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terça-feira, 15 de setembro de 2026

O que respondi à Josi num grupo hoje

O que ela perguntou 

Teístas me expliquem uma coisa ..
Vocês não acham confuso acreditar que devem adorar apenas um único Deus mas ao mesmo tempo acreditar que Jesus é Deus, Deus é Deus e o Espírito Santo é Deus? Tipo 3 deuses embutidos. 
Outra coisa que eu queria saber.

Vocês dizem que Deus é amor que Deus deu livre árbitro mas condena os outros ao inferno, então onde está o amor divino ? Onde está o livre árbitro? Deus então tem prazer na vingança?

Outra dúvida também.. 
Se Deus criou o ser humano para viver na terra pq as pessoas vão morrer e viver no céu? Então o planeta terra não faz sentido algum. As pessoas já deveriam ter nascido no céu, não precisavam se tele transportar. 😅

Desanimei de ser católica e evangélica por causa dessas questões sem sentido.

Não concordo com os ateus sobre a inexistência de Deus, mas não discordo de que tem coisas que vocês não param para pensar que não faz sentido nenhum na interpretação biblica que voces aprenderam. Kkkk

O que respondi

Oi, Josi.
1- o homem não consegue definir nem a si mesmo, nem o próximo, quanto mais definir a divindade. Tentar enquadrar Deus num formato qualquer, ainda vai deixar a desejar. O que a Bíblia diz a respeito, é que Jesus é Deus encarnado, é a revelação plena do que se pode conhecer de Deus, do que cabe nos nossos conceitos, do que está ao nosso alcance, porque Deus é Espírito, é incorpóreo, ocupa toda a imensidão e ao mesmo tempo habita em templos de carne, porque essa é a forma de ficar século após século em nós. No mais é pretensão humana, porque uma mente temporal, limitada e finita, não cabe tudo o que o Eterno é. Um dia saberemos.

2- Deus não condena ninguém arbitrariamente, ao contrário, Ele oferece a justificação pela Graça, a separação, portanto, não é uma vingança divina, mas a consequência da escolha humana. O que chamam de inferno é a prisão para o diabo. Não existe esse formato baseado no "Inferno de Dante" e usado pelos sistemas religiosos para castrar pessoas. Isso é baseado na tradição histórica e crença popular. Quanto a separação, isso as próprias pessoas escolhem. Ninguém vai ser obrigado a ser um com o Deus a quem rejeita. A pessoa não é condenada por não conseguir produzir justiça suficiente para Deus; ela permanece naquilo que escolheu ao recusar a justiça oferecida em Cristo. A morte é para todos, a ressurreição é para quem vive com essa esperança.

3- Segundo a Bíblia, a Terra será restaurada e a Nova Jerusalém descerá do céu. É por isso que se diz que Jesus vai voltar. Esse negócio de viver para sempre no céu é interpretação religiosa, até porquê definem eternidade como um tempo que não tem fim. No meu entendimento, eternidade é o não-tempo, onde nada se deteriora e nem acaba e por isso todos são plenos.

Também circulei por sistemas religiosos, que nunca responderam nada, até porquê tentam imitar o judaísmo, que o próprio Jesus desconstruiu.

O Evangelho não é um convite para alguém aceitar. É o anúncio de que o preço foi pago e fomos aceitos em Cristo, que pagou nossa dívida. Quem crê, se alegra e vive com essa esperança.

Deixando as coisas de menino

Um pouco de fermento leveda a massa inteira, a ponto de alguns líderes que se dispõem a pregar o Evangelho transformarem-no em veneno, completamente nocivo à saúde espiritual dos que os ouvem.

De fato, o evangelho simpático aos ouvidos carnais promete abrir portas, garante vitórias, segrega, distorce, engana, manipula, escraviza, vicia e cega uma multidão incontável de débeis na fé.

Gente que lê e não compreende, escuta e não ouve, olha e não enxerga, enquanto engole uma gororoba evangélica incapaz de promover crescimento, inútil para edificar, mantendo cativos numa ilusão aqueles que usam o nome de Jesus sem jamais terem aprendido a andar com Ele.

Sanguessugas da fé, insaciáveis meninos birrentos, que terminam frustrados em sua própria atrofia, sem jamais terem experimentado a profundidade da Graça de Deus. Chega!

Todo aquele que deseja andar com Cristo terá que compreender que carregará a marca dele e será reflexo de seu Senhor.

Sim, padecerá. Sofrerá escárnio, será abandonado, dará a cara à tapa, será traído, poderá ser negado pelos amigos e, muitas vezes, caminhará sozinho.
Contudo, permanecerá amando.

Os filhos de Deus, à semelhança de Cristo, passarão por muitas aflições. E o consolo não está em imaginar que serão poupados delas, mas em lembrar que o Senhor venceu tudo o que lhe foi proposto, permanecendo firme até o fim.
Nosso alvo é ser como Ele.

E suas palavras continuam ecoando dentro de nós, porque são espírito e vida:

Não desanimem. Estou com vocês até o fim. Perseverem. Não retrocedam. Sejam constantes. Sua felicidade está na certeza de pertencer a mim.
Você é bem-aventurado quando sofre injustiça, quando é perseguido ou quando chora por minha causa. É bem-aventurado quando permanece humilde, fiel, manso e pacificador, porque aprendeu comigo.

Observem a vida de Paulo. Depois de sua conversão, ele passou a conquistar coisas para si mesmo? Ao contrário.

Despiu-se de quem era para ser revestido de um novo homem, cujo viver passou a ser Cristo. E chegou ao ponto de considerar a própria morte por Cristo como lucro.

Quem quiser continuar enganando a si mesmo, coma mais desse alimento estragado.

A tolice lhe garantirá muitas companhias e o manterá nas amenidades, na superfície, nas basicalidades, na carnalidade.

Mas quem não estiver disposto a perder pessoas, abrir mão de status e esvaziar-se de si mesmo jamais compreenderá as coisas do Alto em sua profundidade.

É preciso tomar cada qual a sua cruz e conviver com seu próprio espinho fincado na carne.
E não faltarão filhos das trevas para apontar o dedo em riste.

Mas a Graça bastará.

Padecer por Cristo não é uma condenação, nem um troféu.

É o preço de permanecer fiel quando seguir a Cristo deixa de ser conveniente.

E talvez seja justamente aí que deixamos as coisas de menino: quando já não buscamos Cristo pelo que Ele pode nos dar, mas desejamos ser semelhantes a Ele, ainda que isso nos custe alguma coisa.

Porque o alvo nunca foi uma vida sem cruz.
O alvo sempre foi Cristo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Depois da curva

Durante todo o tempo, 
O corpo me limitou.
Tornou-se um aprisionamento
para uma alma cansada.

Um olhar de despedida
já me dominava,
como quem desiste
dos anos que ainda faltam.

Dia após dia,
soterrada em dor e peso,
estava quem eu sou,
quieta, esperando o fim.

Mas depois da curva
tem vida, sim.

Há uma mulher no espelho
olhando para mim
com olhos admirados,
como quem contempla uma vitoriosa.

Como quem finalmente encontra
e abraça alguém
que esteve distante por tanto tempo.

Alguém que lutou
com todas as forças
para se reencontrar.

Para salvar
quem realmente importa.

Não para caber
na vida dos outros,
não para corresponder
ao que esperavam de mim.

Mas para viver a minha própria vida.
Para colher o que plantei.
Para reconhecer meu merecimento.
Para olhar meu reflexo
e, finalmente,
gostar de encontrar quem está ali.

Depois da curva
não existe um final. 
Existe o recomeço.

Crença ou fé

Crenças existem às dúzias, ao gosto de cada um, segundo a conveniência ou a debilidade de quem se deixa conduzir. A fé, porém, é uma construção de vida.

Ela se constrói à medida que se busca a Deus e se experimenta a condição de filho que escuta o Pai. Vem do ouvir — não apenas de escutar sons, mas de dar ouvidos, aprender e confiar — para, a partir disso, fazer escolhas.

Às vezes é possível identificar-se com irmãos que caminham na mesma fé. Mas, na maioria das vezes, as pessoas apenas se conformam. Entram em fôrmas, repetem padrões e, pouco a pouco, perdem a própria individuação.

No Evangelho, a Boa-Nova é para aquele que se compreende filho, co-herdeiro com Cristo. É Cristo quem se revela, e essa revelação produz uma relação pessoal, viva e intransferível. Nesse relacionamento, cada filho é aperfeiçoado, recebe dons e missões que não podem ser terceirizados e, como cooperador, prestará contas daquilo que lhe foi confiado.

Na crença, basta cumprir protocolos: não questionar regras, estatutos e dogmas; não falhar nos compromissos da instituição; permanecer fiel à rotina e viver em função da empresa religiosa.

Há quem precise dessa dinâmica. Mas há também quem viva pela fé.

E eu só não consigo entender por que estes últimos são chamados de desviados, se foi justamente a esses que Jesus chamou para fora das fôrmas, e a quem Ele mesmo justificou.

Talvez o desvio, aos olhos da religião, seja simplesmente o caminho de quem deixou de caber na fôrma para aprender a caminhar como filho.

Vendo Jesus na greta


Quando fui desenganada aos dois anos, minha avó me levou a uma campanha de oração, e o pastor me fez engolir um cálice de azeite. Eu, que nem tinha condições de crer em nada, já saí dali voltando a caminhar e a me alimentar, habilidades que eu havia perdido.

Aos três ou quatro anos, lembrei da salada no prato da minha mãe e mastiguei uma folha de comigo-ninguém-pode. Automaticamente, minha garganta fechou. Eu sentia algo muito estranho. A moça que cuidava de mim correu e me encheu de leite. Não lembro se vomitei ou se apenas senti alívio, mas parece que o leite funcionou como um antídoto.

Aos sete, eu brincava na Ilha de Paquetá quando algumas crianças me atropelaram com um pedalinho. Fiquei alguns segundos submersa, tentando voltar à superfície, enquanto as pás do pedalinho giravam contra mim. Foi outro momento em que senti que poderia ter partido.

Aos vinte, a pessoa que me evangelizou, enquanto eu estava em uma crise existencial e enfrentava uma infecção que não conseguia curar, me deu um punhado de folhas para fazer chá. E o que os antibióticos não estavam conseguindo fazer, as ervas fizeram. Mais uma vez, minha vida se renovou.

Aos 32, perdi um bebê e quase não sobrou sangue em mim. Demorei algum tempo até me recuperar da anemia.

Quando retirei a vesícula, o residente disse que dei muito trabalho para voltar a respirar. Lembro-me da garganta arranhando e da voz rouca enquanto recuperava a saturação. Fiquei um bom tempo com oxigênio no nariz, mas ficou tudo bem... até o ano seguinte, quando operei uma hérnia enorme e rara, decorrente da primeira cirurgia.

