Deus estava por trás de tudo. Os registros bíblicos carregam a percepção daquele povo e também os limites da sua capacidade de compreender e expressar aquilo que experimentava.
Depois, dos cristãos, que muitas vezes transformaram a letra em objeto de culto e perderam a capacidade de perceber aquilo que está para além dela. Leem o Antigo Testamento como se fosse um manual doutrinário para a Igreja, quando grande parte dele é, antes de tudo, memória de um povo, história, poesia, narrativa, experiência religiosa e testemunho de uma consciência que foi amadurecendo.
Então acontece algo curioso: os de fora, muitas vezes, acabam rejeitando a Bíblia pelo mesmo caminho pelo qual os religiosos a apresentam.
E passam a combater um Deus que talvez exista apenas na imaginação religiosa.
Um Deus humanizado não apenas como Pai, fonte de amor e vida, mas também como vingador, ciumento, irascível e injusto. Um Deus que distribui prêmios, castigos e privilégios segundo uma lógica quase humana de recompensa e punição.
Mas Jesus diz que “Deus é Espírito”.
E aquilo que é Espírito não cabe nas nossas definições. Não pode ser reduzido às categorias humanas de espaço, tempo, corpo, vontade, humor ou personalidade. Deus não é um homem gigantesco sentado em algum lugar do universo administrando acontecimentos. É justamente a nossa linguagem humana que precisa criar imagens para tentar falar daquilo que ultrapassa a nossa capacidade de compreender.
Talvez por isso a linguagem bíblica nunca devesse ser tratada como uma fotografia literal de Deus.
Ela é linguagem humana tentando dizer o indizível.
São histórias, imagens, símbolos, poemas, metáforas e experiências através das quais a consciência humana tenta tocar aquilo que não consegue apreender completamente.
Somos apenas uma fagulha que acende e logo se apaga nessa dimensão imensa que chamamos existência. E o que acontece depois da morte nós vemos, como dizia Paulo, “como por espelho, obscuramente”. Toda certeza absoluta a respeito do que há depois daqui me parece mais arrogância humana do que revelação.
Enquanto isso, na linguagem acusadora de muitos religiosos, Deus teria um povo cuidadosamente selecionado e sentiria prazer em lançar todo o restante no inferno.
E, entretanto, passam de largo justamente pelo modo de vida ensinado por Cristo.
Porque Jesus não ensinou seus discípulos a fiscalizar o ventre alheio, disputar quem possui a verdade mais pura, humilhar pecadores, acumular privilégios espirituais ou defender líderes que afagam seus egos.
Jesus ensinou misericórdia. Ensinou perdão. Ensinou cuidado. Ensinou a amar o inimigo. Ensinou a não julgar. Ensinou a socorrer quem sofre.
Ensinou que o próximo não é aquele que pensa como nós, mas aquele cuja vida encontramos pelo caminho.
E é justamente aí que a religião frequentemente fracassa: segue o ventre e os líderes que alimentam o ego, enquanto desrespeita a própria vida que afirma ter sido amada por Deus.
Então os ateus olham para tudo isso e rejeitam a caricatura.
E eu não consigo culpá-los inteiramente por isso.
Muitos não estão rejeitando aquilo que eu chamo de Deus. Estão rejeitando o deus que lhes apresentaram.
O problema é que, no fim, religiosos e ateus podem acabar presos à mesma armadilha: cada grupo constrói sua própria versão daquilo que Deus é ou não é, arma-se com argumentos, escolhe suas certezas e passa a enxergar o outro como alguém que precisa ser derrotado.
Cada um com sua “verdade”. Cada um defendendo seu território. Cada um tentando vencer.
E, no meio de tanta certeza, ninguém mais se ama, ninguém mais se escuta e ninguém mais se atura.
Talvez seja justamente aí que tenhamos perdido o essencial.
