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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Sou o que sou e tenho o direito de ser


Engravidei aos 19 anos e não me casei porque, antes mesmo de assinar um papel, o relacionamento já era abusivo. Eu já não podia ter amigos, estudar ou sair sozinha. Já era traída e ameaçada.

Antes de transformar tudo ao meu redor num inferno, resolvi dar a cara a tapa. Desisti dos planos, da casa que estava construindo e do futuro que havia imaginado para mim.

O apoio que minha família me prometeu logo se tornou condicional. Tentei ser o melhor que pude. Fui a mãe possível que meus vinte anos me permitiam ser. Trabalhei desde sempre e priorizei meu filho em praticamente todas as decisões que tomei.

Nunca mais saí para lugares onde não pudesse levá-lo comigo. Minha mãe era do tipo que dizia: “Quem pariu Mateus que o embale”. Na verdade, o ditado correto é “quem pariu Mateus que o mantenha e embale”. E foi o que fiz.

Nem de longe fui a melhor mãe do mundo. Fui aprendendo a ser mãe enquanto crescia junto com meu filho, acertando, errando e fazendo o que estava ao meu alcance com os recursos emocionais e materiais que tinha naquela idade.

Com o tempo, consegui construir minha casa. Dessa vez, concluída sem a ajuda de ninguém. Eu me desdobrava trabalhando e complementava a renda com bordados que fazia durante a semana e levava aos domingos para vender na Feira Hippie.

Sou reservada. Fui evangélica durante décadas e sempre levei uma vida pacata, cuidando do meu filho, da casa, das contas e do meu próprio aperfeiçoamento.

Não fui, nem sou, o que se poderia chamar de alguém que viveu dentro dos trilhos convencionais ou que se tornou régua para a vida de alguém. Nunca pretendi ser parâmetro. Driblei preconceitos e mantive minha vida em ordem sem pedir a ninguém que assumisse minhas responsabilidades.

Respeito para ser respeitada. Cada um vive a vida que escolhe, dentro das possibilidades que tem. Nunca precisei culpar ninguém pelas minhas escolhas, mas também nunca concedi a ninguém o direito de decidir por mim o caminho que deveria seguir.

Nem relacionamentos, nem amizades, nem empregos. Nunca me obriguei a permanecer onde não me sentia bem, tampouco fiz da aprovação alheia uma condição para seguir em frente. Fico enquanto faz sentido. Quando deixa de fazer, mudo o foco e continuo.

Sou o que sou e tenho o direito de ser.

Hoje, meu filho é casado. Ele não me sobrecarrega com os problemas da vida dele, assim como não faço dos meus problemas uma responsabilidade dele. Cada um tem a própria vida, e nos respeitamos como indivíduos.

Nem de longe vivi uma vida tradicional, dentro do modelo que a sociedade costuma chamar de família conservadora. Não me casei para legitimar uma relação abusiva, não vivi para corresponder às expectativas alheias e não construí minha história para servir de exemplo a ninguém.

Mas fui fiel ao que senti, ao que acreditei e ao que busquei para mim. Assumi minhas responsabilidades, trabalhei, criei meu filho e construí meu caminho com as ferramentas que tinha.

Não preciso ter vivido como a maioria para merecer o respeito de todos. Não preciso que concordem com minhas escolhas, nem que aprovem minha história. Basta que compreendam que a vida que me pertence não precisa da autorização de ninguém para ser vivida.

Nunca reivindiquei o direito de ser a régua do mundo. Reivindico apenas o mesmo direito que todos deveriam ter: o de conduzir a própria vida sem que alguém, amparado por suas crenças, seus preconceitos ou sua moral particular, se considere autorizado a decidir por mim.

A liberdade que reivindico para mim é a mesma que reconheço no outro. Porque não preciso que todos vivam como eu para reconhecer a dignidade de cada um.

E, depois de tudo o que vivi, é assim que me apresento ao mundo: sem pedir licença para existir, sem precisar provar meu valor e sem me desculpar por não ter seguido o roteiro que escreveram para mim.

Sou o que sou. Minha história me pertence. Minhas escolhas me trouxeram até aqui.

Tenho dignidade por ser quem sou. Sou solteira, mãe solo, pobre, cristã, autônoma, preta, neurodivergente e tantas outras coisas que compõem a minha identidade. Nenhuma delas me torna menos humana, menos merecedora de respeito ou menos digna de ocupar meu lugar no mundo.

Não preciso me encaixar no ideal de ninguém para justificar minha existência. Meu valor não está condicionado ao meu estado civil, à minha conta bancária, à minha aparência, à minha condição neurológica ou à aprovação de qualquer grupo.

Não sou menos por ser diferente. Não sou mais por ser quem sou. Sou alguém, e isso basta para que minha dignidade seja respeitada.

Não apesar da vida que vivi, mas porque nenhuma vida precisa caber nos padrões de alguém para ter valor.

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