Em outros momentos, escapei ilesa de acidentes que aconteceram bem ao meu lado, como se algo realmente tivesse me segurado no lugar para que o dano não me alcançasse.

Daqui a alguns meses, estarei de novo em um centro cirúrgico.

A intenção é começar um novo ciclo, mais saudável, livre de tantas dores crônicas, para conseguir ao menos envelhecer podendo cuidar de mim.

Mas passa um filme na cabeça.

Foram tantas situações em que vi Jesus na greta e voltei... Será que vai dar certo desta vez também?

Não é uma ansiedade abstrata diante de uma cirurgia. Carrego na memória vários momentos concretos em que estive muito perto da morte ou de uma situação grave e voltei.

É natural que, diante de outro centro cirúrgico, todas essas cenas se levantem juntas.

Nunca estive no controle.

Aos dois anos, não podia sequer compreender o que estava acontecendo. Aos sete, foi um acidente. Aos vinte, estava fragilizada. Aos 32, perdi muito sangue. Nas cirurgias, dependia inteiramente da equipe e do próprio corpo.

E, ainda assim, a história terminou repetidamente comigo voltando para a vida.

Confiar não é receber uma garantia de que nada dará errado. É não precisar conhecer o desfecho para continuar caminhando.

Já atravessei portas que pareciam portas de saída. E voltei. Algumas vezes, voltei imediatamente. Outras, precisei de tempo para recuperar sangue, força, respiração, saúde. Mas voltei.

Agora estou indo para uma cirurgia justamente porque quero continuar vivendo. Quero diminuir dores, recuperar mobilidade, cuidar melhor de mim e chegar à velhice com mais autonomia.

Talvez essa seja a parte mais bonita dessa história.

A menina de dois anos que voltou a caminhar não sabia o que a esperava. A menina de sete anos que voltou à superfície não sabia o que a esperava. A mulher de vinte anos que se recuperou também não.

E a mulher de 54 anos que agora entra novamente em uma sala cirúrgica já sabe muito mais sobre a vida do que todas elas juntas.

Ela sabe que o corpo é frágil. Sabe que pode ter medo e, ainda assim, prosseguir. E sabe, sobretudo, que sobreviver não é a única maneira de viver.

Talvez esse próximo ciclo não seja mais uma vez em que eu precise “voltar da greta”.

Passei tantas vezes pela greta que aprendi a reconhecer a presença de Jesus não apenas quando voltei dela, mas também enquanto caminhava em sua direção.

Eu não sei como será. Mas cheguei até aqui.
E não estou sozinha. Nunca estive.

domingo, 13 de setembro de 2026

Jesus faz pensar

A insinuação encontra pouso, a afirmação resistência.

Talvez porque a insinuação não obrigue ninguém a se posicionar. Ela chega disfarçada de dúvida, pergunta, comentário ou possibilidade e deixa espaço para que o outro complete o sentido. Por isso, muitas vezes entra onde uma afirmação direta seria barrada.

A afirmação, porém, traz consigo o peso da clareza. Quando algo é dito sem rodeios, já não há tanto espaço para fingir que não se entendeu. É preciso concordar, discordar, questionar ou se defender.

A insinuação sugere. A afirmação expõe.

A primeira pode ser acolhida sem compromisso; a segunda exige uma resposta.

Talvez seja por isso que tantas pessoas sejam mais receptivas àquilo que apenas lhes dá uma ideia do que àquilo que lhes apresenta uma verdade que contraria suas convicções.

O que é insinuado pode encontrar pouso na dúvida. O que é afirmado precisa enfrentar a resistência da certeza.

Jesus usava parábolas, metáforas e outras imagens não simplesmente para insinuar aquilo que queria dizer, mas porque esse modo de falar alcançava o ouvinte por outro caminho. Em vez de entregar uma conclusão pronta, ele frequentemente colocava uma história diante da pessoa e a fazia pensar, interpretar e se posicionar.

Veja, por exemplo, a parábola do bom samaritano. Jesus poderia ter dito diretamente: “Você deve amar o seu próximo, inclusive aquele que considera seu inimigo.” Mas contou uma história. E, ao final, perguntou: “Qual destes três te parece ter sido o próximo?” O homem teve de chegar à resposta por si mesmo.

A parábola não é exatamente uma insinuação. Ela é uma verdade vestida de história.

A pessoa baixa a guarda porque não está sendo imediatamente confrontada com um “você está errado”. Ela escuta uma narrativa, identifica personagens, julga atitudes, toma partido — e, quando percebe, está julgando a si mesma através da história.

Natã fez algo semelhante com Davi ao contar a história do homem rico que tomou a única cordeirinha do pobre. Davi se indignou contra o personagem antes de perceber: “Tu és esse homem.”

Talvez seja justamente uma das genialidades do ensino de Jesus: algumas verdades precisam entrar pela porta da percepção antes de chegar à porta da convicção.

A afirmação pode levantar uma muralha. A pergunta abre uma fresta. A parábola oferece um espelho.

E, diante do espelho, é muito mais difícil discutir com quem está refletido ali.

Livre arbítrio

Ninguém escolhe onde vai nascer, o sexo que terá, a família que o educará, as batalhas que enfrentará, as doenças que terá ou as intercorrências que viverá. Há coisas que simplesmente nos acontecem, sem que tenhamos sido consultados.

O que cabe ao homem escolher é se obedecerá ou não à essência amorosa que transcende de Deus para o homem e emana do homem em direção ao próximo.

Amor é decisão. É escolher fazer o bem, mesmo quando nossa própria natureza conspira contra nós. É negar o impulso de colocar o próprio interesse no centro e reconhecer que o outro também importa.

Não fazemos o mal somente quando matamos, roubamos ou ferimos deliberadamente. O mal começa antes, quando tiramos Deus do centro e nos colocamos em seu lugar.

Talvez o pecado mais profundo não seja simplesmente fazer o que é mau, mas assumir para nós mesmos o lugar que não nos pertence: o centro. Porque, quando o homem se torna o próprio centro, o outro deixa de ser próximo e passa a ser obstáculo, instrumento ou ameaça.

Amar, portanto, é mais do que sentir. É uma escolha diária de deslocar-se do centro para que o bem possa ocupar o lugar que lhe pertence. É permitir que aquilo que procede de Deus atravesse nossa vida e alcance quem está ao nosso redor.

Não escolhemos tudo o que nos acontece. Mas podemos escolher o que emanará de nós a partir daquilo que nos aconteceu.



sábado, 12 de setembro de 2026

A sabedoria que nasce na adversidade



A maioria de nós prefere o raso, o linear, a calmaria. Preferimos caminhos previsíveis, dias sem grandes sobressaltos e águas que não nos obriguem a aprender a nadar. É compreensível. Ninguém, espontaneamente, escolhe a dor, a perda, a espera ou aquilo que desorganiza nossos planos.

Mas há coisas que somente as profundezas nos ensinam.

A sabedoria proveniente da fé não se conquista apenas ouvindo, lendo ou acumulando conhecimento. Ela se forma enquanto caminhamos. É fruto de perseverança, experiência e esperança.

Paulo escreveu:

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.”
Romanos 5:3-4

É interessante perceber que existe uma sequência. A tribulação não produz imediatamente esperança. Primeiro ela nos confronta com nossa própria fragilidade. Depois, somos chamados a perseverar. É nessa permanência, muitas vezes dolorosa, que adquirimos experiência. E é a experiência de atravessar aquilo que parecia impossível que amadurece nossa esperança.

A fé que nunca foi testada pode até ser bonita no discurso, mas a fé que atravessou a tempestade ganha outra consistência.

É como uma flor que cresce onde o frio poderia tê-la impedido de florescer. Como a água encontrada no deserto, que não é apenas água: é alívio, sobrevivência, celebração. Como uma estrela que parece ainda mais luminosa quando o céu ao redor está escuro.

Talvez seja por isso que a fé mais preciosa não seja necessariamente aquela que fala mais alto, mas aquela que permanece quando já não há respostas fáceis.

Há uma diferença entre acreditar que Deus pode sustentar alguém na adversidade e descobrir, na própria pele, que Ele sustenta.

A primeira é uma convicção aprendida. A segunda se torna experiência. E experiência ninguém consegue nos dar pronta.

Podemos receber ensinamentos, conselhos, testemunhos e exemplos. Podemos ouvir pessoas que já atravessaram vales e aprender alguma coisa com elas. Mas há caminhos que só se tornam nossos quando os percorremos.

É na espera que aprendemos perseverança. É na perda que descobrimos o que realmente permanece. É na frustração que percebemos que nem todo desejo precisa ser atendido. É na solidão que aprendemos a distinguir ausência de abandono. É no sofrimento que muitas certezas superficiais são desmontadas e aquilo que é essencial permanece.

A adversidade não é boa em si mesma. Não precisamos romantizar a dor para reconhecer o que ela pode produzir em nós.

Há sofrimentos que apenas ferem. Há outros que, atravessados com fé, também nos transformam.

Por isso, talvez não devêssemos medir a qualidade de uma fé pela quantidade de calmaria que ela proporciona, mas pela maneira como ela nos sustenta quando a calmaria termina.

A fé madura não é aquela que nunca enfrenta montanhas, mas aquela que aprendeu a subir.

Não é aquela que nunca atravessa desertos, mas aquela que continua procurando a fonte.

Não é aquela que nunca passa por noites escuras, mas aquela que aprendeu a esperar pelo amanhecer.

Como escreveu C. H. Spurgeon, “A fé provada traz experiência.”

E talvez seja justamente essa experiência que torne a fé menos ingênua, menos dependente de circunstâncias e mais profunda.

Porque depois de atravessar algumas tempestades, já não cremos somente porque nos disseram que Deus é fiel.

Cremos porque, em algum momento da caminhada, descobrimos que Ele foi.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Amar ou gostar

Para a pessoa comum, aparentemente amar é mais profundo do que gostar de alguém. Mas biblicamente, há uma grande diferença, quando se separa a prática de amar, de um sentimento.

No uso cotidiano, costumamos colocar gostar e amar numa espécie de escala de intensidade: gostar seria um sentimento mais leve; amar, um sentimento mais profundo. Biblicamente, porém, quando olhamos para o amor como prática, essa lógica muda.

O amor bíblico não depende necessariamente de afeição, identificação ou prazer na presença do outro. Ele pode existir sem simpatia e até sem reciprocidade. Amar é uma disposição que se traduz em atitudes concretas em favor do outro.

Por isso Jesus pode ordenar: “amai os vossos inimigos”. Ele não está ordenando que sintamos afeição por quem nos faz mal, nem que aprovemos suas atitudes. Está nos chamando a uma prática: fazer o bem, orar, perdoar, não retribuir mal com mal.

