De novo um momento do BBB 26 toca em algo bem profundo em mim.
Não sou o tipo de pessoa que tem prazer em colocar o dedo sujo na ferida de ninguém. Muitas vezes na minha vida, prefiro me retirar, do que tocar em algo que para o outro é sensível. Sou o tipo que sente a dor do outro, choro junto, quero acolher, quero suprir. Esse movimento de empatia me impede de medir as atitudes das pessoas, porque cada um sabe o que suporta.
Acontece que amanhã termina o programa e ontem o pai da favorita faleceu. Ela sabe bem o que foi buscar e quando se despediu do pai há três meses, ele abençoou o sonho dela, uma mulher de 44 anos, solteira, sem filhos, sem rumo e agora sem os pais. O que ela tem pra se apegar enquanto a ficha não cai? O que foi buscar, sua garantia pelo menos financeira de um futuro tranquilo.
Abrindo a internet, o que mais tem é gente julgando, apontando, se escandalizando porque amanhã termina o programa, mas acham que ela deveria ter saído no impulso pra se "despedir" do pai. Sendo que o pai está morto e o que está lá, não guarda mais as lembranças do que ele representou pra ela. Todas as pessoas agiriam assim? Não, alguns sairiam correndo e dariam as costas a quase 6 milhões de reais. Se a vida dele estivesse por um fio e ela quisesse se despedir, faria sentido. Mas ela saiu de casa deixando o pai de 96 anos aos cuidados das irmãs e ontem soube que ele está morto. O perfil dela é racional e não sentimental, então ainda está lá apoiada pelos amigos.
Falando por mim, meu pai faleceu num acidente quando eu estava com 15 anos. Foi arrancado da minha vida aos 40. Sem doença, sem preparo, sem despedida. Lembro que tinha uma multidão no cemitério, mas todos sem rosto. Não lembro de detalhes, não lembro direito quem estava. Sei que tinha uma corrente de taxistas ao redor do cemitério, teve cerimônia de tiros de colegas do quartel, teve gente de tudo que é lugar porque ele era muito amado, mas parece que vi um filme. O que lembro deste dia é embaçado pela memória, forjado pela consciência pra evitar mais dor.
Já minha mãe, perdi aos 45. Adoeceu e morreu em 3 meses. No caixão, parecia o corpo de um estranho, teve um momento que eu disse ao meu irmão. Acho que não é ela, não consigo reconhecer minha mãe. E ele mostrou os detalhes, me convencendo. Mas um corpo sem a alma é um espectro, uma sombra, um vulto, fica irreconhecível e longe de representar o nosso ente amado. Ver descer a cova, é como enterrar um pedaço importante de nós. O que a Ana Paula disse eu também falei: agora não sou filha de ninguém... É um vazio terrível que nada preenche. Mas naquele vulto não tem mais ninguém.
Minha despedida foi no processo, no último mês que ela esteve internada e consciente, deixando instruções para quando fosse. Foi no cuidado de dar banho, ajudar a levantar, socorrer, dar amor, conversar, chorar quando o médico disse que era o final da vida, que a cirurgia era o último recurso e que a família deveria estar presente porque ela poderia não voltar. Na porta do centro cirúrgico quando a beijei e disse que estaria alí esperando ela voltar, quando sedada no CTI ela deixou escapar uma lágrima quando a vi pela última vez. Fui me desprendendo e me despedindo no processo, organizando minha cabeça pra viver sem ela. O luto? Vivo até hoje. O dia do enterro é convenção social, você deve estar lá, mas não tem que estar.
Meu filho é um que não quis ver a avó morta e não foi julgado por isso, viveu a dor dele da forma que achou que tinha que viver. Se recolheu, ficou sumido uns dias, assimilou e fez uma tatuagem enorme com o nome dela. Cada um vive conforme escolhe. Ele não tem a lembrança horrível de ver jogarem terra num corpo de alguém que foi tudo pra ele.
Então, deixa a mulher escolher o que quer viver, como quer guardar a figura do pai, amanhã o programa acaba, a família está velando o pai, não esperarão por ela, até pra não sofrer assédio de fãs num momento íntimo da família. A despedida de Ana Paula aconteceu há 3 meses.
Frases dela que a representam muito bem: "perfeição não é qualidade de gente", "permita-se ser mal vista", "pra mim é tudo ou nada".
É futilidade pesar entre estar com a família e o prêmio que vai garantir o futuro? Talvez, mas as irmãs tem suas próprias famílias e voltarão pra ela. Ana Paula só era filha e agora não tem mais nada pra se apegar. Ela está aérea, está em negação, está em choque, deixou o pai vivo e agora ele já não é. Não quer voltar pra vida, não quer sair e tem esse direito.
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