Porque, se a fé que professamos não nos torna mais humanos, mais compassivos, mais capazes de amar e de respeitar a vida, talvez estejamos defendendo a nossa religião enquanto nos afastamos do Cristo que dizemos seguir.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
39 anos
Ele deitava a cabeça no meu colo, enquanto eu passava os dedos entre as ondas de seus cabelos.
Eu dizia, num tom irônico:
— Tem certeza de que você já foi um bebê?
E ele caía na risada.
Sempre ria das minhas brincadeiras. Sempre dizia que eu era a mais parecida com ele, no jeito e nos traços.
A gente se engalfinhava de vez em quando. Era semelhança demais para caber sempre em paz. Mas também tínhamos liberdade para brincar pelo chão, cantar juntos enquanto ele tocava violão ou simplesmente rir, lado a lado, assistindo a uma comédia na televisão.
Ele não economizava elogios quando eu me perfumava e me arrumava para sair. Dizia logo:
— Uau! Toda maravilhosa! Se eu tivesse condições, eu te daria muito mais.
Você me deu tudo, meu amor.
Tudo o que eu precisava.
Mais do que eu merecia.
O bastante para eu ser grata por toda a vida.
Por causa do seu esforço, eu estou segura.
Por causa do seu amor, tive os melhores exemplos.
E por causa de você, sei que há amores que o tempo não consegue levar.
Hoje fazem 39 anos que meu pai se foi.
Mas ele ficou.
Ficou nas minhas feições, no meu jeito, nas lembranças que ainda me fazem rir.
Ficou nas coisas que aprendi olhando para ele.
Ficou no amor que recebi e que continua vivendo em mim.
Porque a morte pode levar a presença,
pode silenciar a voz,
pode interromper um abraço.
Mas o amor não acaba.
E talvez seja por isso que, depois de 39 anos,
quando fecho os olhos,
ainda consigo sentir sua cabeça no meu colo
e passar, outra vez, os dedos entre as ondas dos seus cabelos.
Meu pai se foi há 39 anos.
Mas, de algum modo bonito e inexplicável,
ele ainda está aqui.
Solteirice crônica
Perguntaram por que continuo solteira: se sou exigente, se é escolha, se nunca encontrei alguém...
Primeiramente, nada acontece se não der match.
Já encontrei quem eu achava que combinava comigo em muitos dos requisitos, mas não me quiseram. E também já dispensei alguns relacionamentos porque percebi que não me levariam a lugar algum.
A verdade é que foi ficando difícil encontrar alguém cristão que não fosse um bitolado religioso, machista ou alguém que quisesse abafar minha necessidade de ser, de me expressar, questionar e debater.
Eu gostaria de alguém inteligente sem ser dono da verdade; alegre sem ser bobo; jovial sem ser um sem-noção; romântico sem ser pegajoso. Alguém que gostasse de sair comigo, mas também soubesse apreciar o espaço e o sossego de casa.
Alguém que soubesse cozinhar para nós quando eu não estivesse a fim, porque ninguém merece passar a vida cheirando à cebola, enquanto o cabra não tira nem o prato da mesa.
Alguém que sempre tivesse assunto, porque a gente passa muito mais tempo em pé do que deitado. Que soubesse escutar. Que prestasse atenção nos sinais. Que tivesse delicadeza para perceber o que não foi dito.
Encontrar tudo isso reunido numa mesma pessoa foi ficando cada vez mais raro.
E confiar também foi ficando difícil, à medida que as decepções foram deixando marcas nos meus relacionamentos. Traições, mentiras, perdas... Fui perdendo, aos poucos, o interesse em tentar novamente.
Por fim, não quero negociar minha liberdade nem minha segurança.
Passei a vida inteira aprendendo a viver sozinha. Construí meu espaço, minha rotina, minha paz. Mudar isso agora significaria arriscar muito do que, para mim, já está estabelecido.
Então, só se a vida me colocar diante de alguém pra lá de especial, que também me veja com os mesmos olhos e entenda que relacionamento não é prisão, preenchimento de vazio ou disputa de poder.
É companhia, escolha, espaço para dois sem que nenhum precise deixar de ser quem é.
