Como estou em processo para conseguir a bariátrica, entrei em um grupo de troca de experiências para já ir me preparando para tudo o que vou viver até me adaptar. E descobri que pessoas bariatricadas também sofrem preconceito por terem escolhido o "caminho mais fácil".
Mais fácil?
Não há nada de fácil em passar por uma cirurgia, enfrentar uma recuperação, reaprender a comer para o resto da vida, depender de suplementação contínua, manter atividade física obrigatória e fazer acompanhamento médico permanente.
Então por que escolhi esse caminho?
Porque tenho 54 anos e luto contra o peso desde os 14. Sou obesa desde a infância, mas foi na adolescência que cansei de sofrer bullying. Queria ser vista, aceita, e passei a experimentar tudo o que diziam que fazia emagrecer, sem saber que o próprio organismo reage para recuperar o peso perdido.
Comecei pesando 60 quilos. Cheguei aos 56. Logo vieram 62. Depois 64. Depois 70. Mais tarde 94. Quando ultrapassei os 100, tudo se tornou muito mais difícil.
É desesperador. Você perde 10 e ganha 15. Perde 20 e recupera 35. Assim cheguei ao meu maior peso, com IMC 54.
Além do metabolismo lento, havia a compulsão, que sempre aparecia quando a vida apertava. Sempre fui retraída e, de certa forma, encontrei companhia na comida.
Vieram as frustrações, a gravidez na adolescência, um relacionamento abusivo, a mudança de Estado, a responsabilidade de criar um filho, dificuldades financeiras, problemas familiares, a adolescência do meu filho envolvendo-se com más companhias, preconceitos de toda espécie... Como nunca tive vício em álcool, cigarro ou drogas, a comida acabou se tornando meu único refúgio.
Passei a vida inteira presa entre a culpa de comer e a frustração de não conseguir manter o peso perdido. Quanto mais lutava, mais o corpo reagia. Até chegar ao ponto em que me tornei uma verdadeira bomba-relógio ambulante.
Por isso, não diga que mutilar um órgão é escolher o caminho mais fácil.
Não é facilidade. É desespero. É exaustão. É uma decisão tomada depois de quarenta anos de tentativas, fracassos, dor e desgaste.
Se houver sofrimento na cirurgia, na adaptação alimentar, nas limitações, na suplementação ou nas consequências que ela traz, ainda assim será um sofrimento com propósito.
Não estou procurando um atalho.
Estou tentando continuar viva.
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