Para a pessoa comum, aparentemente amar é mais profundo do que gostar de alguém. Mas biblicamente, há uma grande diferença, quando se separa a prática de amar, de um sentimento.
No uso cotidiano, costumamos colocar gostar e amar numa espécie de escala de intensidade: gostar seria um sentimento mais leve; amar, um sentimento mais profundo. Biblicamente, porém, quando olhamos para o amor como prática, essa lógica muda.
O amor bíblico não depende necessariamente de afeição, identificação ou prazer na presença do outro. Ele pode existir sem simpatia e até sem reciprocidade. Amar é uma disposição que se traduz em atitudes concretas em favor do outro.
Por isso Jesus pode ordenar: “amai os vossos inimigos”. Ele não está ordenando que sintamos afeição por quem nos faz mal, nem que aprovemos suas atitudes. Está nos chamando a uma prática: fazer o bem, orar, perdoar, não retribuir mal com mal.
Isso também explica por que o samaritano é apresentado como exemplo de amor. Ele provavelmente não conhecia aquele homem, não tinha vínculo afetivo com ele e sequer sabemos se teria gostado dele. Mas amou-o na prática.
Jesus fitou o jovem rico e o amou. Demorou-se nele, ouviu-o e o confrontou. Fez com que o rapaz expusesse seus conhecimentos religiosos e, então, mostrou-lhe que ainda lhe faltava a prática. Quando Jesus lhe pediu que abrisse mão de suas riquezas e as repartisse com os pobres, o jovem se retirou triste. Entendeu, naquele momento, que amava mais o seu dinheiro do que aqueles que precisavam dele.
O bom samaritano amou um desconhecido. Diante de alguém ferido à margem do caminho, não perguntou quem ele era, de onde vinha, qual era sua religião ou se merecia ajuda. Simplesmente se compadeceu, supriu sua necessidade, cuidou de suas feridas e se responsabilizou pelo que ainda fosse necessário. Fez aquilo que os religiosos que passaram por ali não fizeram, apesar de toda a sua prática religiosa.
Amor tem a ver com doar-se sem acepção.
No ápice do amor, Jesus entregou a própria vida por pecadores e, enquanto sua vida terrena era ceifada, ainda intercedeu por aqueles que o crucificavam.
Ele mesmo nos ensinou a amar os inimigos e a orar por aqueles que nos perseguem. Porque o amor não pode depender da simpatia, da reciprocidade ou da aprovação. Nosso foco deve estar no bem, na transformação e na possibilidade de que alguém reencontre o caminho, enquanto nos dispomos a ajudar a iluminar o entendimento de quem está ao nosso redor — amigos ou não.
Gostar é diferente de amar.
Gostar tem a ver com aprovação, identificação, afinidade. É ter gosto pela pessoa, pela maneira como ela pensa, age ou se comporta.
Amar, porém, é desejar o bem.
Por isso, é perfeitamente possível amar alguém de quem não gostamos.
Posso não aprovar suas atitudes, não concordar com suas escolhas, não ter afinidade com sua personalidade e até preferir manter distância. Ainda assim, posso me importar com sua vida, não desejar seu mal, ajudá-lo quando estiver caído e, se houver oportunidade, contribuir para que ele se reencontre.
Porque amar não é dizer: “Eu gosto de você exatamente como você é.”
Quando amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser prática, ele já não depende daquilo que o outro desperta em mim, mas daquilo que eu decido oferecer a ele.
Gostar tem a ver comigo: com o que sinto quando encontro o outro. Amar tem a ver com o outro: com o bem que estou disposto a fazer por ele.
Às vezes, amar é justamente dizer, com atitudes:
“Eu não aprovo o que você está fazendo, mas ainda assim não desisti do seu bem.”
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