Caso contrário, sigo muito bem acompanhada por mim mesma. Afinal sempre fui minha melhor companhia.
domingo, 30 de agosto de 2026
Silêncio
Filhos
Estava assistindo a uma moça desabafando sobre amar o filho, mas não estar dando conta das demandas. O menino tem dois anos e explora todos os ambientes. Na casa de ração, puxou uma alavanca e derrubou ração no chão. No sacolão, fez o maior fuzuê. Ela chorava na rua, dizendo que o amava, mas também dizendo que estava esgotada.
Eu não consigo julgá-la. Fui mãe aos 20 anos. Morava com minha mãe, estava recém-separada e, de repente, minha vida deu um salto de uma década.
Passei a seguir praticamente a mesma rotina, indo apenas aos lugares onde podia levar meu filho. Minha vida passou a girar em torno das necessidades dele. Eu trabalhava pensando em como continuar dando suporte, construía pensando em oferecer segurança e, muitas vezes, deixava a mim mesma por último.
Enquanto ele era pequeno, minha mãe nunca se dispôs a ficar com ele para que eu pudesse sair daquele ambiente por algumas horas. Era um filho só, e era meu. Então, simplesmente, eu não saía.
Vi minha juventude passar sem conhecer muitos lugares, pessoas e experiências. Eu era mãe solo, e a prioridade era sempre ele. Fora dele, quase não havia vida. Poucas realizações que fossem minhas. Poucas coisas que eu pudesse dizer: isso eu fiz por mim.
Por isso, quando vejo uma mãe chorando porque não está dando conta, não consigo apontar o dedo. Muitas vezes eu também não dei conta.
A diferença é que, naquele tempo, eu precisava ir assim mesmo. Porque filho é para sempre.
E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender na maternidade seja justamente esta: é possível amar alguém mais do que tudo e, ainda assim, estar cansada daquela responsabilidade. Uma coisa não anula a outra.
O filho pode ser o maior amor da sua vida e, ao mesmo tempo, representar a maior responsabilidade que você já carregou.
Amar não transforma ninguém em uma máquina incansável.
Mãe também se cansa. Mãe também se irrita. Mãe também precisa de silêncio, descanso, espaço, companhia e, às vezes, simplesmente de algumas horas em que ninguém precise dela. Isso não faz dela uma mãe ruim. Faz dela humana.
Eu teria feito algumas coisas de maneira diferente se tivesse tido outras possibilidades. Talvez tivesse procurado preservar um pouco mais de mim. Talvez tivesse entendido antes que ser mãe não deveria significar desaparecer completamente como mulher.
Mas fiz o que consegui com os recursos que tinha.
E é por isso que, quando vejo uma mãe dizendo “eu amo meu filho, mas não estou dando conta”, eu não escuto falta de amor. Eu escuto cansaço.
E talvez seja importante dizer isso com toda honestidade: Tenham filhos se quiserem muito ser pais.
Porque criança não é apenas o amor que cabe no colo. É uma vida inteira de responsabilidade. O amor é imenso. Mas a responsabilidade também.
Direito a ter direitos
Lutamos todos pelo direito de ter direitos.
E, se é assim, quem escolhe os amigos apenas pela posição política não está procurando diálogo; está procurando um espelho — alguém que pense como ele, confirme suas certezas e não lhe ofereça o desconforto da diferença.
Quando a divergência abre caminho para o desrespeito, a acusação, a tentativa de silenciamento e a castração do pensamento, talvez seja porque o carinho já tenha desaparecido. Porque quem ama não precisa concordar com tudo para preservar a dignidade do outro.
Respeito ao próximo não é favor, é dever.
O desrespeito muitas vezes nasce de espíritos complexados, que precisam diminuir o outro para conseguir enxergar algum valor em si mesmos.
Quem preserva a minha integridade sou eu. Portanto, sou eu quem decide com quem quero conviver, quais limites estabeleço e de quais relações escolho me retirar.