Isso também explica por que o samaritano é apresentado como exemplo de amor. Ele provavelmente não conhecia aquele homem, não tinha vínculo afetivo com ele e sequer sabemos se teria gostado dele. Mas amou-o na prática.

Jesus fitou o jovem rico e o amou. Demorou-se nele, ouviu-o e o confrontou. Fez com que o rapaz expusesse seus conhecimentos religiosos e, então, mostrou-lhe que ainda lhe faltava a prática. Quando Jesus lhe pediu que abrisse mão de suas riquezas e as repartisse com os pobres, o jovem se retirou triste. Entendeu, naquele momento, que amava mais o seu dinheiro do que aqueles que precisavam dele.

O bom samaritano amou um desconhecido. Diante de alguém ferido à margem do caminho, não perguntou quem ele era, de onde vinha, qual era sua religião ou se merecia ajuda. Simplesmente se compadeceu, supriu sua necessidade, cuidou de suas feridas e se responsabilizou pelo que ainda fosse necessário. Fez aquilo que os religiosos que passaram por ali não fizeram, apesar de toda a sua prática religiosa.

Amor tem a ver com doar-se sem acepção.
No ápice do amor, Jesus entregou a própria vida por pecadores e, enquanto sua vida terrena era ceifada, ainda intercedeu por aqueles que o crucificavam.

Ele mesmo nos ensinou a amar os inimigos e a orar por aqueles que nos perseguem. Porque o amor não pode depender da simpatia, da reciprocidade ou da aprovação. Nosso foco deve estar no bem, na transformação e na possibilidade de que alguém reencontre o caminho, enquanto nos dispomos a ajudar a iluminar o entendimento de quem está ao nosso redor — amigos ou não.

Gostar é diferente de amar.

Gostar tem a ver com aprovação, identificação, afinidade. É ter gosto pela pessoa, pela maneira como ela pensa, age ou se comporta.

Amar, porém, é desejar o bem.

Por isso, é perfeitamente possível amar alguém de quem não gostamos.

Posso não aprovar suas atitudes, não concordar com suas escolhas, não ter afinidade com sua personalidade e até preferir manter distância. Ainda assim, posso me importar com sua vida, não desejar seu mal, ajudá-lo quando estiver caído e, se houver oportunidade, contribuir para que ele se reencontre.

Porque amar não é dizer: “Eu gosto de você exatamente como você é.”

Quando amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser prática, ele já não depende daquilo que o outro desperta em mim, mas daquilo que eu decido oferecer a ele.

Gostar tem a ver comigo: com o que sinto quando encontro o outro. Amar tem a ver com o outro: com o bem que estou disposto a fazer por ele.

Às vezes, amar é justamente dizer, com atitudes:
“Eu não aprovo o que você está fazendo, mas ainda assim não desisti do seu bem.”

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Percebendo o que não cabe nas mãos

Não tem como aprender tudo dentro de casa, mesmo que nossos pais passem todo o tempo do mundo nos orientando. Há coisas que só aprendemos quando saímos, experimentamos, escolhemos e decidimos. É pelas consequências das nossas escolhas, pelos acertos e pelos erros, que vamos amadurecendo.

Também não tem como passar a vida inteira estudando dentro de quatro paredes. Chega uma hora em que é preciso praticar: tentar, errar, compreender onde erramos, tentar novamente, buscar, trocar experiências, relacionar-se, resolver problemas. É assim que nos qualificamos, ampliamos nossos horizontes e alcançamos outros patamares.

Com a vida espiritual não é tão diferente.

Cada pessoa está em uma determinada frequência de percepção. Há dimensões que não se revelam apenas pela razão, pela lógica ou pela necessidade de provas objetivas. Para perceber determinadas coisas, é preciso afinar os sentidos, silenciar alguns ruídos, sensibilizar-se, purificar as intenções, abrir espaço para aquilo que não pode ser medido.

Não se trata de desligar a razão. Trata-se de compreender que a razão não é o único instrumento de percepção.

Como alguém que exige uma prova material da existência de Deus poderá reconhecer uma manifestação que não é material?

Como alguém que não filtra sequer o que diz, que transforma pessoas em objeto de escárnio e passa o tempo inteiro ridicularizando aquilo que não compreende poderá perceber, pela sensibilidade, pela intuição, pelo silêncio, o mistério, o imaterial e o subjetivo?

Talvez não seja Deus que esteja ausente.
Talvez sejam os nossos próprios ruídos que estejam ocupando todo o espaço.

Há coisas que não se encontram porque não estão escondidas. Estão apenas além do alcance de quem procura com a ferramenta errada.

E talvez a fé seja justamente isso: não abandonar a razão, mas reconhecer que existe um território onde ela deixa de ser a única autoridade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O fruto que se aperfeiçoa no caminho

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio.”

— Gálatas 5:22-23

Os atributos desse fruto são aperfeiçoados nos encontros, inclusive nas trombadas. É no atrito das relações, nas contrariedades e nas circunstâncias difíceis que nossas arestas vão sendo aparadas. Menos de nós, mais de Deus.

Quem reconhece e vive o amor, se nunca foi alvo do ódio?

Quem valoriza a paz, se nunca esteve em um ambiente hostil?

Quem pode aprender a ser bom, se nunca precisou escolher a bondade diante da maldade?

Quem pode exercitar a longanimidade, se nunca atravessou tribulações?

Quem pode permanecer manso, se nunca foi afrontado?

Quem pode exercer o domínio próprio, se jamais foi tentado?

É fácil parecer paciente quando nada nos incomoda, manso quando ninguém nos afronta, generoso quando nada nos é negado e pacífico quando tudo está em ordem.

Mas é quando somos contrariados que descobrimos o quanto ainda precisamos crescer.

Talvez por isso Deus não nos transforme retirando todas as dificuldades do caminho, mas nos ensinando a atravessá-las sem perder aquilo que Ele está formando em nós.

Viver é um exercício contínuo de esvaziamento de si mesmo e crescimento em Deus. Não se trata de nos tornarmos pessoas que nunca são feridas, contrariadas ou tentadas, mas de permitirmos que, em cada encontro, cada conflito e cada trombada, o Espírito produza em nós um pouco mais de Cristo.

Porque o fruto não amadurece longe da vida.

É no chão da vida que Deus poda, aperfeiçoa e faz frutificar.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A raiz e o fruto



Pecar é como comer um fruto. A fome volta e, logo, procuraremos outro, depois outro e outro. Podemos arrancar os frutos, mas, se a raiz permanecer, a árvore continuará produzindo.

Deus não se limita a arrancar os frutos. Ele vai à raiz. Não quer apenas interromper determinados pecados; quer libertar o homem do domínio que o conduz a eles.

É isso que a Cruz anuncia àquele que crê: a carne já não precisa exercer domínio, porque o velho homem foi crucificado com Cristo, para que não sejamos mais escravos do pecado.

A Cruz não veio apenas tratar dos sintomas; veio tocar a origem da nossa escravidão.

E então Deus nos oferece um único Fruto — Cristo.

Nele não há apenas uma satisfação passageira para a fome da alma. Há plenitude. Há vida. Há uma fonte que não seca.

Quem continua procurando nos frutos aquilo que somente o Fruto pode oferecer permanecerá eternamente faminto.

Porque o pecado oferece sabores que passam; Cristo oferece uma vida que permanece.

Para cada solução, um problema

Tem pessoas que, para cada solução, encontram um problema.

Gente que só consegue enxergar o copo meio vazio, que parece olhar tudo pelo lado negativo e, fatalmente, aluga o ouvido dos outros para despejar lamúrias, preocupações e negatividade.

Tive uma amiga assim desde que a conheci. Hoje já  não somos tão próximas, mas nada mudou, toda vez que nos vemos é igual.. Como não sou muito falante, acabo sendo uma boa ouvinte e, muitas vezes, conselheira. E constantemente me vejo ocupada com os problemas alheios — não porque os procure ou me coloque nesse lugar, mas porque as pessoas acabam me elegendo para ele. Talvez porque saibam que aquilo que me contam morre em mim.

Por outro lado, quase nunca compartilho o que vivo com os outros.

Tenho a impressão de que as pessoas estão sempre precisando desabafar, mas que meus problemas e minhas dores raramente despertam o mesmo interesse. Talvez eu não saiba interromper o assunto quando ele é do outro. Talvez eu também não me exponha o suficiente. O fato é que nossas conversas quase nunca circulam pelas minhas vivências. Quase sempre desembocam nas vivências de alguém.

Não tenho muita sintonia com a maioria das pessoas. Converso superficialmente sobre quase tudo, mas não me entrego facilmente a ninguém.

Talvez porque eu precise me sentir ouvida para conseguir me abrir  e raramente me sinto assim.

Por exemplo: estou passando pelo processo para fazer uma bariátrica. Estou pensando em melhorar minha qualidade de vida, recuperar mobilidade, disposição, possibilidades. Estou pensando, sobretudo, em viver melhor.

E, quando compartilho isso, não é raro alguém imediatamente me lembrar que depois talvez eu precise retirar pele, que posso ter queda de cabelo, que minha aparência poderá envelhecer, que haverá outras consequências...

Ora, eu sei.
Mas eu estou tentando resolver um problema de cada vez.

Neste momento, estou olhando para aquilo que preciso fazer para melhorar minha vida. As consequências que vierem depois, eu resolvo quando chegarem  e, se alguma delas me incomodar, encontrarei uma maneira de lidar com ela.

Não preciso que alguém transforme uma esperança em uma lista de problemas.

Às vezes, tudo o que o outro precisa é de alguém que diga: “Que bom que você está tentando. Eu torço para que dê certo. E, se alguma dificuldade aparecer no caminho, a gente vê como resolver.”

Mas as pessoas parecem ter dificuldade de simplesmente oferecer suporte. Precisam alertar, corrigir, prever, problematizar.

Talvez porque seja mais fácil apontar o que pode dar errado do que sustentar alguém enquanto ela tenta fazer dar certo.

As pessoas não sabem se colocar no lugar do outro. Não sabem ser apoio, ser suporte, ser abrigo. Muitas vezes, diante da esperança alheia, oferecem apenas seus próprios medos.

E há momentos em que a gente não precisa de alguém apontando a próxima dificuldade.

A gente só precisa de espaço para respirar e continuar, sabendo que torcem por nós.

O bem precisa estar na superfície


Todo mundo erra. Errar é uma condição intrínseca à humanidade. Somos seres em construção, capazes de tropeçar, ferir, agir por impulso, tomar decisões equivocadas e, depois, reconhecer o erro, reparar o dano e aprender com ele.

Mas há uma diferença enorme entre errar e fazer da maldade um modo de existir.

Diante da frieza, da crueldade ou da perversidade de alguém, é comum ouvirmos: “No fundo, ele é uma boa pessoa.” Como se a bondade estivesse escondida em algum lugar profundo da alma, enquanto tudo aquilo que chega à superfície fosse justamente o contrário dela.

