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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Francisca

Num tempo em que era imoral uma mulher colocar fim no casamento, ela dizia amém pra tudo. Para o abuso, a violência, a fome, as doenças venéreas que ele trazia dos portos onde pescava. 

O tal "Zé bom na faca" era temido não apenas fora, como dentro de casa, quando chegava bêbado, jogando comida no chão para os meninos não comerem, porque para ele, todos eram vagabundos.

À noite, sob a luz bruxuleante, ele elegia um dos meninos para atormentar com um olhar fixo, enquanto amolava suas facas. Iam dormir aterrorizados, se é que dormiam até ele sair de novo para sumir pelos portos.

Ela mantinha a casa com suas costuras. Conforme os filhos cresciam, começavam a trabalhar e já caiam no mundo. Errando, acertando, cada um fez o que conseguiu.

A única que nunca apanhou foi minha mãe, que era a caçula das meninas, abaixo dela só tinha mais um, porque o último nasceu prematuro e o Zé jogou ele no esgoto depois que morreu.

Naquele inferno, minha avó não sabia o que era paz, não tinha autonomia pra tomar uma atitude, apenas aceitava sua triste sina. Filhos que cresceram feridos e mais tarde se tornaram agressivos em suas próprias famílias.

Francisca parecia ter se conformado. Ele trocou as terras dela no Espírito Santo por uma casinha simples no subúrbio do Rio de Janeiro, depois trocou a casinha por um barraco no alto de um morro, porque era mais perto dos portos. Ela não podia opinar, só aceitar.

E numa dessas brigas em casa, onde ele xingava e agredia os filhos, minha mãe aos 12 anos, disse que estava saindo de casa. Que não queria mais viver naquele inferno. Diante do desespero da minha avó, ela disse que Francisca ia ter que escolher entre ela e o pai. Só assim Zé bom na faca teve sua sentença decretada. Teve que sumir no mundo.

Acabou o tormento, a fome não. Mulher separada era mal vista... As crianças ajudavam como podiam.

Minha mãe começou a trabalhar aos 14 anos, isso a fez crescer amargurada por não ter tido infância e adolescência. Tinha a responsabilidade de ajudar a mãe com dois irmãos, os outros já estavam casados.

Me lembro ainda dos dois cômodos de estuque e do quarto de madeira. À custa de muita costura, vó Chica construiu uma boa casa, uma caixa d'água bem grande que servia inclusive à vizinhança.

Mais tarde sofreu de câncer, mas ainda assim realizou muitas coisas, ajudou muita gente, me ensinou o Evangelho mesmo sem saber ler, foi guerreira e resignada até o final.

A resignação dela não significava fraqueza. Significa que ela sobreviveu dentro das possibilidades que aquele tempo lhe oferecia.

O Zé morreu cego num asilo, nenhum filho o acolheu em casa.

E talvez eu tenha demorado bastante tempo para entender, que a mulher que me ensinou sobre o amor de Deus, passou a vida em função de um homem que não sabia amar.

Algumas violências só terminam quando a vítima entende e deixa de estar disponível para quem a pratica. Isso aprendi com a história de vó Chica. Sobrevivência às vezes exige fechar a porta.

Ela viveu num tempo onde não podia escolher quem permanecia em sua casa, eu posso.

Honro a vida de quem veio antes, justamente permitindo que fique, apenas quem me faça o bem. Não posso desperdiçar a liberdade que ela não tinha, mas eu tenho.




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