Não acredito que seja obrigação resgatar todo vínculo. Há relações que podem ser reconstruídas pela conversa, pelo perdão e pelo respeito.
Mas, quando o respeito acaba, talvez não reste mais nada a resgatar — apenas a coragem de reconhecer que é hora de partir.
sábado, 29 de agosto de 2026
A fé que não se transforma em vida
Descobri um grupo que prega a eleição e, ao mesmo tempo, abomina alguns livros da Bíblia, entre eles Tiago, por entender que ele aparentemente contradiz Paulo quando afirma que “a fé sem obras é morta”.
Mas penso que não há contradição alguma quando compreendemos do que Tiago está falando.
Paulo afirma que somos salvos pela graça, mediante a fé, e não pelas obras como mérito ou moeda de troca com Deus. E o mesmo Paulo, logo depois, escreve:
“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
Efésios 2:10
Portanto, Paulo não coloca fé e obras como inimigas. Ele rejeita as obras como fundamento da salvação, mas as reconhece como fruto de uma vida alcançada pela graça.
Tiago está dizendo essencialmente a mesma coisa por outro caminho.
A fé que permanece apenas no discurso, que não produz misericórdia, justiça, cuidado e amor pelo próximo, é uma fé morta. Não porque as obras comprem a salvação, mas porque uma fé viva inevitavelmente começa a produzir vida.
E, quando lemos Tiago, percebemos que suas “obras” não são um catálogo de atividades religiosas. Não é quantidade de cultos, cargos, ministérios, jejuns, campanhas ou qualquer outra forma de ativismo que possa alimentar a vaidade religiosa.
São obras que têm carne.
É alimentar o faminto.
É vestir quem está nu.
É não fazer acepção de pessoas.
É socorrer o necessitado.
É controlar a língua.
É tratar o outro com misericórdia.
Por isso, é profundamente incoerente com o Evangelho o homem que honra a Deus com os lábios enquanto maldiz o próximo, feito à imagem e semelhança de Deus.
De que vale pronunciar o nome de Deus com reverência, levantar as mãos, cantar louvores e falar de santidade, se a mesma boca que O bendiz é usada para ferir, humilhar e amaldiçoar aquele que carrega em si a marca do Criador?
Tiago já havia percebido essa contradição:
“Com ela bendizemos ao Senhor e Pai; também com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto seja assim.”
Tiago 3:9-10
O Evangelho não nos ensina a amar uma ideia de Deus enquanto desprezamos gente.
Ele nos ensina que o amor a Deus se torna visível na maneira como tratamos o outro.
Porque é fácil dizer: “Eu amo a Deus.”
Difícil é reconhecer Sua imagem naquele que nos contraria, naquele de quem discordamos, naquele que não pode nos oferecer nada em troca.
E talvez seja justamente aí que nossa fé seja colocada à prova: não naquilo que dizemos sobre Deus, mas naquilo que fazemos com aqueles que Deus colocou diante de nós.
A boca pode construir uma liturgia inteira.
Pode conhecer a doutrina correta, recitar versículos, defender a eleição, discutir predestinação e falar incessantemente sobre a graça.
Mas é a vida que revela se aquilo que professamos realmente alcançou o coração.
Fé que não se torna amor é apenas discurso religioso.
A graça que não produz misericórdia ainda não foi compreendida.
E a boca que bendiz a Deus enquanto destrói o próximo denuncia a incoerência da própria religião que professa.
Fé é maneira de existir
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Atraídos por Deus
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
As obras da fé
Glorificar
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Morte de Jesus
Um rapaz perguntou por que a morte de Jesus seria especial, se tantas pessoas já enfrentaram mortes terríveis, inclusive por causas nobres.
Para o cristão, a resposta começa antes da cruz.
Jesus não é apenas um homem que morreu injustamente. Ele é a revelação de Deus no Filho, o cumprimento da promessa, o Cordeiro destinado à redenção desde antes da fundação do mundo, manifestado no tempo oportuno para consumar aquilo que estava proposto.