Mas, se é preciso cavar muito fundo para encontrar a bondade de alguém, talvez seja necessário perguntar: que espécie de bondade é essa que ninguém consegue enxergar?

Penso que o bem não deveria morar nas profundezas. O bem precisa estar na superfície.

Não porque sejamos incapazes de ter impulsos ruins, mas porque aquilo que fazemos com esses impulsos revela quem estamos escolhendo ser.

No fundo, talvez seja onde devamos guardar nossa tendência animalesca de reagir por instinto, de pensar primeiro em nós mesmos, de agir sem considerar o sentimento alheio. É ali que devem ser contidos o egoísmo, o orgulho, o desejo de vingança, a necessidade de ter razão, o nosso pequeno geocentrismo — essa tendência humana de fazer de nós mesmos o centro em torno do qual tudo e todos deveriam girar.

Não somos responsáveis por nunca sentir raiva, inveja, ressentimento ou vontade de revidar. Somos responsáveis pelo que fazemos com tudo isso.

Porque sentir não é necessariamente escolher.

A bondade verdadeira não é a ausência de sombras; é a decisão de não deixar que elas governem nossas mãos, nossa língua e nossas relações.

E talvez seja justamente por isso que Jesus tenha falado da luz que não deve ser colocada debaixo do alqueire. A luz não foi feita para ficar escondida dentro da casa. Ela precisa estar no alto, onde possa iluminar o ambiente e permitir que outros também enxerguem.

A bondade é essa lanterna.

Precisa estar suficientemente alta para ser vista, não como propaganda de virtude, mas como consequência natural de uma vida que aprendeu a considerar o outro.

Bondade escondida não consola quem sofre.
Bondade escondida não protege quem está vulnerável.
Bondade escondida não alimenta quem tem fome.
Bondade escondida não pede perdão, não faz justiça, não estende a mão, não acolhe.

O bem que ninguém consegue experimentar pode até existir como uma intenção, mas ainda não se transformou em vida.

Por isso, talvez seja mais honesto parar de procurar a “boa pessoa que existe lá no fundo” e observar aquilo que ela coloca para fora.

Porque é na superfície que a vida toca a vida.

É nas palavras que alguém ouve.
É nas mãos que ajudam ou ferem.
É nas escolhas que afetam os outros.
É na maneira como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca.

Não precisamos ser perfeitos para sermos bons. Mas a nossa imperfeição não pode servir de esconderijo para a maldade.

Que nossas sombras permaneçam sob vigilância, enquanto a luz permanece no alto.

Não para parecermos bons.

Mas para que, através de nós, alguém consiga enxergar o caminho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Cada um cuide da própria consciência

Quem é, continuará sendo. Quem não é, continuará não sendo. E talvez convenha que todos existam, coexistam e caminhem lado a lado, porque é justamente no encontro entre luz e trevas que aquilo que somos vai se tornando evidente.

O bem potencializa o contraste com o mal, e o mal, por sua vez, torna ainda mais evidente o valor do bem. Um revela o outro. Enquanto houver vida, haverá escolhas, quedas, recomeços, endurecimentos e transformações. Será assim até o fim.

Por isso, com fé ou sem fé, cada um cuide da própria consciência.

Não fomos chamados para ocupar o lugar de Deus, distribuindo antecipadamente títulos de benditos e malditos. Fomos chamados a viver de tal maneira que nossa própria vida testemunhe aquilo em que dizemos crer.

Porque haverá um dia em que todos estaremos diante de Deus. Não haverá máscaras, argumentos, reputações, títulos religiosos ou discursos ateístas que possam nos esconder de nós mesmos.

Estaremos à direita ou à esquerda.

E então não será a nossa boca a dizer quem somos.

Seremos chamados pelo que fomos.

Benditos ou malditos.

E talvez seja justamente por isso que devemos nos preocupar menos em decidir quem estará de cada lado e muito mais em perguntar, enquanto ainda há tempo:

De que lado as minhas escolhas têm me colocado?

domingo, 6 de setembro de 2026

Fé não é poder sobre o outro

Fé não é poder sobre o outro

Israel foi um povo rebelde, que muitas vezes colheu o fruto de sua própria desobediência. É, portanto, um modelo que também nos ensina pelo que não devemos repetir: cumpria protocolos religiosos, observava uma Lei cheia de prescrições e, ainda assim, muitas vezes se afastava de Deus. Tanto que não reconheceu Jesus, a revelação plena de Deus, caminhando entre eles.

A Igreja histórica, por sua vez, muito cedo reproduziu estruturas de religiosidade e poder, embora não encontremos nas palavras de Jesus uma ordem para institucionalizar a fé nos moldes que conhecemos. Jesus passou boa parte de seu ministério desconstruindo mal-entendidos religiosos e confrontando a hipocrisia, enquanto construía em seus seguidores algo muito mais profundo: caráter.

Ainda hoje, parte da Igreja se comporta como paladina da verdade, apontando o dedo para a sociedade e tentando preservar uma influência que já não possui — ou que gostaria de continuar possuindo — como nos períodos em que a religião esteve profundamente entrelaçada ao poder político e social. Houve tempos em que discordar da autoridade religiosa podia resultar em excomunhão, perseguição e, em determinados contextos históricos, até na morte.

Mas a sociedade não é composta apenas de cristãos. Nem todo mundo nasceu em uma família conservadora, nem todo mundo professa a mesma fé, nem todo mundo precisa se encaixar nos parâmetros estabelecidos por instituições religiosas.

Todos têm o direito de existir, pensar, discordar, se manifestar e escolher seus próprios representantes sem carregar sobre si o estigma de endemoniado, imoral ou inimigo de Deus.

Precisamos aprender a conviver em respeito, enxergando o outro como concidadão, e não como adversário. A diferença não deveria ser motivo de discriminação, porque direitos não são prêmio concedido aos que pensam como nós.

Muitas vezes, a religião presta um desserviço quando blinda seus membros do contato com a realidade e inculca neles a necessidade de manter distância do chamado “mundo”, como se uns fossem mais importantes do que outros, como se a religião conferisse algum tipo de superioridade ou poder, ou como se seus parâmetros particulares fossem a medida universal do que todos deveriam ser.

Não são.

O Estado é laico. A lei deve ser aplicada sem acepção de pessoas. E os direitos pertencem a todos, independentemente de religião ou ausência dela — pelo menos, é assim que deveria ser.

Siga sua religião. Viva sua fé. Vote em quem você acredita que deve representá-lo.

Mas tenha consciência de uma coisa:

o seu direito não lhe dá autoridade sobre a consciência do outro.

E o seu direito termina exatamente onde começa o direito de quem não pensa, não crê e não vive como você.

sábado, 5 de setembro de 2026

Deus não se deixa monopolizar

Ninguém monopoliza Deus.

Não ter vínculo com o Cristianismo histórico não impede ninguém de ser servo de Cristo.

Aliás, estar arrolado no rol de membros de uma instituição pode ser apenas uma máscara para muita gente. Enquanto isso, uma consciência firmada no Evangelho dispensa a necessidade de transformar a fé em rotina, ritual ou cumprimento de regras. Quem compreendeu o amor aprende simplesmente a amar.

Para reconhecer os que são de Cristo, o fruto do Espírito é um critério muito mais revelador do que os dogmas. E isso não nos impede de servir dentro ou fora de qualquer endereço.

Porque Igreja não é endereço, e pertencimento institucional não é certificado de filiação a Cristo.

“Ah, você tem mágoa da religião?”

Não, amado.

Ter liberdade para falar sobre qualquer coisa sem temer perseguição, censura ou exclusão é maturidade espiritual. É aprender a discernir entre aquilo que está escrito e aquilo que fizeram do que está escrito — transformando-o em cabresto para inibir a liberdade.

Quem já não vive sob o véu da separação não precisa de intermediários para ter acesso à Fonte da sabedoria.

Eu sou livre.

E liberdade não significa desprezar quem escolhe viver de ilusões. Deus se revela a quem quer, como quer e quando quer. Não cabe a mim controlar esse processo.

Cabe-me apenas falar.

E eu falo porque sou livre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A fé que cresce

A fé começa pela recepção, mas precisa amadurecer até a autonomia; a comunhão é necessária, mas a dependência da estrutura não é maturidade.

Ninguém ama a fé que não conhece.

Há tempo para ser menino, neófito, aprendiz, discípulo. Mas ninguém permanece saudável tomando leite e papinha a vida inteira. Há um tempo de se aprofundar, de se nutrir, de mergulhar no conhecimento, de esmiuçar as Escrituras, para ter fundamento e saber dar razão da esperança que há em nós.

Acredito, realmente, que a maioria das pessoas precise começar a caminhada cristã junto de pessoas da mesma fé. Nem todo mundo é despertado dentro de casa, como eu fui, nem começa a estudar sozinho, como comecei. Para muitos, é necessário o ambiente de ouvir, perguntar, conversar, debater, aprender e amadurecer — até que tenham condições de ensinar, explicar, transmitir conhecimento e compartilhar experiências.

O que não concordo é que alguém se conforme em engolir aquilo que já vem pré-mastigado, sem se dar ao trabalho de pensar por si mesmo.

Quando se deixa de ser menino, é preciso alimento sólido. Nutrientes completos que sustentem a continuidade do crescimento. Porque fé que nunca amadurece acaba se tornando dependência de quem pensa por nós.

E o crescimento pleno acontece da porta para fora.

É lá que estão os campos brancos esperando a colheita. É nos encontros da vida que somos chamados a ser luz e sal. É no chão das relações, no serviço, na misericórdia, na justiça, no perdão e no amor que aquilo que aprendemos deixa de ser discurso e se torna vida.

Dependência da estrutura também pode se tornar vício.

Se a consciência está firmada no Evangelho e na sã doutrina, o ambiente de reunião deve servir antes de tudo à comunhão, ao encorajamento e ao fortalecimento mútuo — não à necessidade de provar, por meio de uma estrutura, que somos cristãos.

A igreja pode ser lugar de aprendizado, mas não pode se tornar a muleta permanente de uma fé que deveria caminhar.

Porque todo aquele que é nascido do Espírito é livre.

O vento sopra onde quer. Não pede licença, não fica preso a paredes e não necessita de cadastro para existir.

E talvez uma das maiores evidências de maturidade espiritual seja justamente esta: saber permanecer em comunhão sem se tornar dependente da estrutura; aprender com outros sem entregar a eles a própria consciência; receber alimento sem permanecer eternamente à mesa, quando já se deveria estar levando alimento a outros.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Graça dá chances

“Olho por olho e dente por dente” é uma das formas mais perversas de lidar com o erro humano.

