Páginas

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A mulher que ninguém enxergou

Olhar para a mulher que sou hoje não fará ninguém entender a minha história.

O que sou agora não resume os cinquenta anos de treinamento para me encaixar naquilo que esperavam de mim.

Antes dessa mulher, existiu uma criança que não interagia, que se isolava, que desviava do bullying, das risadas e dos cochichos.

Uma menina que não tinha amigos, que não sabia trocar, não sabia como começar uma conversa, não sabia se relacionar.

Depois veio a adolescente insegura, que usava as poucas pessoas próximas como ponte para conhecer outras pessoas. Mas, quando estava sozinha, perdia completamente a coragem de falar.

Veio a filha que incomodava porque questionava antes de obedecer.

A que foi chamada de irreverente, teimosa, chorona, insubordinada. A que parecia sempre difícil demais.

Depois, a jovem que demorou a namorar, que não conseguia sustentar relacionamentos e que, muitas vezes, acabava sendo trocada por garotas que pareciam mais interessantes, mais maduras, mais fáceis de compreender.

Até que engravidei.

E precisei criar meu filho sozinha, enquanto eu mesma ainda estava tentando descobrir como ser adulta.

Por muito tempo, ninguém pareceu perceber que havia alguma coisa por trás de tudo aquilo.

Um processo que somente eu conseguia enxergar.

A minha neurodivergência nunca encontrou acolhimento dentro da família. Não tive suporte, não tive terapia, não tive laudo, não tive compreensão.

Não tive sequer a tolerância necessária para descobrir quem eu era antes de ser cobrada por aquilo que eu não conseguia ser.

Então fui aprendendo do jeito que dava. Aprendi a observar antes de falar. A me adaptar. A imitar comportamentos. A esconder dificuldades. A suportar desconfortos em silêncio.

Aprendi a parecer funcional mesmo quando por dentro eu não sabia muito bem como funcionar.

E talvez por isso tenha me tornado alguém tão fácil de abandonar. Porque ninguém precisava sequer entender o que acontecia comigo para concluir que eu era difícil demais.

Não sei quantas vezes fui chamada de tantas coisas. Só sei que, durante muito tempo, carreguei a sensação de não caber em lugar nenhum.

Hoje, quando olho para mim, não vejo apenas a mulher que finalmente aprendeu a se posicionar.

Vejo todas as mulheres que precisei ser para sobreviver. A criança que não sabia interagir, a menina que não sabia fazer amigos, a adolescente que precisava de alguém por perto para conseguir falar, a filha que perguntava antes de obedecer, a jovem que não sabia permanecer nos relacionamentos, a mãe que precisou crescer enquanto criava um filho.

E vejo, sobretudo, uma mulher que chegou até aqui sem ter recebido o manual que esperavam que ela soubesse ler.

Hoje eu me respeito, me cuido, porque descobri quem eu sempre fui e não me abandono mais. Antes me acolho como todas as minhas diferenças.


Nenhum comentário:

Postar um comentário