Por isso, não é sobre a quantidade de sofrimento. É sobre perfeição.
Se a pena de morte aplicada naquele tempo fosse o apedrejamento, e não a crucificação, ainda assim Jesus seria o Salvador e Senhor das nossas vidas. O instrumento da morte não é o que confere valor à sua obra.
O que torna sua morte singular é que aquele que morreu não morreu como um pecador pagando a própria culpa. Morreu sem pecado, sem defeito, tendo cumprido perfeitamente aquilo que a Lei exigia.
Ele não foi simplesmente uma vítima da violência humana. Entregou-se.
E é justamente essa obediência perfeita que o torna o Cordeiro apto para a oferta.
A cruz, portanto, não é extraordinária porque tenha sido a morte mais dolorosa já experimentada por um ser humano. Muitos sofreram dores terríveis. Muitos morreram injustamente. Muitos entregaram a própria vida por aquilo em que acreditavam.
A singularidade de Cristo está em outra coisa:
o Justo morrendo pelos injustos; o Santo assumindo a condição daquele que deve morrer; aquele que não devia nada entregando-se voluntariamente pelos que nada poderiam oferecer em troca.
E a morte não foi o ponto final. Ele ressuscitou.
Por isso, para o cristão, a cruz não é simplesmente a história de um homem que sofreu e morreu por uma causa nobre.
É a história da obediência perfeita que atravessou a morte e venceu-a.
Não foi a crueldade da cruz que salvou. Foi Cristo.
Eu lembro, mas não quero voltar
Minha memória é horrorosa. Não porque eu esqueça facilmente as coisas, mas porque ela grava na carne tudo o que senti na vida. É um perpétuo ressentir, redoer, remoer... Horrorosa.
Ela alcança a mais tenra idade, quando eu precisava de injeções de penicilina, até o dia de ontem com meus netos. Quando tenho que relembrar alguma conversa, lembro até das vírgulas.
Observo meus irmãos. Volta e meia, viajam para o Rio de Janeiro em busca dos velhos amigos do tempo da adolescência. Para mim, isso seria como uma viagem ao passado, tentando reencontrar pessoas que já não existem mais.
Não vou. Viajaria se fosse para passar férias na praia, sair do ambiente, desligar-me dos problemas. Mas, para cavucar o que enterrei, jamais.
Apesar de nunca esquecer nada, nem o que disseram, nem o que fizeram , assisto à minha vida como quem assiste a um filme. Emociono-me, sinto, lembro. Mas não como alguém que precisa voltar para viver outra vez aquilo que já passou.
Acho que minha natureza observadora e contemplativa me faz olhar a vida minuciosamente, nunca pela superfície. E, talvez por isso, com as pessoas eu me desprenda com a mesma intensidade com que me conecto.
Tenho dificuldade para me aproximar, mas, se for preciso me afastar, sou ótima nisso. Talvez, com as outras pessoas, o processo também seja assim.
Penso em mim há dez, vinte, trinta anos e vejo tantas versões diferentes de quem fui. Características que foram aperfeiçoadas, outras que desapareceram completamente, outras que só descobri com o tempo. Então, como poderia buscar nos outros quem eles foram na minha juventude?
Se reencontro alguém, a conversa termina nas superficialidades. Não porque não haja história, mas justamente porque há história demais. E, às vezes, o que fomos um para o outro pertence àquele tempo e somente àquele tempo.
Não é que eu não sinta saudade.
É que quem de fato é importante nunca se foi. Quem se importa dá o ar da graça, mesmo que virtualmente. Quem atravessa a vida com a gente porque quer e porque gosta nunca perde o lugar.
Minha memória, entretanto, permanece intacta. Visita o passado e reencontra dores, amores, decepções, malquerenças, sorrisos. Registra tudo. Não apaga quase nada. Não é falta de memória, é excesso dela.
Mas também não quero reviver nada. Eu lembro, só não volto.
Deixo cada coisa quietinha, no lugar onde a vida a colocou e sigo.