As pessoas costumam pensar que, se pudessem voltar no tempo, fariam muitas coisas diferentes.
Eu, talvez, teria dito mais ou menos do que disse. Teria escolhido algumas palavras com mais cuidado, talvez tivesse me calado em algumas ocasiões e falado em outras.
Mas não voltaria.
Tenho aprendido a olhar para a vida de outra perspectiva.
Creio que absolutamente tudo pode cooperar para o bem, até aquilo que foi mal, na vida de quem compreendeu que o tempo, como o percebemos, é uma ilusão.
Somos seres eternos com os pés fincados na temporalidade. Por isso, o que foi, o que é e o que será, dentro da nossa percepção limitada, participa de um mesmo processo: o de nos aperfeiçoar.
Nos atritos, perdemos as arestas das nossas imperfeições. Nas trocas, deixamos um pouco de nós e trazemos um pouco dos outros.
Crescemos na dor, amadurecemos conceitos, renovamos pensamentos, nos desprendemos, mudamos de direção, aprendemos a deixar ir.
Evoluímos.
Por isso, embora minha memória registre coisas das quais minha carne não gosta de lembrar, existe em mim algo mais profundo que consegue olhar para tudo isso sem desejar apagar uma única página.
Eu estive com quem deveria estar. Passei pelos lugares que precisava passar. Vivi o que precisava viver.
Não porque tudo tenha sido bom, mas porque até o que não foi bom pôde ser transformado em matéria-prima para aquilo que me tornei.
Não quero outra história. Gosto desta.
Com os erros, os acertos, os encontros, as despedidas, as perdas, os recomeços, as decepções e as alegrias.
Nada eu deixaria de viver. Nem mesmo os problemas. Porque, se eu retirasse deles aquilo que me ensinaram, talvez retirasse também partes da mulher que hoje sou.
Minha gratidão não está em ter tido uma vida sem tormentos.
Está em ter atravessado os tormentos sem permanecer perdida neles.
E talvez essa seja uma das maiores graças que recebi: encontrar a Porta dentro do labirinto.
Enquanto tantos ainda caminham sem saber para onde ir, eu tive o privilégio de encontrar o Caminho que me devolveu a mim mesma.
Por isso, quando olho para trás, não quero voltar. Quero agradecer. Agradecer pela oportunidade extraordinária de estar viva.
Pelo que recebi. Pelo que perdi. Pelo que aprendi. Pelo que precisei abandonar. Pelo que nasceu em mim depois de cada morte.
E, sobretudo, agradecer a Deus porque, no meio de uma existência temporal, pude tocar aquilo que não passa.
Hoje entendo que talvez a vida nunca tenha sido sobre chegar a algum lugar. Talvez tenha sido sobre tornar-me.
E tudo o que vivi, inclusive aquilo que minha carne teria escolhido não viver participou, de algum modo, dessa transformação.
Por isso, se me perguntassem se eu voltaria no tempo, minha resposta seria não. Quero continuar compreendendo esta.