Crenças existem às dúzias, ao gosto de cada um, segundo a conveniência ou a debilidade de quem se deixa conduzir. A fé, porém, é uma construção de vida.
Ela se constrói à medida que se busca a Deus e se experimenta a condição de filho que escuta o Pai. Vem do ouvir — não apenas de escutar sons, mas de dar ouvidos, aprender e confiar — para, a partir disso, fazer escolhas.
Às vezes é possível identificar-se com irmãos que caminham na mesma fé. Mas, na maioria das vezes, as pessoas apenas se conformam. Entram em fôrmas, repetem padrões e, pouco a pouco, perdem a própria individuação.
No Evangelho, a Boa-Nova é para aquele que se compreende filho, co-herdeiro com Cristo. É Cristo quem se revela, e essa revelação produz uma relação pessoal, viva e intransferível. Nesse relacionamento, cada filho é aperfeiçoado, recebe dons e missões que não podem ser terceirizados e, como cooperador, prestará contas daquilo que lhe foi confiado.
Na crença, basta cumprir protocolos: não questionar regras, estatutos e dogmas; não falhar nos compromissos da instituição; permanecer fiel à rotina e viver em função da empresa religiosa.
Há quem precise dessa dinâmica. Mas há também quem viva pela fé.
E eu só não consigo entender por que estes últimos são chamados de desviados, se foi justamente a esses que Jesus chamou para fora das fôrmas, e a quem Ele mesmo justificou.
Talvez o desvio, aos olhos da religião, seja simplesmente o caminho de quem deixou de caber na fôrma para aprender a caminhar como filho.
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