Não sou uma pessoa expansiva. Sou calada, comedida, observadora. Escolho o que digo e o momento de dizer, porque não gosto de jogar conversa fora. Sempre fui mais ouvinte do que alguém que fala de si, e só me exponho quando sinto que existe interesse genuíno em me ouvir.
Meu jeito parece atrair pessoas que precisam desabafar, mas raramente encontro quem tenha a mesma disposição para conhecer o que se passa dentro de mim.
Sou autista e, durante muito tempo, acreditei que minhas dificuldades de relacionamento eram culpa minha. Achava que não sabia me aproximar, que não compreendia os códigos sociais, que havia algo em mim que precisava ser corrigido. Tentei, insisti e me frustrei muitas vezes.
Hoje, observando as pessoas ao meu redor, percebo que nem toda dificuldade de conexão é uma falha minha.
Há muita gente centrada em si mesma, pouca disposição para ouvir, pouca empatia e muito relacionamento superficial. Pessoas que se aproximam pelo que podemos oferecer, mas não demonstram interesse genuíno em quem somos.
Não quero ser apenas alguém que escuta, aconselha e acolhe. Também quero ser ouvida. Quero poder falar sem sentir que estou incomodando, compartilhar minhas dores sem que sejam minimizadas e existir numa relação em que não precise estar sempre disponível para merecer consideração.
Não sou triste, nem alegre o tempo todo. Vivo os momentos com risadas fáceis e lágrimas também.
Encontro beleza na natureza, no céu e nas águas correntes. Gosto de contemplar a vida, embora meu olhar para o ser humano tenha se tornado pessimista depois de tantas decepções.
Já não acredito muito na possibilidade de encontrar alguém com quem possa construir uma conexão profunda. Não por não desejar, mas por estar cansada de tentar e me frustrar.
Talvez eu tenha aprendido a preservar minha paz, mesmo que isso signifique conviver com a solidão.
Já não quero me esforçar para caber em relações nas quais não me reconheço, nem representar uma versão mais sociável de mim mesma para ser aceita.
O que eu queria era tão simples: alguém que tivesse interesse em me conhecer como sou, e não apenas naquilo que posso oferecer. Alguém diante de quem eu não precisasse me traduzir o tempo inteiro.
Porque, no fundo, não é apenas a ausência de companhia que dói.
É a sensação de ter atravessado a vida sem que alguém realmente se demorasse o suficiente para descobrir quem eu sou.
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