Todo mundo tem o direito de errar e aprender com o próprio erro.
Todo mundo pode mudar de opinião, de ponto de vista, de comportamento.
Todo mundo pode rever conceitos, ampliar o entendimento, amadurecer e ser aperfeiçoado.

Todo mundo merece a oportunidade de buscar sua melhor versão sem carregar, pela vida inteira, o estigma de quem um dia foi.

Todo mundo merece uma segunda chance, um voto de confiança e a alforria de ser perdoado.

Porque ninguém deveria ser condenado para sempre pelo pior capítulo da própria história.

A Graça não chama o erro de acerto.
Não ignora as consequências, nem transforma o mal em bem.

Mas ela abre a porta para o arrependimento, para a mudança, para o recomeço.

A Graça dá chances.
E quem já precisou dela sabe que não existe lugar melhor para aprender a concedê-la.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

No chão da vida


A coisa mais fácil que existe é adotar uma rotina religiosa: cumprir protocolos, frequentar cultos, participar de eventos que, muitas vezes, servem mais ao entretenimento do que ao ensino.

Mas é no chão da vida, nas relações, nas escolhas e nas oportunidades de servir ao próximo que se revela a quem pertencemos.

Joio e trigo são separados diariamente. Deus sabe quem é quem.

Dentro do arraial, talvez baste estar inscrito num rol de membros. Mas os inscritos no Livro da Vida são reconhecidos por aquilo que sua vida revela: refletem o Senhor e obedecem ao seu ensino.

Porque pertencer a Cristo não é uma questão de cadastro, frequência ou protocolo. É uma vida que, pouco a pouco, se parece com Ele.

Antes do abraço

Quando a consciência está pautada no Evangelho,
tanto faz se Jesus está vindo para mim
ou se estou indo para Ele.
O que importa é que vamos nos encontrar.

Se Ele vier, eu O espero.
Se eu for, Ele me espera.

E então não será mais como por um espelho,
de modo obscuro.
Nós O veremos
e O conheceremos
como também somos conhecidos por Ele.

Quando a vida é Cristo
e o morrer é lucro,
os pés permanecem na temporalidade,
mas a mente repousa na esperança,
tateando o futuro pela fé.

A Graça é melhor que a vida,
e a eternidade será tempo suficiente
para extinguir todo choro
e toda dor.

Se Ele vem
ou se eu vou,
pouco importa.

Há um encontro me esperando
do outro lado do tempo.

Falta pouco para estar com meu Senhor.

E a morte
é apenas a última porta
antes do abraço.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Deus do religioso


Quando os religiosos inventam o Deus que os ateus rejeitam.

Faz parte do meu cotidiano falar sobre a fé cristã em vários grupos na internet, inclusive em grupos de ateus. E há algo que percebo repetidamente: o que incomoda muitos deles não é propriamente a Bíblia, mas a leitura rasa que se faz dela e, sobretudo, a caricatura de Deus construída a partir dessa leitura.

Citam versículos que, isoladamente, parecem contraditórios. Reúnem passagens sem considerar contexto, gênero literário, cultura ou o desenvolvimento da compreensão de Deus ao longo da história bíblica. E, a partir disso, desenham um Deus tenebroso: preocupado com coisas insignificantes, vingativo, ciumento, arbitrário, que escolhe uns e abandona outros; um Deus que enriqueceria alguns enquanto permanece indiferente à fome e ao sofrimento de tantos.

E, nesse ponto, a culpa é escancaradamente dos religiosos.

Primeiro, dos próprios judeus, que atribuíram diretamente a Deus tanto o bem quanto o mal. Massacres, guerras, mortes, catástrofes, ataques de animais e toda sorte de acontecimentos eram compreendidos dentro de uma visão de mundo na qual Deus estava por trás de tudo. Os registros bíblicos carregam a percepção daquele povo e também os limites da sua capacidade de compreender e expressar aquilo que experimentava.

Depois, dos cristãos, que muitas vezes transformaram a letra em objeto de culto e perderam a capacidade de perceber aquilo que está para além dela. Leem o Antigo Testamento como se fosse um manual doutrinário para a Igreja, quando grande parte dele é, antes de tudo, memória de um povo, história, poesia, narrativa, experiência religiosa e testemunho de uma consciência que foi amadurecendo.

Então acontece algo curioso: os de fora, muitas vezes, acabam rejeitando a Bíblia pelo mesmo caminho pelo qual os religiosos a apresentam.

E passam a combater um Deus que talvez exista apenas na imaginação religiosa.

Um Deus humanizado não apenas como Pai, fonte de amor e vida, mas também como vingador, ciumento, irascível e injusto. Um Deus que distribui prêmios, castigos e privilégios segundo uma lógica quase humana de recompensa e punição.

Mas Jesus diz que “Deus é Espírito”.

E aquilo que é Espírito não cabe nas nossas definições. Não pode ser reduzido às categorias humanas de espaço, tempo, corpo, vontade, humor ou personalidade. Deus não é um homem gigantesco sentado em algum lugar do universo administrando acontecimentos. É justamente a nossa linguagem humana que precisa criar imagens para tentar falar daquilo que ultrapassa a nossa capacidade de compreender.

Talvez por isso a linguagem bíblica nunca devesse ser tratada como uma fotografia literal de Deus.

Ela é linguagem humana tentando dizer o indizível.

São histórias, imagens, símbolos, poemas, metáforas e experiências através das quais a consciência humana tenta tocar aquilo que não consegue apreender completamente.

Somos apenas uma fagulha que acende e logo se apaga nessa dimensão imensa que chamamos existência. E o que acontece depois da morte nós vemos, como dizia Paulo, “como por espelho, obscuramente”. Toda certeza absoluta a respeito do que há depois daqui me parece mais arrogância humana do que revelação.

Enquanto isso, na linguagem acusadora de muitos religiosos, Deus teria um povo cuidadosamente selecionado e sentiria prazer em lançar todo o restante no inferno.

E, entretanto, passam de largo justamente pelo modo de vida ensinado por Cristo.

Porque Jesus não ensinou seus discípulos a fiscalizar o ventre alheio, disputar quem possui a verdade mais pura, humilhar pecadores, acumular privilégios espirituais ou defender líderes que afagam seus egos.

Jesus ensinou misericórdia. Ensinou perdão. Ensinou cuidado. Ensinou a amar o inimigo. Ensinou a não julgar. Ensinou a socorrer quem sofre.

Ensinou que o próximo não é aquele que pensa como nós, mas aquele cuja vida encontramos pelo caminho.

E é justamente aí que a religião frequentemente fracassa: segue o ventre e os líderes que alimentam o ego, enquanto desrespeita a própria vida que afirma ter sido amada por Deus.

Então os ateus olham para tudo isso e rejeitam a caricatura.

E eu não consigo culpá-los inteiramente por isso.

Muitos não estão rejeitando aquilo que eu chamo de Deus. Estão rejeitando o deus que lhes apresentaram.

O problema é que, no fim, religiosos e ateus podem acabar presos à mesma armadilha: cada grupo constrói sua própria versão daquilo que Deus é ou não é, arma-se com argumentos, escolhe suas certezas e passa a enxergar o outro como alguém que precisa ser derrotado.

Cada um com sua “verdade”. Cada um defendendo seu território. Cada um tentando vencer.

E, no meio de tanta certeza, ninguém mais se ama, ninguém mais se escuta e ninguém mais se atura.

Talvez seja justamente aí que tenhamos perdido o essencial.

Porque, se a fé que professamos não nos torna mais humanos, mais compassivos, mais capazes de amar e de respeitar a vida, talvez estejamos defendendo a nossa religião enquanto nos afastamos do Cristo que dizemos seguir.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

39 anos


Ele deitava a cabeça no meu colo, enquanto eu passava os dedos entre as ondas de seus cabelos.

Eu dizia, num tom irônico:

— Tem certeza de que você já foi um bebê?

E ele caía na risada.

Sempre ria das minhas brincadeiras. Sempre dizia que eu era a mais parecida com ele, no jeito e nos traços.

A gente se engalfinhava de vez em quando. Era semelhança demais para caber sempre em paz. Mas também tínhamos liberdade para brincar pelo chão, cantar juntos enquanto ele tocava violão ou simplesmente rir, lado a lado, assistindo a uma comédia na televisão.

Ele não economizava elogios quando eu me perfumava e me arrumava para sair. Dizia logo:

— Uau! Toda maravilhosa! Se eu tivesse condições, eu te daria muito mais.

Você me deu tudo, meu amor.

Tudo o que eu precisava.
Mais do que eu merecia.
O bastante para eu ser grata por toda a vida.

Por causa do seu esforço, eu estou segura.
Por causa do seu amor, tive os melhores exemplos.
E por causa de você, sei que há amores que o tempo não consegue levar.

Hoje fazem 39 anos que meu pai se foi.

Mas ele ficou.

Ficou nas minhas feições, no meu jeito, nas lembranças que ainda me fazem rir.
Ficou nas coisas que aprendi olhando para ele.
Ficou no amor que recebi e que continua vivendo em mim.

Porque a morte pode levar a presença,
pode silenciar a voz,
pode interromper um abraço.

Mas o amor não acaba.

E talvez seja por isso que, depois de 39 anos,
quando fecho os olhos,
ainda consigo sentir sua cabeça no meu colo
e passar, outra vez, os dedos entre as ondas dos seus cabelos.

Meu pai se foi há 39 anos.
Mas, de algum modo bonito e inexplicável,
ele ainda está aqui.

Solteirice crônica

Perguntaram por que continuo solteira: se sou exigente, se é escolha, se nunca encontrei alguém...

Primeiramente, nada acontece se não der match.

Já encontrei quem eu achava que combinava comigo em muitos dos requisitos, mas não me quiseram. E também já dispensei alguns relacionamentos porque percebi que não me levariam a lugar algum.

A verdade é que foi ficando difícil encontrar alguém cristão que não fosse um bitolado religioso, machista ou alguém que quisesse abafar minha necessidade de ser, de me expressar, questionar e debater.

Eu gostaria de alguém inteligente sem ser dono da verdade; alegre sem ser bobo; jovial sem ser um sem-noção; romântico sem ser pegajoso. Alguém que gostasse de sair comigo, mas também soubesse apreciar o espaço e o sossego de casa.

Alguém que soubesse cozinhar para nós quando eu não estivesse a fim, porque ninguém merece passar a vida cheirando à cebola, enquanto o cabra não tira nem o prato da mesa. 

Alguém que sempre tivesse assunto, porque a gente passa muito mais tempo em pé do que deitado. Que soubesse escutar. Que prestasse atenção nos sinais. Que tivesse delicadeza para perceber o que não foi dito.

Encontrar tudo isso reunido numa mesma pessoa foi ficando cada vez mais raro.

E confiar também foi ficando difícil, à medida que as decepções foram deixando marcas nos meus relacionamentos. Traições, mentiras, perdas... Fui perdendo, aos poucos, o interesse em tentar novamente.

