Antes de desobedecerem à única ordem dada no Éden, Adão e Eva desejaram aquilo que a serpente lhes ofereceu: serem como Deus, conhecedores do bem e do mal.
Naquele momento, Deus deixou de ocupar o centro, e o homem colocou a si mesmo nesse lugar. O desejo não era apenas experimentar um fruto proibido, mas emancipar-se, conduzir a própria vida segundo seus próprios critérios, independentemente do Criador.
A desobediência não foi um deslize inocente. Foi consciente e deliberada. A serpente não obrigou ninguém a pecar; apenas conduziu a conversa até despertar aquilo que já encontrava eco no coração humano: o desejo de autonomia, exaltação e autossuficiência.
Desde então, a maior batalha da humanidade não é contra circunstâncias, governos ou sistemas, mas contra si mesma.
A concupiscência dos olhos, a soberba da vida, o orgulho e a justiça aos próprios olhos continuam colocando o homem no centro de tudo. E toda vez que isso acontece, as consequências inevitavelmente são colhidas.
Por isso, a primeira exigência de Jesus para quem deseja segui-lo continua sendo a mesma: "Negue-se a si mesmo". O evangelho não é uma exaltação do ego, mas sua rendição.
Cristo mostrou o caminho. Sendo Deus, não buscou afirmar seus próprios interesses, mas esvaziou-se. Renunciando à própria vontade, submeteu-se inteiramente ao Pai e consumou, em carne, aquilo que estava determinado desde antes da fundação do mundo.
Enquanto Adão tomou para si o lugar que não lhe pertencia, Jesus abriu mão dos seus direitos para cumprir a vontade do Pai. Um escolheu a independência e trouxe morte; o outro escolheu a submissão e trouxe vida.
Enquanto um estendeu a mão para tomar o que desejava, o outro estendeu as mãos na cruz para entregar tudo.
O pecado não começou nas mãos que colheram o fruto, mas no coração que desejou o trono. O homem quis governar a própria vida, definir o bem e o mal segundo seus próprios olhos, e desde então carrega o peso de ser seu próprio deus.
Cristo veio fazer o caminho inverso. Não tomou para si aquilo que lhe era devido, mas esvaziou-se. Não impôs sua vontade, mas submeteu-se. Não buscou exaltação, mas humilhou-se até a morte.
O primeiro Adão disse: "Seja feita a minha vontade."
O último Adão disse: "Seja feita a Tua vontade."
E entre essas duas frases está toda a história da queda e toda a história da redenção.
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