Passei a vida inteira sendo treinada para me odiar. Para me sentir feia, torta, má. Carreguei uma lista interminável de defeitos: irreverente, teimosa, preguiçosa, grosseira, lerda. Mas, em muitos casos, eram apenas características do autismo se manifestando.
Nunca consegui seguir cegamente uma ordem sem antes compreender sua lógica, sua causa, seu propósito. Para mim, a questão sempre foi conversa, não simples ordem e obediência.
Também sempre fui reativa. E todas as vezes que reagi, foi porque antes me invadiram, me forçaram ou me provocaram.
As crises de choro, a depressão, o isolamento e a angústia eram vistos como fraqueza, pirraça ou provocação. Mas eram apenas dor.
Crescer sem apoio, sem suporte, sem compreensão e cercada por tantos estigmas adoeceu minha autoestima.
Com o passar dos anos, descobri que não sou apenas um pacote de erros. Sou uma boa pessoa. Tenho as mazelas que todo ser humano tem, mas estou longe de ser alguém desprezível.
Autoestima é sobre valor. E ninguém perde o valor porque não agradou alguém, porque não fez o que o outro queria, porque pensa diferente ou porque não correspondeu às expectativas alheias.
Ao contrário, uma pessoa começa a perder a percepção do próprio valor quando entrega seu direito de escolha, quando se submete sem questionar, quando coloca nas mãos de outros as rédeas da própria vida e passa a acreditar na depreciação de quem a massacra.
Eu superei. Consegui me amar. Consegui olhar a vida com gratidão, realizar sonhos e ser feliz dentro do possível.
E, principalmente, entendi que não preciso ser outra pessoa.
Preciso apenas ser autêntica.
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