Todo mundo erra. Errar é uma condição intrínseca à humanidade. Somos seres em construção, capazes de tropeçar, ferir, agir por impulso, tomar decisões equivocadas e, depois, reconhecer o erro, reparar o dano e aprender com ele.
Mas há uma diferença enorme entre errar e fazer da maldade um modo de existir.
Diante da frieza, da crueldade ou da perversidade de alguém, é comum ouvirmos: “No fundo, ele é uma boa pessoa.” Como se a bondade estivesse escondida em algum lugar profundo da alma, enquanto tudo aquilo que chega à superfície fosse justamente o contrário dela.
Mas, se é preciso cavar muito fundo para encontrar a bondade de alguém, talvez seja necessário perguntar: que espécie de bondade é essa que ninguém consegue enxergar?
Penso que o bem não deveria morar nas profundezas. O bem precisa estar na superfície.
Não porque sejamos incapazes de ter impulsos ruins, mas porque aquilo que fazemos com esses impulsos revela quem estamos escolhendo ser.
No fundo, talvez seja onde devamos guardar nossa tendência animalesca de reagir por instinto, de pensar primeiro em nós mesmos, de agir sem considerar o sentimento alheio. É ali que devem ser contidos o egoísmo, o orgulho, o desejo de vingança, a necessidade de ter razão, o nosso pequeno geocentrismo — essa tendência humana de fazer de nós mesmos o centro em torno do qual tudo e todos deveriam girar.
Não somos responsáveis por nunca sentir raiva, inveja, ressentimento ou vontade de revidar. Somos responsáveis pelo que fazemos com tudo isso.
Porque sentir não é necessariamente escolher.
A bondade verdadeira não é a ausência de sombras; é a decisão de não deixar que elas governem nossas mãos, nossa língua e nossas relações.
E talvez seja justamente por isso que Jesus tenha falado da luz que não deve ser colocada debaixo do alqueire. A luz não foi feita para ficar escondida dentro da casa. Ela precisa estar no alto, onde possa iluminar o ambiente e permitir que outros também enxerguem.
A bondade é essa lanterna.
Precisa estar suficientemente alta para ser vista, não como propaganda de virtude, mas como consequência natural de uma vida que aprendeu a considerar o outro.
Bondade escondida não consola quem sofre.
Bondade escondida não protege quem está vulnerável.
Bondade escondida não alimenta quem tem fome.
Bondade escondida não pede perdão, não faz justiça, não estende a mão, não acolhe.
O bem que ninguém consegue experimentar pode até existir como uma intenção, mas ainda não se transformou em vida.
Por isso, talvez seja mais honesto parar de procurar a “boa pessoa que existe lá no fundo” e observar aquilo que ela coloca para fora.
Porque é na superfície que a vida toca a vida.
É nas palavras que alguém ouve.
É nas mãos que ajudam ou ferem.
É nas escolhas que afetam os outros.
É na maneira como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca.
Não precisamos ser perfeitos para sermos bons. Mas a nossa imperfeição não pode servir de esconderijo para a maldade.
Que nossas sombras permaneçam sob vigilância, enquanto a luz permanece no alto.
Não para parecermos bons.
Mas para que, através de nós, alguém consiga enxergar o caminho.
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