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sábado, 24 de outubro de 2026

O povo, os fantoches e as cortinas de fumaça

A direita favorece, em geral, os interesses dos empresários e das classes mais ricas do país; a esquerda se apresenta como representante dos trabalhadores e dos menos favorecidos. É claro que existem contradições nos dois campos, mas há diferenças importantes nas prioridades econômicas e sociais que defendem.

Sob uma lógica que privilegia o mercado e reduz a intervenção do Estado, o pobre que consegue sobressair precisa, muitas vezes, estar acima da média. Se for apenas mediano, terá menos oportunidades e encontrará uma rede de proteção social insuficiente. O foco se volta para políticas que aliviem a carga tributária e favoreçam quem movimenta a economia, enquanto as necessidades de quem vive do próprio trabalho ficam em segundo plano.

Se a quantidade de ricos fosse suficiente para eleger representantes exclusivamente comprometidos com os interesses da classe alta, a classe trabalhadora seria praticamente invisível. Mas, como os ricos não são maioria, é preciso conquistar os votos de quem não pertence a essa classe.

E é aí que entram as cortinas de fumaça.

Desvia-se a atenção das questões econômicas e sociais para os valores morais, as escolhas pessoais e as pautas comportamentais, como se coubesse ao presidente determinar como cada cidadão deve viver sua vida. Assim, pessoas que poderiam estar discutindo salário, aposentadoria, saúde, educação e direitos trabalhistas acabam mobilizadas por discursos que exploram seus medos, suas crenças e suas convicções religiosas.

E o mais perverso é quando essa manipulação acontece em nome de Deus, como se votar em determinado grupo político fosse uma prova de fidelidade cristã.

O que é pior, na sua concepção: ser corrupto ou ser corrupto e hipócrita? Ser assassino ou matar em nome de Deus? Ser privilegiado ou enriquecer usando o nome de Jesus? Ser bandido ou ser miliciano, que também é bandido, mas aparece maquiado de bom moço?

Desanima viver em um país onde tanta gente parece não perceber os interesses que se escondem por trás dos discursos que abraça.

Depois de uma reforma previdenciária que prolongou o tempo de contribuição e tornou mais difícil a aposentadoria, o trabalhador ainda precisa conviver com a insegurança de novas mudanças. Para quem depende do próprio trabalho e de uma renda limitada, cada alteração nas regras pode significar anos a mais de sacrifício e menos segurança na velhice. E, diante de possíveis mudanças constitucionais, permanece o temor de que os interesses dos mais fortes prevaleçam, enquanto os mais fracos pagam a conta.

Se fossem realmente patriotas, estariam atentos à entrega do patrimônio nacional, às privatizações e à venda de riquezas estratégicas que pertencem ao Brasil e ao seu povo.

Se fossem patriotas, se preocupariam com os direitos e a cultura dos povos indígenas, com a proteção dos menos favorecidos e com a preservação dos recursos naturais. Não se deixariam conduzir tão facilmente por espetáculos de alienação coletiva: rezar para pneus, beber detergente ou jogar chinelos no lixo por acreditar em absurdas teorias políticas.

Esses episódios não são apenas motivos de chacota. São sinais do quanto o pensamento crítico pode ser substituído pela obediência cega, quando alguém aprende a seguir um líder sem questionar, a defender um grupo sem examinar suas contradições e a confundir lealdade política com virtude moral.

É assim que se mede a quantidade de fantoches que conseguem arrebanhar: não pela inteligência de quem os segue, mas pela facilidade com que conseguem fazê-los agir contra os próprios interesses, convencidos de que estão lutando pelo bem.

Lamentável é ver o nome de Deus usado como instrumento de manipulação, o patriotismo reduzido a uma fantasia e o trabalhador defendendo, com unhas e dentes, os privilégios de quem jamais precisou viver a realidade dele.

Lamentável é perceber que, enquanto o povo briga por símbolos, os verdadeiros interesses continuam sendo negociados longe dos olhos de quem deveria ser o maior beneficiário das decisões políticas: o próprio povo.

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