A maioria de nós prefere o raso, o linear, a calmaria. Preferimos caminhos previsíveis, dias sem grandes sobressaltos e águas que não nos obriguem a aprender a nadar. É compreensível. Ninguém, espontaneamente, escolhe a dor, a perda, a espera ou aquilo que desorganiza nossos planos.
Mas há coisas que somente as profundezas nos ensinam.
A sabedoria proveniente da fé não se conquista apenas ouvindo, lendo ou acumulando conhecimento. Ela se forma enquanto caminhamos. É fruto de perseverança, experiência e esperança.
Paulo escreveu:
“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.”
Romanos 5:3-4
É interessante perceber que existe uma sequência. A tribulação não produz imediatamente esperança. Primeiro ela nos confronta com nossa própria fragilidade. Depois, somos chamados a perseverar. É nessa permanência, muitas vezes dolorosa, que adquirimos experiência. E é a experiência de atravessar aquilo que parecia impossível que amadurece nossa esperança.
A fé que nunca foi testada pode até ser bonita no discurso, mas a fé que atravessou a tempestade ganha outra consistência.
É como uma flor que cresce onde o frio poderia tê-la impedido de florescer. Como a água encontrada no deserto, que não é apenas água: é alívio, sobrevivência, celebração. Como uma estrela que parece ainda mais luminosa quando o céu ao redor está escuro.
Talvez seja por isso que a fé mais preciosa não seja necessariamente aquela que fala mais alto, mas aquela que permanece quando já não há respostas fáceis.
Há uma diferença entre acreditar que Deus pode sustentar alguém na adversidade e descobrir, na própria pele, que Ele sustenta.
A primeira é uma convicção aprendida. A segunda se torna experiência. E experiência ninguém consegue nos dar pronta.
Podemos receber ensinamentos, conselhos, testemunhos e exemplos. Podemos ouvir pessoas que já atravessaram vales e aprender alguma coisa com elas. Mas há caminhos que só se tornam nossos quando os percorremos.
É na espera que aprendemos perseverança. É na perda que descobrimos o que realmente permanece. É na frustração que percebemos que nem todo desejo precisa ser atendido. É na solidão que aprendemos a distinguir ausência de abandono. É no sofrimento que muitas certezas superficiais são desmontadas e aquilo que é essencial permanece.
A adversidade não é boa em si mesma. Não precisamos romantizar a dor para reconhecer o que ela pode produzir em nós.
Há sofrimentos que apenas ferem. Há outros que, atravessados com fé, também nos transformam.
Por isso, talvez não devêssemos medir a qualidade de uma fé pela quantidade de calmaria que ela proporciona, mas pela maneira como ela nos sustenta quando a calmaria termina.
A fé madura não é aquela que nunca enfrenta montanhas, mas aquela que aprendeu a subir.
Não é aquela que nunca atravessa desertos, mas aquela que continua procurando a fonte.
Não é aquela que nunca passa por noites escuras, mas aquela que aprendeu a esperar pelo amanhecer.
Como escreveu C. H. Spurgeon, “A fé provada traz experiência.”
E talvez seja justamente essa experiência que torne a fé menos ingênua, menos dependente de circunstâncias e mais profunda.
Porque depois de atravessar algumas tempestades, já não cremos somente porque nos disseram que Deus é fiel.
Cremos porque, em algum momento da caminhada, descobrimos que Ele foi.