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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sombras e esperança

Quem deveria me construir, quis me destruir. 

Nunca incentivou o que havia de bom em mim; sempre ressaltava aquilo que julgava ruim.

Desqualificava minhas tentativas. Não permitia que eu vivesse a minha dor. Cobrava o próprio investimento, como se tempo e dinheiro tivessem sido desperdiçados.

Se eu tentava realizar, desmerecia. Se eu dizia que outras pessoas me amavam, respondia que eu fingia quando estava fora de casa.

Eu era feia, preguiçosa e não daria em nada.

Era péssima em tudo, em todos os aspectos. Do físico à essência, eu desagradava. Eu era a vergonha, a desonra, o peso, o incômodo.

Nunca entendi. Nunca aceitei.

Minhas virtudes escondidas, descobri sozinha. Meus dilemas e minhas lutas, enfrentei sozinha. Minhas dores, atravessei sozinha.

Mas o que quis construir, construí. O que quis realizar, realizei. O que quis aprender, aprendi. O que desejei conquistar, conquistei.

Nunca acreditei no destino para o qual fui treinada.

Escolhi olhar para quem sou com amor, respeito e acolhimento.

Os traumas não são apenas espadas que nos atravessam e limitam nossas possibilidades. São forças que atravessam vidas e, muitas vezes, gerações.

Até que alguém encontre coragem para enfrentá-los, interrompa esse ciclo e se reinvente, a cura começa a alcançar não apenas a si mesmo, mas também os que virão depois.

Muitas vezes praticamos justamente aquilo que reprovamos. Não porque desejamos agir assim, mas porque o trauma, quando não elaborado, fala por nós. Às vezes é a dor quem decide, quem reage, quem age em nosso lugar, contrariando até aquilo que conscientemente acreditamos e queremos ser.

Quem fere, na verdade, também foi ferido. Quem tenta machucar, quase sempre carrega feridas que nunca aprendeu a tratar. Não soube elaborar a própria dor e, por isso, perpetua o ciclo.

Mas alguém precisa interrompê-lo.

Eu escolhi vencer minhas dores ajudando outras pessoas a encontrar caminhos de cura.

...

Deus escolhe as coisas loucas e desprezadas do mundo. Não porque nelas haja perfeição, mas porque aqueles que reconhecem sua fragilidade e sua necessidade estão mais dispostos a receber a adoção em Cristo.

É na simplicidade que o Evangelho se manifesta. A Lei revela a fraqueza; a Graça acolhe, restaura e cura.

Por isso, os pequeninos, os frágeis, os rejeitados, os doentes, os vazios, os perdidos, os desprezados e os loucos têm primazia no Reino de Deus, em contraste com aqueles que pensam que são, que pensam que sabem e que pensam que podem.

Deus escolheu revelar-se ao simples, ao comum e ao pequeno, para manifestar neles a grandeza da sua Graça. 

Porque o Reino não é recebido pelos que se julgam suficientes, mas por aqueles que estendem as mãos e reconhecem que tudo o que têm vem Dele.

...

Olhando para Cristo, entendi tudo.

Minha história ganhou sentido. O perdão que recebi agora também emana de mim na direção do próximo, porque Ele sabe do material de que somos feitos. E, agora, eu também sei.

Quando compreendi que fui alcançada pela Graça apesar de quem eu era, deixou de fazer sentido medir o outro por suas falhas. 

Quem conhece a própria fragilidade aprende a estender misericórdia. Quem experimenta o amor de Cristo passa a refletir esse mesmo amor.

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