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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A camisa verde e amarela

Quem precisa de direitos trabalhistas no Brasil não é uma minoria. Quem depende de salário para viver não é uma minoria. Quem precisa de escola pública, saúde pública, aposentadoria, proteção social, salário digno e condições minimamente justas de trabalho não é uma minoria. São milhões.

E, ainda assim, não é raro encontrar trabalhadores defendendo políticas que podem reduzir justamente os mecanismos de proteção dos quais eles próprios dependem, enquanto acreditam estar lutando contra o inimigo.

É aí que a política deixa de ser sobre interesses concretos e passa a ser sobre identidade.

O trabalhador veste a camisa verde e amarela e acredita estar participando de uma grande missão nacional, enquanto interesses econômicos muito diferentes dos seus encontram nele um eleitor disposto a defendê-los.

Não porque seja necessariamente ignorante.
Mas porque foi convencido de que a disputa principal não é entre interesses econômicos, direitos e projetos de sociedade. É entre o bem e o mal.

E quando uma disputa política é transformada numa guerra entre o bem e o mal, basta escolher quem representa o bem. O resto deixa de precisar ser examinado.

É assim que alguém pode abrir mão de direitos que beneficiam a própria classe social para defender interesses que não são os seus.

E é assim também que a religião pode ser transformada em instrumento político.

O mesmo mecanismo que transforma o eleitor em massa de manobra pode transformar o fiel em massa de manobra.

Basta colocar Deus de um lado e o demônio do outro. De um lado, os “homens de Deus”. Do outro, aqueles que precisam ser demonizados.

E o indivíduo já não precisa perguntar: O que esse líder está fazendo com o meu dinheiro? Quem está se beneficiando disso? Isso está realmente de acordo com aquilo que Jesus ensinou?

Por que aquilo que é apresentado como vontade de Deus favorece justamente quem já possui poder?

Porque a demonização dispensa a reflexão. E o discurso religioso, quando usado dessa maneira, oferece uma coisa perigosíssima: certeza sem exame de consciência.

Não é preciso compreender política. Não é preciso compreender economia. Não é preciso conhecer a Bíblia. Basta acreditar que está do lado certo.

E talvez seja justamente por isso que a figura de Jesus seja tão incômoda.

Porque ele não parece ter escolhido os poderosos como centro de sua mesa. Sentava-se com gente desprezada, rejeitada, pobre, doente, pecadora, marginalizada.

Não porque pobreza fosse virtude ou porque riqueza fosse automaticamente pecado. Mas porque a justiça começa justamente quando enxergamos quem costuma ser invisível.

Jesus não parecia particularmente impressionado com pessoas que se consideravam justas. Pelo contrário. Sua crítica mais dura frequentemente encontrava aqueles que conheciam a religião, conheciam a Lei, conheciam os códigos morais  e, ainda assim, negligenciavam aquilo que era mais importante.

A justiça. A misericórdia. O amor.

Talvez esse seja o grande problema de uma fé que precisa constantemente encontrar inimigos: ela pode passar tanto tempo procurando quem está do lado do mal que esquece de perguntar se ainda está do lado do amor.

Porque gente religiosa pode ser muito rigorosa com o pecado dos outros e extremamente generosa com a própria falta de justiça.

Pode defender a família e abandonar o trabalhador. Pode falar de Deus e explorar o próximo. Pode condenar o pecador e enriquecer o pregador. Pode levantar a Bíblia acima da cabeça enquanto passa por cima daquilo que a própria Bíblia chama de justiça.

E, no fim, pode até acreditar sinceramente que está lutando contra o mal. Enquanto o mal agradece, sentado confortavelmente dentro do discurso que o protege.

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