Os hebreus não saíram do Egito carregando apenas seus pertences; carregavam também séculos de convivência com uma cultura profundamente marcada pelo politeísmo, por seus rituais, costumes e formas de culto.
A Lei mosaica, nesse contexto, não pode ser compreendida apenas como um conjunto de regras morais universais. Ela também funcionava como instrumento de formação e diferenciação de um povo que estava sendo constituído.
Muitas de suas prescrições regulavam justamente aquilo que poderia aproximar Israel das práticas religiosas e culturais dos povos ao seu redor: culto a outros deuses, sacrifícios, alimentos, purezas rituais, práticas sexuais, festividades, vestimentas e diversos costumes.
Algumas dessas leis nos parecem estranhas, excessivas ou até incompreensíveis quando lidas a partir da nossa cultura. Mas elas pertencem a um contexto histórico específico. Serviam também para estabelecer fronteiras: “vocês não serão como os outros povos”.
Israel precisava aprender uma nova identidade, e a Lei fazia parte desse processo.
Por isso, retirar determinados mandamentos do seu contexto histórico e transportá-los diretamente para o século XXI pode produzir conclusões bastante equivocadas. O que era uma marca de identidade, separação ou pureza ritual dentro daquela sociedade não necessariamente constitui uma norma moral universal para todos os povos e épocas.
A própria trajetória bíblica mostra que a relação entre Deus, Lei, povo e cultura não é estática. Há um processo de formação, interpretação e transformação que culmina, para o cristianismo, em Cristo.
A Lei não apenas dizia ao povo o que fazer; ela também ensinava ao povo quem ele deveria ser dentro daquele contexto histórico.
E “lei moral”, “lei civil” e “lei ritual” são categorias teológicas posteriores, úteis para organizar o material, mas a Torá não aparece originalmente dividida dessa maneira.
Antes de perguntar “por que Deus mandou isso?”, é importante perguntar “que função essa norma exercia dentro daquela sociedade e naquele momento da história de Israel?”.
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