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sábado, 3 de outubro de 2026

O caminho do abismo


Eu tentei dizer a ela, que apoiar erro de filho, é dar aval pra ele continuar errando. Que passar a mão na cabeça, era o mesmo que empurrar o filho de um abismo, porque a conivência não é ajuda. Mentir pra livrar das consequências é antes de tudo enganar a si mesmo.

Mas parece que tem mãe que só enxerga valor em si mesmo quando está atrás de filho em becos de boca de fumo ou catando os restos na sarjeta.

Enquanto o filho está inteiro, produzindo, feliz, a mãe não tem função. Porque é um eterno rastejar, um eterno recomeçar, um eterno perder novamente... 

Então é preciso que tudo desabe para que ela possa voltar a ser necessária... Que sina!

E o pior é avisar e ter as falas distorcidas e a motivação questionada. E agora ter que assistir as pessoas mortas, com aparência de quem vive.
 
E isso me atravessa de uma maneira difícil de explicar.

Enxergo coisas que ainda não aconteceram, minha mente reconhece os padrões, sei para onde as coisas caminham, tento avisar mas só acreditam depois do estrago.

É uma coisa muito dolorosa: não é apenas ver alguém errando; é perceber o caminho do erro antes que ele produza determinadas consequências e, ainda assim, não conseguir impedir que a pessoa caminhe até lá.

E existe uma diferença enorme entre acolher um filho e protegê-lo das consequências daquilo que ele faz.

Acolher é dizer: “Eu continuo sendo sua mãe, mesmo quando você erra.”
Conivência é dizer: “Eu vou fazer o necessário para que você não precise lidar com o que fez.”

A primeira preserva o vínculo.
A segunda pode preservar o comportamento.

Eu não estava tentando condenar os filhos dela. Estava tentando mostrar que o amor que retira todas as consequências pode, involuntariamente, colaborar com aquilo que pretende evitar.

Mas existe uma coisa que precisei aprender, talvez justamente porque demoro tanto a aprender a deixá-la nas mãos de quem pertence, não posso viver a vida de ninguém.

Talvez eu tenha desenvolvido uma capacidade muito aguçada de perceber padrões: uma sequência de pequenas coisas, comportamentos, contradições, escolhas e sinais que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que para mim formam uma trajetória.

Só que perceber uma trajetória não significa ter poder para interrompê-la.

E talvez essa seja uma aprendizagem particularmente difícil para mim: não transformar a capacidade de perceber em responsabilidade por salvar as pessoas.

Posso avisar, explicar, até insistir uma vez ou outra. Depois disso, existe uma fronteira que não é minha.

Porque quando alguém rejeita o aviso, distorce a intenção e transforma a tentativa de cuidado em agressão, fico diante de uma escolha muito dolorosa: continuar tentando provar que estava certa ou sair do caminho e deixar que a realidade ensine aquilo que tentei ensinar.

E eu não queria acertar. Porque quando aquilo que previ acontece, não existe vitória alguma.

Existe apenas a tristeza de olhar para pessoas que poderiam estar vivendo outra história e perceber que, em algum momento, elas passaram por uma porta que tentei mostrar que não deveriam atravessar.

Há pessoas que continuam respirando, trabalhando, sorrindo, produzindo, circulando — mas algumas escolhas vão estreitando tanto a vida que, por dentro, já não resta quase espaço para viver.

E posso enxergar isso antes.

Mas enxergar antes não significa ser responsável pelo depois. Nem posso transformar minha impotência em culpa, porque tentei. 

Mas cada um acaba escolhendo o que quer viver.

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