Por fim, não quero negociar minha liberdade nem minha segurança.

Passei a vida inteira aprendendo a viver sozinha. Construí meu espaço, minha rotina, minha paz. Mudar isso agora significaria arriscar muito do que, para mim, já está estabelecido.

Então, só se a vida me colocar diante de alguém pra lá de especial, que também me veja com os mesmos olhos e entenda que relacionamento não é prisão, preenchimento de vazio ou disputa de poder.

É companhia, escolha, espaço para dois sem que nenhum precise deixar de ser quem é.

Caso contrário, sigo muito bem acompanhada por mim mesma. Afinal sempre fui minha melhor companhia.

domingo, 30 de agosto de 2026

Silêncio

O pecado não está apenas no que fazemos, mas também no bem que deliberadamente deixamos de fazer. 

O silêncio pode ser omissão quando alguém precisava de uma palavra, de defesa, de consolo ou simplesmente de presença.

Quem silencia quando deveria ensinar, não ensina.
Quem silencia quando deveria consolar, não consola.
Quem silencia diante da injustiça, não protege.
Quem silencia quando poderia despertar alegria, não alegra.
Quem silencia quando poderia proporcionar prazer, não oferece.

Há silêncios que são prudência, sabedoria e paz.
Mas há silêncios que são omissão.

Como é grave pecar pelo silêncio!

Porque também podemos ferir pelo que não dizemos, abandonar pelo que não fazemos e negar ao outro um bem que estava ao nosso alcance oferecer.

Às vezes, não fazer o mal não é suficiente.
O amor também nos chama a fazer o bem.

Há momentos em que calar é virtude.
E há momentos em que calar é uma forma silenciosa de pecado.

Filhos

Estava assistindo a uma moça desabafando sobre amar o filho, mas não estar dando conta das demandas. O menino tem dois anos e explora todos os ambientes. Na casa de ração, puxou uma alavanca e derrubou ração no chão. No sacolão, fez o maior fuzuê. Ela chorava na rua, dizendo que o amava, mas também dizendo que estava esgotada.

Eu não consigo julgá-la. Fui mãe aos 20 anos. Morava com minha mãe, estava recém-separada e, de repente, minha vida deu um salto de uma década.

Passei a seguir praticamente a mesma rotina, indo apenas aos lugares onde podia levar meu filho. Minha vida passou a girar em torno das necessidades dele. Eu trabalhava pensando em como continuar dando suporte, construía pensando em oferecer segurança e, muitas vezes, deixava a mim mesma por último.

Enquanto ele era pequeno, minha mãe nunca se dispôs a ficar com ele para que eu pudesse sair daquele ambiente por algumas horas. Era um filho só, e era meu. Então, simplesmente, eu não saía.

Vi minha juventude passar sem conhecer muitos lugares, pessoas e experiências. Eu era mãe solo, e a prioridade era sempre ele. Fora dele, quase não havia vida. Poucas realizações que fossem minhas. Poucas coisas que eu pudesse dizer: isso eu fiz por mim.

Por isso, quando vejo uma mãe chorando porque não está dando conta, não consigo apontar o dedo. Muitas vezes eu também não dei conta.

A diferença é que, naquele tempo, eu precisava ir assim mesmo. Porque filho é para sempre.

E talvez uma das coisas mais difíceis de compreender na maternidade seja justamente esta: é possível amar alguém mais do que tudo e, ainda assim, estar cansada daquela responsabilidade. Uma coisa não anula a outra.

O filho pode ser o maior amor da sua vida e, ao mesmo tempo, representar a maior responsabilidade que você já carregou.

Amar não transforma ninguém em uma máquina incansável.

Mãe também se cansa. Mãe também se irrita. Mãe também precisa de silêncio, descanso, espaço, companhia e, às vezes, simplesmente de algumas horas em que ninguém precise dela. Isso não faz dela uma mãe ruim. Faz dela humana.

Eu teria feito algumas coisas de maneira diferente se tivesse tido outras possibilidades. Talvez tivesse procurado preservar um pouco mais de mim. Talvez tivesse entendido antes que ser mãe não deveria significar desaparecer completamente como mulher.

Mas fiz o que consegui com os recursos que tinha.

E é por isso que, quando vejo uma mãe dizendo “eu amo meu filho, mas não estou dando conta”, eu não escuto falta de amor. Eu escuto cansaço.

E talvez seja importante dizer isso com toda honestidade: Tenham filhos se quiserem muito ser pais.

Porque criança não é apenas o amor que cabe no colo. É uma vida inteira de responsabilidade. O amor é imenso. Mas a responsabilidade também.

Direito a ter direitos

Lutamos todos pelo direito de ter direitos.

E, se é assim, quem escolhe os amigos apenas pela posição política não está procurando diálogo; está procurando um espelho — alguém que pense como ele, confirme suas certezas e não lhe ofereça o desconforto da diferença.

Quando a divergência abre caminho para o desrespeito, a acusação, a tentativa de silenciamento e a castração do pensamento, talvez seja porque o carinho já tenha desaparecido. Porque quem ama não precisa concordar com tudo para preservar a dignidade do outro.

Respeito ao próximo não é favor, é dever.

O desrespeito muitas vezes nasce de espíritos complexados, que precisam diminuir o outro para conseguir enxergar algum valor em si mesmos.

Quem preserva a minha integridade sou eu. Portanto, sou eu quem decide com quem quero conviver, quais limites estabeleço e de quais relações escolho me retirar.

Não acredito que seja obrigação resgatar todo vínculo. Há relações que podem ser reconstruídas pela conversa, pelo perdão e pelo respeito. 

Mas, quando o respeito acaba, talvez não reste mais nada a resgatar — apenas a coragem de reconhecer que é hora de partir.

sábado, 29 de agosto de 2026

A fé que não se transforma em vida

Descobri um grupo que prega a eleição e, ao mesmo tempo, abomina alguns livros da Bíblia, entre eles Tiago, por entender que ele aparentemente contradiz Paulo quando afirma que “a fé sem obras é morta”.

Mas penso que não há contradição alguma quando compreendemos do que Tiago está falando.

Paulo afirma que somos salvos pela graça, mediante a fé, e não pelas obras como mérito ou moeda de troca com Deus. E o mesmo Paulo, logo depois, escreve:

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”
Efésios 2:10

Portanto, Paulo não coloca fé e obras como inimigas. Ele rejeita as obras como fundamento da salvação, mas as reconhece como fruto de uma vida alcançada pela graça.

Tiago está dizendo essencialmente a mesma coisa por outro caminho.

A fé que permanece apenas no discurso, que não produz misericórdia, justiça, cuidado e amor pelo próximo, é uma fé morta. Não porque as obras comprem a salvação, mas porque uma fé viva inevitavelmente começa a produzir vida.

E, quando lemos Tiago, percebemos que suas “obras” não são um catálogo de atividades religiosas. Não é quantidade de cultos, cargos, ministérios, jejuns, campanhas ou qualquer outra forma de ativismo que possa alimentar a vaidade religiosa.

São obras que têm carne.

É alimentar o faminto.
É vestir quem está nu.
É não fazer acepção de pessoas.
É socorrer o necessitado.
É controlar a língua.
É tratar o outro com misericórdia.

Por isso, é profundamente incoerente com o Evangelho o homem que honra a Deus com os lábios enquanto maldiz o próximo, feito à imagem e semelhança de Deus.

De que vale pronunciar o nome de Deus com reverência, levantar as mãos, cantar louvores e falar de santidade, se a mesma boca que O bendiz é usada para ferir, humilhar e amaldiçoar aquele que carrega em si a marca do Criador?

Tiago já havia percebido essa contradição:

“Com ela bendizemos ao Senhor e Pai; também com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto seja assim.”
Tiago 3:9-10

O Evangelho não nos ensina a amar uma ideia de Deus enquanto desprezamos gente.

Ele nos ensina que o amor a Deus se torna visível na maneira como tratamos o outro.

Porque é fácil dizer: “Eu amo a Deus.”

Difícil é reconhecer Sua imagem naquele que nos contraria, naquele de quem discordamos, naquele que não pode nos oferecer nada em troca.

E talvez seja justamente aí que nossa fé seja colocada à prova: não naquilo que dizemos sobre Deus, mas naquilo que fazemos com aqueles que Deus colocou diante de nós.

A boca pode construir uma liturgia inteira.

Pode conhecer a doutrina correta, recitar versículos, defender a eleição, discutir predestinação e falar incessantemente sobre a graça.

Mas é a vida que revela se aquilo que professamos realmente alcançou o coração.

Fé que não se torna amor é apenas discurso religioso.
A graça que não produz misericórdia ainda não foi compreendida.
E a boca que bendiz a Deus enquanto destrói o próximo denuncia a incoerência da própria religião que professa.

Fé é maneira de existir

A fé não é um subdepartamento da vida de ninguém.

O sagrado se vivencia nos momentos simples do cotidiano: na maneira como tratamos alguém, na palavra que escolhemos dizer ou silenciar, na disposição de perdoar, na generosidade, na honestidade, na compaixão.

Por isso, quem depende de um momento, de um lugar ou de uma motivação específica para se relacionar com Deus e com o próximo talvez ainda esteja confundindo fé com religiosidade.

Quando a experiência de Deus precisa necessariamente de um templo, de um culto, de uma liturgia ou de uma atmosfera cuidadosamente produzida, corre-se o risco de continuar se curvando diante da estrutura de pedra, sem perceber que o templo que Deus deseja habitar é gente.

A vida cristã não foi apresentada por Jesus como um conjunto de atividades religiosas a serem cumpridas em determinados horários e lugares. Ela é fundamentada em princípios e valores que simplesmente precisam acontecer: nos encontros, nos relacionamentos, nas escolhas, nos conflitos, na mesa, na rua, dentro de casa.

E precisam acontecer livremente, por gente livre.

Porque aquilo que depende de vigilância externa para existir talvez ainda não tenha se tornado vida.

Jesus não veio ensinar seus discípulos a representar uma religião.
Veio ensiná-los a amar.

Amar a Deus.
Amar o próximo.
Amar até quando não há aplauso, plateia ou recompensa.

E talvez seja justamente aí que a fé deixe de ser um departamento da existência e se torne aquilo que deveria ter sido desde o princípio: a própria maneira de existir.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Atraídos por Deus

Conforme a consciência humana vai despertando de sua longa subordinação ao ego, começa também a perguntar o que existe para além dos limites do próprio conhecimento.

No início dessa busca pelo desconhecido, é provável que encontre alguma religião. Afinal, humanamente falando, as instituições religiosas podem parecer guardar, em suas doutrinas, seus ritos e suas pregações, o segredo da Fonte da vida.

Mas chega um momento em que a busca precisa deixar de ser apenas de fora para dentro.

