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terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Deus do religioso


Quando os religiosos inventam o Deus que os ateus rejeitam.

Faz parte do meu cotidiano falar sobre a fé cristã em vários grupos na internet, inclusive em grupos de ateus. E há algo que percebo repetidamente: o que incomoda muitos deles não é propriamente a Bíblia, mas a leitura rasa que se faz dela e, sobretudo, a caricatura de Deus construída a partir dessa leitura.

Citam versículos que, isoladamente, parecem contraditórios. Reúnem passagens sem considerar contexto, gênero literário, cultura ou o desenvolvimento da compreensão de Deus ao longo da história bíblica. E, a partir disso, desenham um Deus tenebroso: preocupado com coisas insignificantes, vingativo, ciumento, arbitrário, que escolhe uns e abandona outros; um Deus que enriqueceria alguns enquanto permanece indiferente à fome e ao sofrimento de tantos.

E, nesse ponto, a culpa é escancaradamente dos religiosos.

Primeiro, dos próprios judeus, que atribuíram diretamente a Deus tanto o bem quanto o mal. Massacres, guerras, mortes, catástrofes, ataques de animais e toda sorte de acontecimentos eram compreendidos dentro de uma visão de mundo na qual Deus estava por trás de tudo. Os registros bíblicos carregam a percepção daquele povo e também os limites da sua capacidade de compreender e expressar aquilo que experimentava.

Depois, dos cristãos, que muitas vezes transformaram a letra em objeto de culto e perderam a capacidade de perceber aquilo que está para além dela. Leem o Antigo Testamento como se fosse um manual doutrinário para a Igreja, quando grande parte dele é, antes de tudo, memória de um povo, história, poesia, narrativa, experiência religiosa e testemunho de uma consciência que foi amadurecendo.

Então acontece algo curioso: os de fora, muitas vezes, acabam rejeitando a Bíblia pelo mesmo caminho pelo qual os religiosos a apresentam.

E passam a combater um Deus que talvez exista apenas na imaginação religiosa.

Um Deus humanizado não apenas como Pai, fonte de amor e vida, mas também como vingador, ciumento, irascível e injusto. Um Deus que distribui prêmios, castigos e privilégios segundo uma lógica quase humana de recompensa e punição.

Mas Jesus diz que “Deus é Espírito”.

E aquilo que é Espírito não cabe nas nossas definições. Não pode ser reduzido às categorias humanas de espaço, tempo, corpo, vontade, humor ou personalidade. Deus não é um homem gigantesco sentado em algum lugar do universo administrando acontecimentos. É justamente a nossa linguagem humana que precisa criar imagens para tentar falar daquilo que ultrapassa a nossa capacidade de compreender.

Talvez por isso a linguagem bíblica nunca devesse ser tratada como uma fotografia literal de Deus.

Ela é linguagem humana tentando dizer o indizível.

São histórias, imagens, símbolos, poemas, metáforas e experiências através das quais a consciência humana tenta tocar aquilo que não consegue apreender completamente.

Somos apenas uma fagulha que acende e logo se apaga nessa dimensão imensa que chamamos existência. E o que acontece depois da morte nós vemos, como dizia Paulo, “como por espelho, obscuramente”. Toda certeza absoluta a respeito do que há depois daqui me parece mais arrogância humana do que revelação.

Enquanto isso, na linguagem acusadora de muitos religiosos, Deus teria um povo cuidadosamente selecionado e sentiria prazer em lançar todo o restante no inferno.

E, entretanto, passam de largo justamente pelo modo de vida ensinado por Cristo.

Porque Jesus não ensinou seus discípulos a fiscalizar o ventre alheio, disputar quem possui a verdade mais pura, humilhar pecadores, acumular privilégios espirituais ou defender líderes que afagam seus egos.

Jesus ensinou misericórdia. Ensinou perdão. Ensinou cuidado. Ensinou a amar o inimigo. Ensinou a não julgar. Ensinou a socorrer quem sofre.

Ensinou que o próximo não é aquele que pensa como nós, mas aquele cuja vida encontramos pelo caminho.

E é justamente aí que a religião frequentemente fracassa: segue o ventre e os líderes que alimentam o ego, enquanto desrespeita a própria vida que afirma ter sido amada por Deus.

Então os ateus olham para tudo isso e rejeitam a caricatura.

E eu não consigo culpá-los inteiramente por isso.

Muitos não estão rejeitando aquilo que eu chamo de Deus. Estão rejeitando o deus que lhes apresentaram.

O problema é que, no fim, religiosos e ateus podem acabar presos à mesma armadilha: cada grupo constrói sua própria versão daquilo que Deus é ou não é, arma-se com argumentos, escolhe suas certezas e passa a enxergar o outro como alguém que precisa ser derrotado.

Cada um com sua “verdade”. Cada um defendendo seu território. Cada um tentando vencer.

E, no meio de tanta certeza, ninguém mais se ama, ninguém mais se escuta e ninguém mais se atura.

Talvez seja justamente aí que tenhamos perdido o essencial.

Porque, se a fé que professamos não nos torna mais humanos, mais compassivos, mais capazes de amar e de respeitar a vida, talvez estejamos defendendo a nossa religião enquanto nos afastamos do Cristo que dizemos seguir.

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