Penso que as pessoas começam a envelhecer e se desesperam, não porque querem muito, mas porque a pressão que vem de fora é bem cruel. Esse estereótipo da vida perfeita, do casamento perfeito, da família tradicional, do cidadão que pra ser de bem tem que andar em linha reta, crenças corretas, comportamento padrão, vida quase automática, gente socada em fôrmas, passou a ser a maioria.
Esse tipo de pensamento, que acha que pra uma vida ser bem vivida é necessário seguir um padrão, anda meio retrógrado. Vida não é um trilho que você segue sabendo as estações que tem na frente. Tem percalços e intercorrência a todos momento.
Às vezes você pode querer e dar errado, às vezes você pode não querer e tá tudo certo, às vezes acontece tudo do jeito que você quis e a pessoa morre, às vezes você encontra a pessoa e não pode ter filhos. Às vezes você se envolve com a pessoa errada e é abandonado. Não há roteiro, é vida.
Lembrei de uma amiga, que se casou perto dos 50 anos e dizia o quanto tinha orado por aquele marido. Colocava a situação como se Deus tivesse atendido o desejo dela, ao invés de restaurar o antigo casamento dele, com filhos, netos, porque ela orava por esse marido. Eu tentava dizer a ela, que Deus não interferia nas nossas escolhas conjugais.
Tenho consciência que coloquei minhas prioridades no lugar errado, desvalorizei virtudes e acreditei em mentiras, uma pitada de falta de sorte, de tato, de filtro. Enfim, atraí pessoas que não eram para ser.
Que se eu cresse que Deus escolheu um bom marido pra ela, teria que crer que Ele escolheu um péssimo marido pra outra e nenhum para mim. Ela ficou um pouco exaltada com minha afirmação, porque sempre quis casar e estava feliz. Ficou viúva três anos depois e está só do mesmo jeito. Como entender o plano de Deus, que dá e tira em seguida? Bom, eu avisei.
Fato é que não há roteiro. Se antes o que a sociedade esperava era que alguém aos vinte já estivesse providenciando casamento, hoje às pessoas querem isso bem mais tarde. Outros tem filhos e se o relacionamento não der certo, já não perde tempo tentando. Outros escolhem a solitude, viajam, conquistam, sem se prender aos padrões, sem vínculos fixos, cada um sabe o que quer para si.
Até quando esse carimbo de certo e errado? Até quando ser livre para fazer as próprias escolhas será visto como fracasso e frustração ou taxado como irresponsabilidade?
Ninguém é obrigado a ter ninguém do lado, se não quiser. Ninguém é obrigado a permanecer num relacionamento que não está dando certo. Ninguém é obrigado a procriar nesse mundo maravilhoso. Ninguém é obrigado a viver coisas que não façam sentido para si porque é o que esperam.
A minha vida nunca foi o que esperavam de mim, mas foi o que consegui realizar, com o suporte que eu tinha, conforme fui intuindo. E no fim das contas considero que fui feliz, porque ninguém consegue ter tudo e é tudo tão breve. Ainda assim dei tudo de mim, lutei, me esforcei, me reinventei, vivi. Como alguém poderia me julgar fora da minha pele?
Tive algumas chances de escolher outro tipo de vida, mas preferi essa aqui. Não foi Deus, nem o diabo, fui eu que escolhi. Isso não é assumir todas as responsabilidades?
A família tradicional deu certo e vai continuar dando, mas nem todo mundo vai ter uma. A sociedade precisa entender que as pessoas vão ser felizes cada um à sua maneira ou simplesmente canalizar suas energias para o que está dando certo, em outras áreas, sem precisar de mais um estigma.
Que alguém pode ser feliz com uma criança nos braços ou com seus gatos e viagens. Que pode investir numa carreira ou constituir família, porque não estamos competindo, apenas colecionando vivências.
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