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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Eu não te perdi, filho


Você me consolava enquanto me hostilizavam. Seu amor me preenchia enquanto me acusavam.

O mundo desmoronava ao meu redor, enquanto eu me dedicava às suas coisinhas, enquanto te sonhava e te chamava de Rafael.

Porque você era cura. Não do corpo, já desgastado por tantas agressões, mas da alma, que finalmente podia enxergar a própria nudez.

Finalmente, eu me desarmava. Abaixava o dedo que apontava para fora e olhava para dentro.

Finalmente, despia-me das roupas da religiosidade, dos costumes e das ilusões.

Minha caminhada começava a fazer sentido, porque eu saía do centro da minha própria estima e me reconhecia como parte de um todo muito maior do que eu.

Finalmente, aprendia a amar sem esperar nada em troca de ninguém.

Para muita gente, perdi um filho. Mas, dentro de mim, você ampliou horizontes, expandiu minha cosmovisão e me fez enxergar dimensões da existência que, até então, eu sequer imaginava.

Você me pegou pela mão e me fez cair para que eu pudesse me levantar mais forte. Ensinou-me que existe muito além da morte e que a fragilidade de um corpo não determina a imensidão de uma existência.

Seu corpo era frágil, filho, mas você foi imenso.

Tão imenso que poucos meses bastaram para cumprir em mim um propósito que talvez eu levasse uma vida inteira para compreender.

Eu não te perdi, filho. Eu me trouxe de volta à vida através de você.

Antes de você, eu era tão ignorante a respeito de tantas coisas que julgava conhecer. Você me ensinou que, antes de querer ensinar qualquer coisa a alguém, é preciso ter a humildade de reconhecer que ainda há muito a aprender.

E eu me permiti aprender com tanta gente, me dispus a ouvir, desejei sair da bolha, me livrei de paradigmas.

E talvez essa tenha sido uma das maiores lições que você me deixou: a de que, às vezes, precisamos nos despir de tudo aquilo que acreditamos saber para, enfim, começarmos a enxergar.

Você partiu, mas eu despertei.

E, de alguma maneira que as palavras não alcançam, continuo encontrando você em tudo aquilo que me tornei depois de nós.

Porque há encontros que não terminam quando os corpos se separam.

Há vidas que passam brevemente pela nossa existência, mas deixam em nós uma eternidade de transformação.

Você sequer chegou a nascer, filho. Mas, em mim, ressignificou uma vida inteira.

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