Não porque toda religião seja inútil, mas porque nenhuma instituição pode ocupar o lugar de Deus. Nenhum templo pode conter aquilo que o homem procura. Nenhuma doutrina, por mais elaborada que seja, substitui o encontro com Aquele de quem procede a vida.

E então, quando cessa a necessidade de procurar Deus apenas nos lugares onde disseram que Ele está, começa-se a perceber aquilo que Jesus anunciou: o Reino de Deus não é uma construção exterior que precisamos alcançar, mas uma realidade que Deus estabelece em nós e entre nós.

É no interior que o Espírito ensina, confronta, consola e aperfeiçoa. É ali que a fé deixa de ser apenas aquilo que recebemos dos outros e passa a se tornar experiência vivida.

Talvez amadurecer na fé seja justamente isso: deixar de procurar fora aquilo que Deus deseja realizar dentro — sem transformar o “dentro” em um novo ego, mas permitindo que o próprio Deus governe aquilo que somos.

A religião pode apontar o caminho.
Mas somente Deus pode conduzir o homem até Ele.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

As obras da fé

Talvez você ainda precise de tempo para crescer no conhecimento da Palavra. Talvez ainda precise que Deus aperfeiçoe um dom, amadureça seu discernimento ou aprofunde sua comunhão com Ele.
 
Há coisas que não acontecem de um momento para outro. Santificação envolve caminhada, amadurecimento, correções e crescimento. 

Mas penso que as obras às quais Tiago se refere não têm nada a ver com um ativismo religioso em que sempre exista uma ocasião para a vanglória. 

Não se trata de acumular tarefas, ocupar espaços ou realizar ações que confirmem um estereótipo de cristão.

São as obras do amor, da justiça e da misericórdia. Aquilo que começa a se tornar natural na vida de quem foi alcançado pela Graça.

Quem foi perdoado, perdoa.
Quem recebeu paz, oferece paz.
Quem foi alcançado pela justiça de Deus não negligencia a justiça.
Quem conheceu a misericórdia não consegue passar indiferente diante da miséria do outro.
Quem entendeu o Amor de Deus simplesmente ama por onde vai.

O cristão é chamado a ser canal do agir de Deus no mundo. A Igreja é o Corpo de Cristo, e esse Corpo não existe para permanecer imóvel enquanto contempla a própria transformação.

Por isso, as obras não são um adereço da fé. Elas são consequência dela.

Não fazemos o bem para parecermos cristãos. Fazemos o bem porque Cristo nos alcançou.

As obras decorrentes da fé proclamam o Evangelho sem precisar de discursos; edificam vidas, aliviam dores, restauram dignidades, praticam justiça e tornam visível aquilo que professamos com os lábios.

É claro que há dons a serem desenvolvidos, conhecimento a ser adquirido e caráter a ser aperfeiçoado. Há muito em nós que ainda precisa morrer e muito que precisa nascer.

Mas para amar, não é preciso esperar estar pronto.

A Graça não nos alcança para que permaneçamos de braços cruzados até que nosso processo termine.

Ela nos alcança e, por meio de nós, alcança outros.

A fé verdadeira não espera tornar-se perfeita para começar a amar. Ela ama enquanto é aperfeiçoada.

Glorificar

Palavras não glorificam a Deus, amado.

Você glorifica a Deus quando reflete Cristo.

Dizer “glória a Deus” pode ser apenas um jargão, se a vida continuar negando aquilo que os lábios proclamam.

Glorificar a Deus não é repetir palavras santas, nem encher a fala de expressões religiosas. É viver de modo que Cristo seja percebido em nós: na maneira como amamos, perdoamos, tratamos o outro, suportamos as dores, reconhecemos nossos erros e abrimos mão de nós mesmos.

Glória a Deus não se diz apenas. Glória a Deus se vive.

Porque, no fim, não é a nossa boca que torna Deus glorioso. É a nossa vida, quando ela deixa de apontar para nós e passa a revelar Cristo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Morte de Jesus


Um rapaz perguntou por que a morte de Jesus seria especial, se tantas pessoas já enfrentaram mortes terríveis, inclusive por causas nobres.

Para o cristão, a resposta começa antes da cruz.

Jesus não é apenas um homem que morreu injustamente. Ele é a revelação de Deus no Filho, o cumprimento da promessa, o Cordeiro destinado à redenção desde antes da fundação do mundo, manifestado no tempo oportuno para consumar aquilo que estava proposto.

Por isso, não é sobre a quantidade de sofrimento. É sobre perfeição.

Se a pena de morte aplicada naquele tempo fosse o apedrejamento, e não a crucificação, ainda assim Jesus seria o Salvador e Senhor das nossas vidas. O instrumento da morte não é o que confere valor à sua obra.

O que torna sua morte singular é que aquele que morreu não morreu como um pecador pagando a própria culpa. Morreu sem pecado, sem defeito, tendo cumprido perfeitamente aquilo que a Lei exigia.

Ele não foi simplesmente uma vítima da violência humana. Entregou-se.

E é justamente essa obediência perfeita que o torna o Cordeiro apto para a oferta.

A cruz, portanto, não é extraordinária porque tenha sido a morte mais dolorosa já experimentada por um ser humano. Muitos sofreram dores terríveis. Muitos morreram injustamente. Muitos entregaram a própria vida por aquilo em que acreditavam.

A singularidade de Cristo está em outra coisa:

o Justo morrendo pelos injustos; o Santo assumindo a condição daquele que deve morrer; aquele que não devia nada entregando-se voluntariamente pelos que nada poderiam oferecer em troca.

E a morte não foi o ponto final. Ele ressuscitou.

Por isso, para o cristão, a cruz não é simplesmente a história de um homem que sofreu e morreu por uma causa nobre.

É a história da obediência perfeita que atravessou a morte e venceu-a.

Não foi a crueldade da cruz que salvou. Foi Cristo.

Eu lembro, mas não quero voltar


Minha memória é horrorosa. Não porque eu esqueça facilmente as coisas, mas porque ela grava na carne tudo o que senti na vida. É um perpétuo ressentir, redoer, remoer... Horrorosa.

Ela alcança a mais tenra idade, quando eu precisava de injeções de penicilina, até o dia de ontem com meus netos. Quando tenho que relembrar alguma conversa, lembro até das vírgulas.

Observo meus irmãos. Volta e meia, viajam para o Rio de Janeiro em busca dos velhos amigos do tempo da adolescência. Para mim, isso seria como uma viagem ao passado, tentando reencontrar pessoas que já não existem mais.

Não vou. Viajaria se fosse para passar férias na praia, sair do ambiente, desligar-me dos problemas. Mas, para cavucar o que enterrei, jamais.

Apesar de nunca esquecer nada, nem o que disseram, nem o que fizeram , assisto à minha vida como quem assiste a um filme. Emociono-me, sinto, lembro. Mas não como alguém que precisa voltar para viver outra vez aquilo que já passou.

Acho que minha natureza observadora e contemplativa me faz olhar a vida minuciosamente, nunca pela superfície. E, talvez por isso, com as pessoas eu me desprenda com a mesma intensidade com que me conecto.

Tenho dificuldade para me aproximar, mas, se for preciso me afastar, sou ótima nisso. Talvez, com as outras pessoas, o processo também seja assim.

Penso em mim há dez, vinte, trinta anos e vejo tantas versões diferentes de quem fui. Características que foram aperfeiçoadas, outras que desapareceram completamente, outras que só descobri com o tempo. Então, como poderia buscar nos outros quem eles foram na minha juventude?

Se reencontro alguém, a conversa termina nas superficialidades. Não porque não haja história, mas justamente porque há história demais. E, às vezes, o que fomos um para o outro pertence àquele tempo e somente àquele tempo.

Não é que eu não sinta saudade.

É que quem de fato é importante nunca se foi. Quem se importa dá o ar da graça, mesmo que virtualmente. Quem atravessa a vida com a gente porque quer e porque gosta nunca perde o lugar.

Minha memória, entretanto, permanece intacta. Visita o passado e reencontra dores, amores, decepções, malquerenças, sorrisos. Registra tudo. Não apaga quase nada. Não é falta de memória, é excesso dela.

Mas também não quero reviver nada. Eu lembro, só não volto.

Deixo cada coisa quietinha, no lugar onde a vida a colocou e sigo. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Na presença de Deus

Li uma frase que a princípio é bonita, mas é equivocada: "Que não seja a dor que me leve a orar, mas a saudade da tua presença"

É comum religiosos orarem, dizendo que estão entrando na presença de Deus e dizerem que quem não participa da religião, está longe.

A frase parece piedosa, mas parte de uma premissa que o Evangelho justamente desfaz.

“Que não seja a dor que me leve a orar, mas a saudade da tua presença” pressupõe que a dor nos encontra longe e nos faz procurar Deus. Mas, em Cristo, a realidade é outra: não oramos para entrar na presença de Deus; oramos porque fomos trazidos para ela.

A dor pode, sim, nos despertar para uma consciência mais aguda dessa presença. Pode quebrar nossa autossuficiência, silenciar nossas distrações e nos fazer levantar os olhos. Mas ela não precisa nos conduzir até Deus, como se estivéssemos fora Dele. Ela pode nos fazer perceber Aquele em quem já estamos.

Na verdade, quando o Pai se revelou no Filho, Ele nos trouxe para Sua presença. É onde vivemos o tempo inteiro.

O homem que não inclui o Senhor nas suas escolhas, atitudes, experiências, é como um filho que ignora a existência do pai, sendo completamente dependente dele absolutamente para tudo.

A dor pode me levar à oração, sim. Pode me desmontar, interromper minha autossuficiência e fazer-me lembrar de Deus. Mas não porque eu esteja distante de Sua presença.

Estamos em Cristo, assentados com Ele nas regiões celestiais, feitos participantes de Sua herança. Não somos órfãos tentando encontrar o Pai em algum lugar distante. Fomos reconciliados, recebidos e feitos filhos.

Por isso, oração não é uma tentativa de aproximar Deus de nós. É a consciência de que Ele já está aqui.

Não estamos tentando alcançar uma Presença que se retirou. Estamos aprendendo a perceber uma Presença da qual jamais estivemos separados.

Então, quando a dor vier, não preciso dizer: “Senhor, leva-me para perto de Ti.”
Posso dizer: “Senhor, abre meus olhos para perceber que Tu estás aqui.”

Moramos na presença de Deus, enquanto Ele mora em nós. 

Entendes tu este mistério? 🥰
Obrigada, Jesus!

