O que se pode conhecer de Deus está revelado através das coisas criadas, e sua plenitude nos foi revelada em Cristo, o primogênito de toda a criação.
Jesus jamais sacralizou coisas.
Quando a samaritana perguntou sobre o lugar sagrado onde se deveria adorar, Jesus não apontou para um monte, um templo ou qualquer outro espaço. Ele lhe ensinou que chegaria a hora — e já havia chegado — em que os verdadeiros adoradores adorariam o Pai em espírito e em verdade.
Jesus também não mandou seus discípulos guardarem objetos sagrados, prédios sagrados ou roupas sagradas. Não instituiu amuletos, relíquias, águas especiais ou qualquer objeto capaz de produzir essa transmutação entre o profano e o sagrado.
Paulo chegou a tratar da questão dos alimentos oferecidos aos ídolos, lembrando que o ídolo nada é e que, para quem recebe tudo com gratidão, a comida não se torna espiritualmente contaminada. A questão, porém, passava pela consciência e pelo amor ao irmão, especialmente daquele cuja consciência ainda era fraca.
Assim, a transformação de templos, roupas, águas, objetos, dias, festas, agendas e rituais em coisas sagradas pertence muito mais à construção histórica do cristianismo do que ao ensino de Jesus.
No Evangelho, porém, encontramos outra compreensão do sagrado.
Sagrado é o pequenino.
É aquele que Jesus coloca diante de nós como alguém que o representa. É o faminto a quem damos de comer, o sedento a quem damos de beber, o estrangeiro que acolhemos, o nu que vestimos, o enfermo que visitamos e o encarcerado de quem não nos esquecemos.
Porque, quando fazemos isso a um desses pequeninos, é como se estivéssemos fazendo ao próprio Cristo.
Sagrado, portanto, não é aquilo que retiramos da vida para colocar num altar.
Sagrado é aquilo que aprendemos a não profanar com a nossa indiferença.
A vida é um presente e, por isso, merece reverência. O outro é alguém em quem Deus nos chama a reconhecer dignidade. O tempo que recebemos também é precioso. O amor que praticamos é mais santo do que qualquer objeto que possamos ungir.
Há, portanto, dois caminhos que podem parecer semelhantes, mas não são.
Um é a prática religiosa, que frequentemente procura separar o sagrado do profano, estabelecendo lugares, objetos, pessoas, dias e rituais especiais.
O outro é a consciência moldada pelo Evangelho, na qual a vida inteira se torna lugar de encontro com Deus.
Uma procura reproduzir a estrutura religiosa.
A outra procura guardar no coração as palavras de Jesus e, a partir delas, aprender a viver.
Porque talvez a grande revolução do Evangelho seja justamente esta:
Jesus não veio ensinar-nos a separar coisas sagradas de coisas profanas.
Veio ensinar-nos a viver de tal maneira que nada daquilo que Deus criou seja tratado sem amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário