Quando fui desenganada aos dois anos, minha avó me levou a uma campanha de oração, e o pastor me fez engolir um cálice de azeite. Eu, que nem tinha condições de crer em nada, já saí dali voltando a caminhar e a me alimentar, habilidades que eu havia perdido.
Aos três ou quatro anos, lembrei da salada no prato da minha mãe e mastiguei uma folha de comigo-ninguém-pode. Automaticamente, minha garganta fechou. Eu sentia algo muito estranho. A moça que cuidava de mim correu e me encheu de leite. Não lembro se vomitei ou se apenas senti alívio, mas parece que o leite funcionou como um antídoto.
Aos sete, eu brincava na Ilha de Paquetá quando algumas crianças me atropelaram com um pedalinho. Fiquei alguns segundos submersa, tentando voltar à superfície, enquanto as pás do pedalinho giravam contra mim. Foi outro momento em que senti que poderia ter partido.
Aos vinte, a pessoa que me evangelizou, enquanto eu estava em uma crise existencial e enfrentava uma infecção que não conseguia curar, me deu um punhado de folhas para fazer chá. E o que os antibióticos não estavam conseguindo fazer, as ervas fizeram. Mais uma vez, minha vida se renovou.
Aos 32, perdi um bebê e quase não sobrou sangue em mim. Demorei algum tempo até me recuperar da anemia.
Quando retirei a vesícula, o residente disse que dei muito trabalho para voltar a respirar. Lembro-me da garganta arranhando e da voz rouca enquanto recuperava a saturação. Fiquei um bom tempo com oxigênio no nariz, mas ficou tudo bem... até o ano seguinte, quando operei uma hérnia enorme e rara, decorrente da primeira cirurgia.
Em outros momentos, escapei ilesa de acidentes que aconteceram bem ao meu lado, como se algo realmente tivesse me segurado no lugar para que o dano não me alcançasse.
Daqui a alguns meses, estarei de novo em um centro cirúrgico.
A intenção é começar um novo ciclo, mais saudável, livre de tantas dores crônicas, para conseguir ao menos envelhecer podendo cuidar de mim.
Mas passa um filme na cabeça.
Foram tantas situações em que vi Jesus na greta e voltei... Será que vai dar certo desta vez também?
Não é uma ansiedade abstrata diante de uma cirurgia. Carrego na memória vários momentos concretos em que estive muito perto da morte ou de uma situação grave e voltei.
É natural que, diante de outro centro cirúrgico, todas essas cenas se levantem juntas.
Nunca estive no controle.
Aos dois anos, não podia sequer compreender o que estava acontecendo. Aos sete, foi um acidente. Aos vinte, estava fragilizada. Aos 32, perdi muito sangue. Nas cirurgias, dependia inteiramente da equipe e do próprio corpo.
E, ainda assim, a história terminou repetidamente comigo voltando para a vida.
Confiar não é receber uma garantia de que nada dará errado. É não precisar conhecer o desfecho para continuar caminhando.
Já atravessei portas que pareciam portas de saída. E voltei. Algumas vezes, voltei imediatamente. Outras, precisei de tempo para recuperar sangue, força, respiração, saúde. Mas voltei.
Agora estou indo para uma cirurgia justamente porque quero continuar vivendo. Quero diminuir dores, recuperar mobilidade, cuidar melhor de mim e chegar à velhice com mais autonomia.
Talvez essa seja a parte mais bonita dessa história.
A menina de dois anos que voltou a caminhar não sabia o que a esperava. A menina de sete anos que voltou à superfície não sabia o que a esperava. A mulher de vinte anos que se recuperou também não.
E a mulher de 54 anos que agora entra novamente em uma sala cirúrgica já sabe muito mais sobre a vida do que todas elas juntas.
Ela sabe que o corpo é frágil. Sabe que pode ter medo e, ainda assim, prosseguir. E sabe, sobretudo, que sobreviver não é a única maneira de viver.
Talvez esse próximo ciclo não seja mais uma vez em que eu precise “voltar da greta”.
Passei tantas vezes pela greta que aprendi a reconhecer a presença de Jesus não apenas quando voltei dela, mas também enquanto caminhava em sua direção.
Eu não sei como será. Mas cheguei até aqui.
E não estou sozinha. Nunca estive.
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