Quando um versículo é retirado do seu contexto, ele pode passar a dizer aquilo que nunca pretendeu dizer.
É comum citar Mateus 24:20 como prova de que Jesus ordenou à Igreja guardar o sábado. No entanto, basta ler o contexto para perceber que o Senhor não está estabelecendo um mandamento para a Nova Aliança, mas profetizando sobre a destruição de Jerusalém e orientando seus discípulos acerca das dificuldades de uma fuga iminente.
"Orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado."
Jesus não está ensinando uma doutrina sobre dias sagrados. Está falando das condições práticas daquela fuga. O inverno dificultaria o caminho. O sábado, na Judeia do primeiro século, também traria obstáculos, pois a sociedade judaica vivia sob restrições próprias desse dia.
Se alguém insiste que essa passagem estabelece a obrigatoriedade do sábado para todos os cristãos, precisaria, pela mesma lógica, defender que o inverno também possui um significado doutrinário, já que ambos aparecem na mesma advertência. Evidentemente, não é esse o propósito do texto.
Depois da cruz, a pergunta que permanece é: onde os apóstolos ordenam às igrejas guardar o sábado como requisito da Nova Aliança?
No Concílio de Jerusalém (Atos 15), quando se discutiu exatamente o que deveria ser exigido dos gentios convertidos, o sábado sequer aparece entre as determinações.
Ao contrário, Paulo afirma que ninguém deve ser julgado por causa de festas, luas novas ou sábados, pois tudo isso era sombra da realidade que se cumpriu em Cristo (Colossenses 2:16-17). Em Romanos 14, ele ensina que alguns fazem distinção entre dias, enquanto outros consideram todos iguais, e que cada um deve agir segundo sua consciência diante do Senhor. Já em Gálatas, adverte contra o retorno à observância obrigatória de dias como se isso fosse parte da justificação.
A graça jamais produz uma vida sem obediência. Pelo contrário, ela forma em nós um coração obediente. Contudo, a obediência da Nova Aliança não consiste em retornar às sombras, mas em permanecer naquele para quem todas as sombras apontavam: Cristo.
Por isso, antes de transformar um texto em doutrina, vale fazer uma pergunta simples: onde, após a ressurreição de Jesus, algum apóstolo ordena à Igreja guardar o sábado como condição de fidelidade a Deus?
Se esse fosse um mandamento central da Nova Aliança, certamente teria sido ensinado com clareza por aqueles que receberam de Cristo a missão de instruir Sua Igreja.
A questão nunca foi diminuir a importância da obediência, mas compreender a quem e em que aliança devemos obedecer.
A Lei teve sua função, santa e boa, conduzindo o homem até Cristo. Mas a Nova Aliança não consiste em restaurar os sinais da antiga, e sim em viver a realidade para a qual eles apontavam.
O sábado foi dado como sinal da aliança entre Deus e Israel. Cristo, porém, é o cumprimento de tudo aquilo que a Lei e os profetas anunciavam. Nele encontramos o verdadeiro descanso, não porque um dia da semana tenha perdido seu valor histórico, mas porque o descanso prometido sempre apontou para uma Pessoa.
Por isso, os apóstolos reafirmam continuamente a santidade, o amor, a honestidade, a fidelidade e a justiça, mas nunca impõem à Igreja a guarda do sábado como requisito da Nova Aliança. No Concílio de Jerusalém, quando decidiram o que deveria ser exigido dos gentios convertidos, essa determinação simplesmente não aparece.
Isso não significa que a graça nos autorize a viver sem obediência. Pelo contrário. A graça produz uma obediência mais profunda: não a obediência de quem procura justificar-se pelo cumprimento de um código, mas a de quem foi transformado pelo Espírito e agora deseja agradar a Cristo.
Ao final, permanece uma pergunta que merece ser respondida apenas com as Escrituras, sem pressupostos doutrinários:
Se a guarda do sábado é um mandamento indispensável para todos os cristãos da Nova Aliança, por que nenhum apóstolo a ordena explicitamente às igrejas? E por que, justamente em Atos 15, quando a Igreja definiu quais exigências deveriam ser feitas aos gentios, o sábado não foi incluído?
Essa não é uma pergunta contra o sábado. É uma pergunta em favor da fidelidade ao ensino apostólico. A fé cristã não se estabelece por inferências, mas por aquilo que Cristo e seus apóstolos efetivamente ensinaram.
Jesus é nosso sábado, descansa Nele!
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