O encontro mais esperado



O pecado é para Deus como um mal cheiro 
Que infecta o homem sujo e sem valor
Andarilho na desgraça e no vazio
Com a pele escurecida no calor
Exalando o cheiro ardido da sujeira 
Cabisbaixo, carregando o peso onde for

Jesus vem e resgata este homem 
O abraça, o acolhe e o alimenta
Escuta manso o que sua alma lamenta
Diz verdades àquela alma sedenta

Depois o lava e muda suas vestes
E este homem quer seguir seu Salvador 
Nada importa mais que seu Senhor 
Porque, enfim, foi enxergado com amor

Assim, o encontro com a Vida e a Verdade 
Transforma o homem em sacerdote e realeza
Muda o olhar, devolve a esperança e a beleza
A eternidade é o não-tempo e o não-fim
Onde os espaços são preenchidos com leveza

Onde há enfim a redenção do sofrimento 
Onde ninguém vai escutar outro lamento 
Onde as lágrimas nunca mais irão cair
E a companhia de Jesus está alí 

Porque aquele que um dia cheirava à morte,
encontrou, no abraço de Cristo, o seu norte.
Já não precisa fugir, nem se esconder 
pode enfim caminhar com Deus 
E em seu descanso, entrar e pertencer


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Entre crenças e encontros

Em páginas de debates, na maioria das vezes só encontro embates.

Crente ameaçando ateu com condenação eterna; ateu chamando cristão de ignorante, manipulado ou incapaz de pensar por si mesmo. 

E, daqui da minha insignificância, eu só consigo enxergar um espaço desperdiçado, um lugar onde os encontros poderiam ser de troca de percepções. 

Que cada um pudesse falar de si, de suas experiências, das coisas que viveu, das perguntas que carrega, das respostas que encontrou  ou não encontrou. 

Sem a obrigação de convencer ninguém.

Mas parece que, para muita gente, o divertido é depreciar o outro. Como se uma crença só pudesse sobreviver quando a crença alheia fosse destruída.

Aqui em casa é diferente.

Na minha família, eu sou cristã desigrejada. Meu filho é ateu. Minha nora é católica não praticante. Minha irmã é espírita. Minha sobrinha simpatiza com religiões de matriz africana. Meu irmão é católico, a esposa é toda mística e os filhos são agnósticos.

E estamos todos muito bem, obrigada. Na mais perfeita harmonia, com respeito e liberdade.

Ninguém tenta converter ninguém. Ninguém precisa provar que está certo. Ninguém precisa sair vencedor de uma conversa.

Nos nossos encontros, quase não falamos de fé. Há coisas íntimas demais para serem transformadas em instrumento de disputa.

O que nos une não é a concordância sobre Deus. É o vínculo do amor.

E talvez seja justamente isso que tantos debates sobre religião esquecem: antes de sermos cristãos, ateus, espíritas, católicos, agnósticos ou qualquer outra coisa, somos pessoas.

Pessoas com histórias que não cabem em rótulos.

Eu não preciso que meu filho creia como eu para amá-lo. Ele não precisa acreditar no que acredito para me respeitar.

Minha irmã não precisa abandonar sua fé para que a minha seja verdadeira. E nenhum de nós precisa transformar o outro em inimigo para preservar aquilo em que acredita. Nem todo encontro precisa produzir concordância.

Às vezes, o verdadeiro encontro acontece justamente quando conseguimos permanecer diferentes sem deixar de nos reconhecer como irmãos na humanidade.

Quando a experiência vira medida para o outro

Respondi: Livre arbítrio é uma ilusão temporal. Deus é eterno, tudo está exposto diante Dele de eternidade a eternidade.

"Nete Cardoso Não faz sentido essa ilusão temporal ou melhor, não existe."

Olho Crítico você pode não acreditar ou não ver sentido, é sua percepção.

"Nete Cardoso você é livre de escolher, porém, a única alternativa é Deus."

Olho Crítico Ele me escolheu.

"Nete Cardoso oque eu sei é que deus nenhum escolheu ninguém, os escritores da Bíblia te escolheram."

Olho Crítico você é só um pretensioso que nada sabe de fato. Sua opinião não muda nada. E eu não tenho religião.

"Nete Cardoso um dia vai me entender, eu trilhei o mesmo caminho que você está trilhando, passei por aí."

Olho Crítico você não sabe nada de mim. Pelo tamanho do seu ego, dá pra ver porque perdeu a fé.

"Nete Cardoso kkkkkkkk
Eu não sei nada de ti, é incrível como você consegue deduzir algo sobre mim, sendo que ambos não nos conhecemos."

Olho Crítico e precisa? Quando você diz " eu sei que é assim" ou "um dia você vai, porque eu trilhei" como se a vida fosse um roteiro que te imitasse, você expõe que é tudo sobre você e sua cosmovisão. Eu não sigo um trilho, eu sigo o governo que se estabeleceu dentro de mim, Espírito no meu espírito. Não dependo de religião, influência ou histórico de ninguém, porque a vida é uma só e minha experiência é intransferível. Falo de fé sem impor nada a ninguém e nem me sinto dona da verdade porque ninguém é. Apenas falo sobre minha lente de ver a vida.


Quando a experiência vira medida para o outro


Há uma armadilha muito humana nas conversas sobre fé: transformar a própria experiência em régua para medir a experiência alheia.

O diálogo começou com uma questão teológica — livre-arbítrio, eternidade, soberania de Deus —, mas rapidamente deixou de ser sobre ideias e passou a ser sobre pessoas. E talvez aí esteja a parte mais interessante.

Dizer “eu trilhei o mesmo caminho que você está trilhando” parece, à primeira vista, uma tentativa de aproximação. Pode haver ali uma boa intenção: “eu já passei por isso, conheço esse lugar”. Mas existe uma fronteira delicada entre compartilhar uma experiência e pressupor que o outro chegará ao mesmo lugar.

A experiência pessoal nos dá testemunho, não autoridade sobre a experiência do outro.

Eu posso dizer: “Eu passei por isso e, no meu caminho, cheguei até aqui.”

Mas não posso concluir: “Você está passando por isso e, portanto, um dia chegará onde eu cheguei.”

A primeira frase é testemunho. A segunda é uma espécie de apropriação da história alheia.

Também é curioso como, numa discussão sobre liberdade, ambos podem acabar tentando aprisionar o outro dentro da própria cosmovisão. Um afirma que Deus escolheu. O outro afirma que foram os escritores bíblicos que escolheram por ele. Um fala a partir da fé; o outro, a partir da experiência de não depender dela. E, no meio disso, cada um corre o risco de transformar sua interpretação em verdade universal.

Talvez a maturidade espiritual — e também intelectual — comece justamente quando conseguimos dizer:

“Esta é a maneira como compreendo.” Sem precisar completar com: “Logo, é assim.”

Há uma diferença enorme entre convicção e pretensão.

Convicção não precisa desqualificar o outro. Não precisa conhecer sua história para julgá-la. Não precisa prever seu destino espiritual. Não precisa dizer que sabe onde ele vai chegar.

E há algo ainda mais paradoxal: quando alguém afirma que conhece o caminho do outro porque já percorreu um caminho semelhante, acaba fazendo exatamente aquilo que critica — reduzindo uma experiência singular a um roteiro conhecido.

Ninguém vive por procuração.

A fé de uma pessoa não pode ser transferida para outra. A dúvida também não. A conversão não. A experiência de Deus não. A ausência de Deus não. Cada consciência habita uma história que o outro pode ouvir, compreender, questionar, admirar ou rejeitar, mas nunca possuir completamente.

Talvez por isso eu prefira uma fé que diga: “Foi assim que Deus se revelou a mim.”

em vez de: “Eu sei exatamente como Deus se revelará a você.”

Porque a primeira fala de testemunho. A segunda já começa a falar em nome de Deus.

E existe uma humildade profunda em reconhecer que, embora possamos compartilhar convicções, textos, argumentos e experiências, ninguém conhece inteiramente o caminho interior do outro.

No fim, talvez a única coisa que realmente possamos oferecer seja nossa própria lente — limpa, suja, quebrada, iluminada, cheia de dúvidas ou cheia de certezas.

Mas ainda assim, nossa lente.

E talvez seja justamente aí que a conversa deixa de ser disputa e se torna encontro.



domingo, 23 de agosto de 2026

Mundo castrador

Se eu tivesse nascido no Velho Testamento, talvez tivesse sido uma das apedrejadas. Se tivesse nascido no tempo da Inquisição, provavelmente teria sido queimada como bruxa.

Padrões nunca foram o meu lugar.

Tudo na minha vida foi gigante. Intenso. Foi com entrega, com presença, por inteiro. Nunca soube economizar a alma.

Mas o mundo parece não ter sido feito para a autenticidade. As pessoas nem sempre sabem lidar com quem é verdadeiro demais. Com quem chora, sente, se expõe, não se esconde atrás de conveniências, não mente para se proteger, não finge para ser aceito.

Gente assim incomoda.

Porque quem não disfarça revela.
Quem não finge denuncia a farsa.
Quem sente profundamente lembra aos outros aquilo que eles passaram a vida tentando não sentir.

Eu nunca fui boa em representar personagens. Quando amo, amo. Quando sofro, sofro. Quando acredito, mergulho. Quando preciso ir, vou. Quando preciso dizer, digo. E, muitas vezes, paguei caro por isso.

Talvez meu maior conflito com o mundo nunca tenha sido ser diferente.

Foi não ter aprendido a ser menos verdadeira para caber nele.

sábado, 22 de agosto de 2026

O caminho inverso

O melhor de mim, ainda é mal. O que me fere no mundo, é a castração da minha alma, que deseja crescer pra todos os lados, mas esbarra no outro. 

Quem me livrará do corpo dessa morte, já que jamais conseguirei fazer o que meu espírito deseja? Mas o que a alma pede, sim isso eu faço.

A vida será sempre essa guerra de egos. Só há Salvação por mérito do único que foi Perfeito. E por isso decresço, para não me matar. Alimentar a alma, é alimentar o que conspira contra mim.

Sim fazemos o caminho inverso. À mim importa diminuir para que Ele cresça.

No homem carnal não há conflito, posto que está habituado a se atender. Mas o homem espiritual discerne tanto o que procede da carne, quanto o que procede de Deus. E quão maiores são suas lutas, à medida em que avança!

Porque quanto mais luz recebe, mais percebe as próprias sombras. Quanto mais conhece o Amor, mais estranha aquilo que nele ainda não ama.

 Quanto mais se aproxima de Cristo, menos consegue justificar em si mesmo aquilo que antes chamava de natureza, personalidade ou direito.

A maturidade espiritual não elimina o conflito; torna-o mais consciente.

Por isso, talvez o caminho não seja conquistar a mim mesma, mas diminuir. Não é a alma crescendo para todos os lados que me salvará, mas aprendendo a perder espaço para que o Amor cresça.

“É necessário que Ele cresça e que eu diminua.”

E talvez seja essa a verdadeira guerra: não contra o outro, mas contra aquilo que em mim ainda deseja ocupar o lugar de Deus.