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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quando o pessimismo vira identidade


Conheço gente que é triste, amargurada, reativa.
Gente que, cada vez que você pergunta “como vai?”, tem sempre uma resposta negativa.

O problema às vezes muda, mas a narrativa permanece: está sempre ruim, pesado, sofrido, adoecido. Nunca está bem.

Nunca há uma pequena alegria, uma coisa boa acontecendo, uma leveza sequer no meio da vida.

É gente que carrega um peso e, sem perceber, pesa também qualquer conversa. Como se não conseguisse falar da vida sem colocar sobre a mesa uma nova queixa, uma nova tragédia, uma nova razão para explicar por que tudo está difícil.

E o curioso é que todo mundo tem seus desafios.
Todo mundo resolve problemas. Todo mundo perde coisas e pessoas. Todo mundo adoece. Todo mundo carrega alguma história que doeu.

Há traumas que ninguém vê, lutas que ninguém conhece e dias em que simplesmente levantar da cama já exige alguma coragem.

Mas algumas pessoas parecem ter se acostumado tanto com o olhar nublado que já não conseguem enxergar a paisagem.

Carregam nas costas o pedregulho do pessimismo, murmurando contra tudo e contra todos, como verdadeiras vítimas do universo. Como se a vida lhes tivesse reservado uma quantidade excepcional de sofrimento e o restante das pessoas estivesse apenas vivendo sem problemas.

Talvez exista nisso uma necessidade de ser visto.
Talvez seja uma maneira de dizer: “olhem o quanto eu suportei”.

Talvez seja uma tentativa de encontrar valor em si mesmo através da própria capacidade de sobreviver. Não sei.

O sofrimento humano é complexo demais para caber numa explicação simples. Mas sei que viver é um desafio diário para todos nós.

E talvez amadurecer seja justamente aprender que podemos atravessar dificuldades sem transformar a dificuldade na nossa identidade.

Podemos sofrer e continuar fazendo o bem. Podemos perder e continuar cuidando. Podemos adoecer e procurar tratamento.
Podemos ter problemas sem transformar cada conversa numa extensão deles.

Nem tudo dá certo. E nem tudo dá errado.
A gente perde coisas e pessoas. Outras chegam.
Algumas portas se fecham. Outras se abrem.
Há dias de choro e dias de riso.
Há fracassos, recomeços, despedidas, encontros, doenças, curas, cansaço e descanso.

A vida não precisa ser perfeita para ser boa.
Talvez seja preciso apenas parar de esperar que o mundo nos trate como exceção — para o bem ou para o mal.

Não somos privilegiados pela dor, nem perseguidos por ela. Somos parte do todo.

E, enquanto a vida acontece, fazemos o que podemos: cuidamos da mente, cuidamos do corpo, procuramos saúde, resolvemos o que está ao nosso alcance e deixamos de sofrer antecipadamente por aquilo que ainda nem aconteceu.

E, principalmente, aprendemos a olhar para a frente.
Não porque tudo ficará bem o tempo inteiro. Mas porque, mesmo quando nem tudo está bem, ainda há vida acontecendo.

E enquanto houver vida, ainda podemos plantar alguma coisa.

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