Páginas

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Vida com abundância

Vocês que estão acostumados a me ler sabem que fui evangélica por muitos anos e que estou desigrejada há quase onze. E preciso admitir que cerca de 80% do que aprendi não foi dentro da religião.

Há muitos anos busco conhecimento com a Bíblia na mão, mas também participando de debates sobre os textos bíblicos. Antes, nos diversos fóruns que existiam quando comecei a usar a internet; hoje, em grupos do Facebook e outros espaços de discussão.

Por quê? Porque a igreja evangélica, em sua maioria, não forma Cristo nas pessoas. A deturpação é tão grande que muitos passam a vida distraídos com rituais, programações e entretenimentos religiosos, mas sem conhecimento bíblico consistente.

Jesus disse que veio para que tivéssemos vida, e vida em abundância. Por quê? Porque o judaísmo havia se tornado religião e já não representava o relacionamento entre Deus e o povo que Ele havia escolhido.

Tudo se resumia a rituais, penitências e cumprimento de agendas religiosas. As pessoas passaram a enxergar a si mesmas como uma raça eleita por mérito próprio. Eram aquilo que faziam. Quanto mais religiosos pareciam, melhores se consideravam.

Então veio Jesus e mostrou que aquilo não era vida. Vida era desconstruir aquelas estruturas e priorizar relacionamentos. Encarnar o Evangelho é amar uns aos outros, perdoar, cooperar, unir forças, proteger os mais fracos, repartir recursos e reconhecer uns aos outros pelo fruto produzido segundo o Espírito que habita em nós.

Mas, depois que Jesus passou três anos e meio ensinando como viver, a comunidade que se reunia como família de Deus transformou-se em cristianismo institucionalizado, resgatando a religiosidade e reconstruindo muito daquilo que o próprio Jesus denunciou como hipocrisia.

Frequentam e mistificam lugares, mesmo Jesus tendo declarado ser Ele o verdadeiro Templo, onde a entrega do Cordeiro foi eficaz de uma vez por todas.

Disputam cargos e posições entre si, estabelecendo graus de importância, mesmo Jesus ensinando que, no Reino, o maior é aquele que mais serve.

Usam a Bíblia como regra de vida, mas não meditam em seus ensinamentos a ponto de permitir que eles moldem o caráter. Da porta para fora, despem-se da religião e seguem vivendo separados do mundo, como se ocupassem um patamar moral superior.

Mas onde serão luz? Onde serão sal? Onde testemunharão como cartas vivas, se tudo o que sabem fazer é repetir versículos que muitas vezes nem compreendem?

Até mesmo nos grupos de discussão, os evangélicos passam a maior parte do tempo debatendo qual doutrina é a melhor ou atacando as diferenças uns dos outros. Pouco se discute apologética, porque as divergências ocupam mais espaço do que Aquele que deveria nos unir.

Viver em abundância não é apenas esperar pela vida após a morte. Não é possuir tudo o que se deseja. Antes de tudo, é aprender, nos encontros da caminhada, a ser cada vez mais parecido com Jesus.

Porque a vida abundante começa quando Cristo deixa de ser apenas um assunto sobre o qual falamos e passa a ser a realidade que vivemos nos encontros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário