Obesa mórbida, desigrejada, mãe solteira, com prazo de validade vencido, moscas volantes nos olhos e xantelasmas nas pálpebras. Escritora nas horas vagas e organizadora remunerada do caos alheio.
Bom, segundo os testes informais, ganhei mais um nome: autista nível 1 de suporte. Porque, para os testes formais, não tenho condições de pagar royalties.
O autismo é um algós que chega antes de mim.
É ele quem escolhe como vou lidar com o desconhecido.
É ele quem tira de mim carreiras, relacionamentos e, às vezes, até o prazer de existir. É ele que transforma tudo em dor, desajuste, descontrole e transtorno.
É por causa dele que só falo depois de ensaiar.
É ele quem seca minha boca e acelera meu coração quando alguém me toca sem que eu espere, ou quando algo sai do script.
É ele quem me desconcerta quando muitas pessoas me olham aguardando que eu diga alguma coisa.
O autismo sempre chegou antes de mim e determinou como o mundo me trataria. Fecha portas, afasta pessoas e me deixa inadequada, deslocada dos grupos.
Me ludibriou tantas vezes que arrancou minha confiança. Hoje tenho medo de gente, medo da crueldade banal que muitos praticam naturalmente.
O autismo me deixa sem malícia e sem astúcia.
Tudo em mim é visceral e só encontra sentido de dentro para fora. Também me tranca no silêncio e no escuro. O barulho do mundo é estridente. O excesso de informações é atordoante.
Eu, esponja, não dou conta de tudo que me atravessa. Preciso desses intervalos para repor a energia que perco tentando sobreviver ao excesso.
É um algós que provavelmente me acompanhará para sempre, porque veio agarrado em mim.
Roubou pessoas, possibilidades e versões inteiras da minha vida, enquanto me fazia acreditar que a culpa era minha.
É como se eu fosse uma pessoa acoplada à outra.
E, quando percebi isso, muitas coisas finalmente começaram a fazer sentido.
Autistas dos anos 70, 80, 90 passavam despercebidos, era uma vida de treinamento para se camuflar dentro do que se esperava. Passamos, mas às custas de muita dor e nenhum suporte.
Sinto tudo em excesso, como se o mundo chegasse até mim sem filtro. Contudo, descobri que o autismo não é uma entidade maligna. É parte do que sou, mas não tudo o que sou.
Ainda consigo me perceber como uma mulher forte, sensível, consciente, verbal, observadora e simbólica.
Interferiu em muita coisa, mas não me matou.
Ainda sou.
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