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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Gatilhos



Quando eu vivia em função de religião, achava os programas de TV vulgares, especialmente os reality shows que confinam pessoas para brigarem por dinheiro. Mas na pandemia, me permiti assistir ao BBB e percebi o quanto é interessante observar histórias de vida, comportamentos e os prós e contras de se conviver com pessoas tão diferentes dos nossos próprios hábitos. E sobretudo, em como nos enxergamos na história das pessoas. Escolhemos por quem torcer por identificação, mas avaliamos todas as atitudes e julgamos tudo.

Ontem saiu uma participante que foi mãe na adolescência, que anseia mostrar seu valor para sua família, que a depreciou a vida inteira, plantando nela um sentimento horrível de desvalor, de incompetência, de ódio pela própria aparência. E o maior prêmio que ela recebeu, foi a família verbalizar que tem orgulho dela, além da multidão de seguidores que se encantaram com a espontaneidade e carisma da moça.

Foi a primeira eliminação que me deu gatilho e eu choro com cada declaração e cada vez que se emociona, sei exatamente o que ela está sentindo.

Já falei algumas vezes que meu desenvolvimento não é neurotípico e nunca tive suporte nenhum, mas cresci ouvindo adjetivações pejorativas e segui assim a vida inteira, até ligar o f*da-se. Mas perdi foi tempo tentando provar meu valor, tentando mostrar que eu tinha virtudes também, mas o estigma é como tatuagem, cicatriza mas está lá como registro. 

Mesmo você evoluindo, vão te lembrar da sua imaturidade, mesmo você se tornando comedida, ainda vão jogar na cara sua adolescência explosiva, mesmo você dando conta de cuidar de um filho, vão te lembrar que você engravidou na adolescência... Pouco importa se te enganaram, ou se você estava reinvindicando um direito e questionando a tirania, ou se simplesmente não concordava em ser um lixo. Quando você é o filho que dá mais trabalho e a jovem que menos dá orgulho, vai passar a vida lutando contra os carimbos.

A moça acreditou que é uma burra, uma perdida, uma sem rumo na vida, uma largada, eu nunca acreditei. Cada vez que tentaram me desqualificar, eu reduzi a pó mostrando inteligência, ponderação, equilíbrio, responsabilidade e fiz a pessoa entender que eu posso sim, que eu consigo sim, que eu não sou nada que ela projeta em mim. No fim acabam se rendendo, ou somam ou somem. Só fazem com a gente, o que a gente permite.

Me identifico com outras coisas de outras pessoas, mas essa moça parece ser o que eu seria, se absorvesse tudo o que já falaram ao meu respeito. Sorte a minha saber exatamente quem sou e ter muito bem demarcado o que quero para minha vida. No mais, não sou caçamba; cada um que carregue seus próprios lixos.

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