Existe, no meio cristão, uma linha de raciocínio que afirma que o pecado, propriamente dito, não existe mais.
O argumento parte de uma premissa verdadeira: pecado, na antiga aliança, estava profundamente relacionado à transgressão da Lei. E, em Cristo, fomos libertos da antiga aliança, da condenação da Lei e da tentativa de alcançar Deus pela observância de mandamentos.
Até aqui, tudo bem.
O problema começa quando se conclui que, porque a Lei de Moisés foi cumprida em Cristo, o pecado deixou de existir.
Então, aquilo que antes chamávamos de pecado passa a ser chamado de “obra da carne”.
Mas, para mim, isso não resolve a questão. Apenas muda a nomenclatura.
Porque, se uma obra da carne é egoísmo, inveja, ira, soberba, imoralidade, maldade, rivalidade, falta de domínio próprio, falta de amor ou qualquer outra manifestação contrária ao caráter de Cristo, continuamos diante de uma realidade que o Novo Testamento apresenta como incompatível com a vida no Espírito.
Podemos mudar o nome. A natureza do problema permanece.
Paulo não escreveu apenas aos judeus quando falou sobre as obras da carne. Suas cartas também foram dirigidas a comunidades gentílicas, compostas por pessoas que haviam recebido o Evangelho e agora eram chamadas a viver de outra maneira.
A questão, portanto, não é simplesmente: “Que Lei eu transgredi?” A pergunta passou a ser muito mais profunda: “Que tipo de vida estou produzindo?”
Porque Cristo não veio apenas para nos retirar debaixo de uma sentença. Ele veio para nos conduzir a uma nova vida.
A antiga aliança tinha tábuas de pedra. A nova aliança fala de algo escrito no coração.
Paulo usa justamente essa imagem ao falar de uma carta de Cristo, escrita não com tinta, nem em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração, pelo Espírito.
Isso é muito significativo.
Cristo não aboliu a necessidade de uma vida orientada por Deus. Ele mudou o centro dessa vida.
A Lei não é mais um instrumento pelo qual tentamos conquistar a aceitação de Deus.
Em Cristo, somos aceitos antes de produzir qualquer coisa que possa nos tornar aceitáveis.
Mas justamente porque fomos alcançados pela graça, somos chamados a viver segundo aquilo que recebemos.
E qual é a essência dessa nova vida? O amor.
Jesus resumiu a Lei no amor a Deus e ao próximo.
Paulo disse que o amor não pratica o mal contra o próximo e, por isso, o amor é o cumprimento da Lei.
Tiago chamou de “lei régia” o mandamento de amar o próximo.
Então, talvez a pergunta mais importante já não seja: “Posso ou não posso?” Mas: “Isso nasce do amor?”
Não acredito que “obra da carne” seja uma categoria criada para substituir a palavra pecado e nos permitir continuar fazendo tudo aquilo que antes reconhecíamos como errado sem precisar chamá-lo de pecado.
A carne não é simplesmente um conjunto de comportamentos inadequados.
É a vida voltada para si mesma. É o ego ocupando o centro. É quando meus desejos, minha vontade, minha vantagem, minha vaidade, minha necessidade de reconhecimento e meu ressentimento passam a governar aquilo que faço.
E isso é exatamente o contrário da vida conduzida pelo Espírito.
Por isso, para mim, dizer: “Não é pecado. É apenas obra da carne.” não resolve nada.
Eu poderia perguntar: E o que é uma obra da carne senão uma expressão de uma vida que, naquele momento, deixou de caminhar segundo o Espírito?
Se feri alguém deliberadamente, que nome devo dar a isso?
Se humilhei alguém para me sentir superior, o problema desaparece porque retirei a palavra “pecado” da frase?
Se tive a oportunidade de amar e preferi alimentar meu ego, isso deixa de ser uma ruptura com o caráter de Cristo apenas porque não encontrei um mandamento de Moisés para citar? Não.
Talvez tenhamos simplesmente saído de uma compreensão jurídica do pecado para uma compreensão relacional e formativa.
E é aí que começo a compreender pecado de uma maneira diferente.
Pecado não é apenas quebrar uma regra. É também errar o alvo. É viver abaixo daquilo para o qual fomos chamados. É perder uma oportunidade de amar. É escolher o ego quando poderíamos escolher a graça. É alimentar a carne quando poderíamos alimentar o Espírito. É interromper, ainda que momentaneamente, aquele processo pelo qual Cristo vai sendo formado em nós.
Por isso, às vezes penso que pecado também pode ser entendido como uma oportunidade perdida de crescimento em graça.
Não porque a graça tenha diminuído. Não porque Cristo tenha deixado de nos amar. Não porque tenhamos perdido a salvação cada vez que tropeçamos. Mas porque, naquele momento, poderíamos ter respondido como Cristo e respondemos como nós mesmos.
E o Espírito trabalha em nós para que, um dia, aquilo que Cristo é deixe de ser apenas algo que admiramos e passe a ser também aquilo que, pela graça, estamos aprendendo a ser.
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