Tem pessoas que, para cada solução, encontram um problema.
Gente que só consegue enxergar o copo meio vazio, que parece olhar tudo pelo lado negativo e, fatalmente, aluga o ouvido dos outros para despejar lamúrias, preocupações e negatividade.
Tive uma amiga assim desde que a conheci. Hoje já não somos tão próximas, mas nada mudou, toda vez que nos vemos é igual.. Como não sou muito falante, acabo sendo uma boa ouvinte e, muitas vezes, conselheira. E constantemente me vejo ocupada com os problemas alheios — não porque os procure ou me coloque nesse lugar, mas porque as pessoas acabam me elegendo para ele. Talvez porque saibam que aquilo que me contam morre em mim.
Por outro lado, quase nunca compartilho o que vivo com os outros.
Tenho a impressão de que as pessoas estão sempre precisando desabafar, mas que meus problemas e minhas dores raramente despertam o mesmo interesse. Talvez eu não saiba interromper o assunto quando ele é do outro. Talvez eu também não me exponha o suficiente. O fato é que nossas conversas quase nunca circulam pelas minhas vivências. Quase sempre desembocam nas vivências de alguém.
Não tenho muita sintonia com a maioria das pessoas. Converso superficialmente sobre quase tudo, mas não me entrego facilmente a ninguém.
Talvez porque eu precise me sentir ouvida para conseguir me abrir e raramente me sinto assim.
Por exemplo: estou passando pelo processo para fazer uma bariátrica. Estou pensando em melhorar minha qualidade de vida, recuperar mobilidade, disposição, possibilidades. Estou pensando, sobretudo, em viver melhor.
E, quando compartilho isso, não é raro alguém imediatamente me lembrar que depois talvez eu precise retirar pele, que posso ter queda de cabelo, que minha aparência poderá envelhecer, que haverá outras consequências...
Ora, eu sei.
Mas eu estou tentando resolver um problema de cada vez.
Neste momento, estou olhando para aquilo que preciso fazer para melhorar minha vida. As consequências que vierem depois, eu resolvo quando chegarem e, se alguma delas me incomodar, encontrarei uma maneira de lidar com ela.
Não preciso que alguém transforme uma esperança em uma lista de problemas.
Às vezes, tudo o que o outro precisa é de alguém que diga: “Que bom que você está tentando. Eu torço para que dê certo. E, se alguma dificuldade aparecer no caminho, a gente vê como resolver.”
Mas as pessoas parecem ter dificuldade de simplesmente oferecer suporte. Precisam alertar, corrigir, prever, problematizar.
Talvez porque seja mais fácil apontar o que pode dar errado do que sustentar alguém enquanto ela tenta fazer dar certo.
As pessoas não sabem se colocar no lugar do outro. Não sabem ser apoio, ser suporte, ser abrigo. Muitas vezes, diante da esperança alheia, oferecem apenas seus próprios medos.
E há momentos em que a gente não precisa de alguém apontando a próxima dificuldade.
A gente só precisa de espaço para respirar e continuar, sabendo que torcem por nós.
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