Embaixo dessa capa ainda há sonhos.
Ainda há vontade de conhecer.
Ainda há o que viver.
Ainda há coisas a realizar.
Ainda há pessoas para ajudar.
Ainda há deveres a cumprir.
Tudo o que me impede,
tudo o que me limita,
tudo o que aprisiona minha vontade,
há de ser retirado de cima de mim.
Embaixo dessa capa ainda há alguns anos.
Ainda há alguns planos.
Ainda há idealizações que se perderam.
Quero achar onde me perdi.
Encontrar onde me deixei.
Me abraçar com minhas faltas
e preencher com o que couber.
Porque embaixo dessa capa
nunca deixou de existir a mulher
que nasci para ser.
Apenas espero o dia de voltar
a caminhar com mais liberdade.
Porque meu foco por muito tempo
foi de mudança interior,
mas cuidar também do corpo,
Nem é questão de vaidade
É me enxergar por inteiro
e viver a integralidade.
...
Passa um filme pela minha cabeça.
Ainda na infância, eu já lutava contra a obesidade. Sofria bullying na escola, muitas críticas em casa e era motivo de chacota quando tentava praticar algum esporte.
Era tímida, retraída e me sentia inadequada, feia, sem brilho. Estava sempre pelos cantos, tentando não ser enxergada.
Na adolescência, comecei a violentar meu corpo com medicamentos comprados sem receita e dietas malucas que prometiam resultados rápidos.
Eu já percebia o quanto estar fora dos padrões era tratado com crueldade. Havia olhares de desprezo, de pavor, de nojo.
A cada tentativa, recuperava o peso perdido e mais alguns quilos. O corpo também luta para não perder e, muitas vezes, devolve o estoque de gordura ainda maior.
Uma luta que durou quarenta anos está prestes a viver um novo capítulo. Sei que a bariátrica não é um milagre. Ela não encerra a batalha; apenas marca o início de um novo processo.
Mas estou tão esperançosa... Tão ansiosa para cuidar de mim.
Se antes eu queria apenas ser aceita, hoje eu só quero ter saúde. Quero aproveitar o tempo que me resta sendo feliz e fazendo felizes aqueles que amo.
Pela primeira vez, não estou correndo atrás de um corpo para agradar os outros. Estou caminhando em direção a uma vida que quero viver.
A fé... Parece que o espírito vem munido de uma certeza em meio a tantas incertezas. É como sentir-se acompanhada e cuidada, apesar das circunstâncias de abandono e da incompreensão das outras pessoas.
Eu era uma criança doente e fui curada de forma misteriosa mediante a fé. Cresci, porém, sentindo-me à margem de um mundo ao qual nunca consegui me encaixar. Fui estranha a vida inteira e, mesmo tentando me relacionar, colecionei frustrações.
Nas amizades, na família, nos romances... Sempre me senti sobrando. Sempre me senti deslocada. Sempre me esforcei para pertencer, para ser aceita, para ser querida. Nunca pareceu acontecer de forma espontânea.
Gerei um filho que criei sozinha. Construí minha própria casa e, de muitas maneiras, sempre fui só. Depois gerei outro filho, que perdi. E, por mais doloroso que seja dizer isso, sinto que teve de ser assim, como se, em algum lugar dentro de mim, eu já soubesse que atravessaria essa experiência.
Depois deixei a religião e me afastei de pessoas que me decepcionaram. Lembro-me de tantas situações de dor, tristeza, solidão e vontade de morrer.
Mesmo assim, há algo que continua me sustentando. Algo que me faz perseverar, reinventar-me e reencontrar o equilíbrio.
Neste momento da vida, comecei a olhar para mim outra vez. A me acolher. A entender que não posso desistir de mim. Resolvi fazer a bariátrica porque ainda acredito que posso construir uma vida em que eu também seja feliz.
Acho que a fé é a única força que, de fato, nunca me abandonou. Talvez porque ela nunca tenha dependido das circunstâncias nem das pessoas, mas da certeza silenciosa de que Deus sempre permaneceu comigo, mesmo quando eu me sentia completamente só.
Hoje, enquanto me preparo para uma nova etapa da vida, não sinto que estou tentando me tornar outra pessoa. Sinto que estou voltando para aquela mulher que sempre existiu embaixo dessa capa. A mulher que Deus planejou. A mulher que eu também nunca deixei de esperar encontrar.
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