Aos cinco anos, cheguei à pré-escola.
Lembro-me do dia em que uma coleguinha nova chegou e a professora a colocou sentada à minha mesinha. Éramos quatro meninas: as irmãs Sandra e Márcia, eu e Cristiane, a recém-chegada.
Cristiane sorriu para Sandra, que fechou o semblante. Sorriu para Márcia, que fez o mesmo. Quando sorriu para mim, eu sorri de volta.
Não sei se, naquela idade, eu compreendia o que significava ser rejeitada. Mas sei que, a partir daquele dia, e depois em tantos outros anos escolares, fui me aproximando dos que ficavam de fora.
Eram as crianças que sofriam bullying, as que não tinham mãe, as mais pobrezinhas, aquelas com quem ninguém queria brincar. Eu as acolhia como se reconhecesse nelas alguma coisa de mim.
Eu também tinha dificuldades de interação. Não conseguia me relacionar com todo mundo e, geralmente, tinha um coleguinha de cada vez.
Dos demais, mantinha distância. Alguns também me rejeitavam e, de vez em quando, expunham minhas características, fazendo de mim alvo de suas brincadeiras.
Mas com os rejeitados era diferente. Talvez porque, diante deles, eu não precisasse compreender tantos códigos sociais. Talvez porque a exclusão fosse uma linguagem que, mesmo sem saber explicar, eu já conhecia.
A vida passou, mas alguma coisa daquela menina permaneceu em mim.
Continuei sendo muito amiga dos meus amigos, leal, inteira e protetora. Sempre disposta a fazer o que estivesse ao meu alcance por quem eu amava. Nem sempre, porém, encontrava a mesma disposição do outro lado.
Minha dificuldade em perceber as entrelinhas, as intenções escondidas e aquilo que as pessoas nem sempre revelam me deixou exposta a muitas decepções. Eu me entregava às relações com a sinceridade que conhecia, sem perceber que nem todos se relacionavam da mesma maneira.
Por muito tempo, talvez eu tenha confundido amizade com entrega irrestrita, acreditando que a minha lealdade encontraria correspondência natural na lealdade alheia.
Não foi assim.
Aprendi, algumas vezes dolorosamente, que nem todos cuidam daquilo que recebem, que algumas pessoas se aproximam por conveniência e que a disposição de fazer tudo por alguém não garante que esse alguém faria o mesmo por nós.
Ainda assim, quando olho para trás, não sinto vergonha da menina que sorriu para Cristiane.
Ela não sabia das decepções que encontraria pelo caminho. Não conhecia as máscaras, as segundas intenções nem a dor de descobrir que uma amizade não significava a mesma coisa para duas pessoas.
Ela apenas sorriu.
E talvez seja justamente isso que eu queira preservar daquela menina: a capacidade de reconhecer a solidão alheia sem precisar que alguém lhe explique, a disposição de acolher quem não encontra lugar e a coragem de oferecer amizade a quem todos parecem rejeitar.
Hoje, compreendo que não preciso me abandonar para acolher alguém. Que posso ser leal sem me tornar responsável por quem não cuida de mim.
Que posso continuar sendo inteira sem oferecer indiscriminadamente todas as partes de mim.
Mas não quero que as decepções me façam desprezar aquilo que sempre houve de mais genuíno em mim.
A menina que sorria para os rejeitados também merecia que alguém sorrisse para ela.
Talvez tenha passado boa parte da vida oferecendo aos outros o acolhimento que, tantas vezes, também desejou receber.
E, se pudesse voltar àquela mesinha da pré-escola, não diria àquela menina que deveria ter sido mais esperta, menos sensível ou menos generosa.
Apenas me sentaria ao lado dela.
Sorriria de volta.
E lhe diria que ela não precisava conquistar um lugar entre as pessoas para merecer pertencer.
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