Quem fui está sempre visitando quem sou.
Minha memória é incrivelmente intacta. Lembro até da roupa que vestia em cada ocasião, do que disse, do que senti, do que me disseram e de como as pessoas reagiram.
É como se minha vida fosse um filme que revi tantas vezes que já conheço cada cena, cada diálogo, cada emoção e cada detalhe que, na época, talvez nem tenha compreendido por inteiro.
E, a cada nova revisão, quem sou também passa por revisões.
Fui me desconstruindo, me reconstruindo, me lapidando. Aprendendo a enxergar com outros olhos aquilo que um dia enxerguei de outra maneira.
Hoje, eu me abraçaria em cada fase.
Abraçaria aquela que não sabia, aquela que acreditava demais, aquela que se entregava sem perceber os riscos, aquela que insistia onde não dava certo e aquela que se culpava por coisas que ainda não tinha maturidade para compreender.
Eu queria poder voltar e me explicar por que algumas coisas não dariam certo. Queria me ensinar a me proteger mais, a me importar mais comigo e menos com aquilo que não merecia tanto de mim. Queria me poupar de algumas dores, de algumas decepções, de algumas escolhas feitas por não saber o que sei hoje.
Mas eu não podia.
Eu ainda estava crua, imatura, sem malícia. Não tinha a experiência que tenho agora, nem o discernimento que o tempo e as circunstâncias me deram.
Queria ter me poupado de algumas dores, mas foram elas, também, que me ensinaram a ser quem sou.
Não posso voltar para proteger aquela mulher, mas posso olhar para ela com ternura. Posso compreender suas escolhas sem me condenar por elas. Posso reconhecer seus erros sem desprezar sua inocência.
Afinal, fiz o melhor que pude com aquilo que sabia, com os recursos emocionais que tinha e com a compreensão de mundo que havia alcançado até então.
Não preciso sentir vergonha de quem fui para honrar quem me tornei.
O processo não apenas me trouxe até aqui. Se hoje sou mais consciente, mais criteriosa e mais inteira, é também porque um dia fui tudo aquilo que ainda precisava aprender.
E, quando quem fui vem me visitar, não a recebo com acusações, mas com muito amor.
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