Sobre sofrer preconceito eu entendo: biotipo, classe social, neuro diversidade, raça, estado civil, maternidade solo e até por ter pertencido à um grupo religioso e ter saltado fora desse sistema.
Parece que minha vida andou fora dos padrões desde que me entendo como indivíduo. Porém, mesmo tendo engravidado aos 19 anos e no fim das contas meu relacionamento ter desandado, eu nunca tinha percebido o preconceito das pessoas com relação à mim.
Não sei se porque fui criada entre mulheres que foram chefes de suas famílias; Minha avó porque sofria abusos e violência até colocar meu avô para fora com a ajuda dos filhos que já não suportavam o sofrimento. Minha mãe por ter ficado viúva aos 36 anos, minhas tias porque divorciaram, minhas primas por "n" motivos, ou porque no Rio de janeiro as pessoas normalizam as situações com mais facilidade, mulheres fortes, guerreiras, bem resolvidas, cuidando da própria vida e de sua prole, enfim, quando percebi que meu relacionamento era um erro, que eu havia perdido a liberdade, os sonhos, a saúde, que estava sendo explorada financeiramente, que era objeto de posse e não mulher, sem pensar duas vezes, terminei e mudei do Rio para BH. Comecei vida nova e não me dava conta do conservadorismo. Eu só voltei a sonhar.
Depois disso tudo foi que comecei a frequentar igrejas evangélicas. Então, diante de olhares de ciúmes de mulheres, cantadas de homens, algumas programações que não me incluíam e até preconceito que respingava no meu filho por viver longe do pai, foi que percebi que sou fora dos padrões em todos os sentidos. E tive que rebolar para ser aceita também neste meio.
Como era uma igreja pequena, o grupo dos jovens incluíam jovens casados. Então vários deles eram da minha idade e seus filhos da idade do meu. Mas não me acolheram. Quem me convidou para participar de um departamento, foi uma senhora. Porém o grupo das senhoras era composto de mulheres com a idade da minha mãe e avó. Participei das reuniões e dos cursos de artesanato que ofereciam, mas não estava no meu ambiente. Então escolhi frequentar os cultos dos jovens com suas dinâmicas, gincanas, cinemas, festas e coisas próprias para minha idade. Aos poucos fui me integrando e logo já fazia parte. Anos mais tarde sim, quis sair para fazer parte do grupo de mulheres, porque julguei que era a hora.
Claro que convivendo comigo, o preconceito foi sendo abafado ou disfarçado. Mais tarde voltou, quando resolvi construir minha própria casa e sair da casa da minha mãe. Numa cultura onde o homem é visto como o provedor, o sacerdote do lar, a cabeça da casa, etc. Estranharam minha vontade de construir, mobiliar, manter as despesas e cuidar do meu filho sozinha. Jamais imaginei que isso poderia ser mal visto, mas acredite ou não, um certo pastor que na época era diácono se desviava para não me cumprimentar, porque para ele, uma mulher só deveria sair de casa depois do casamento. Esse mesmo cabra simplesmente foi para o Facebook jogar indiretas quando anos depois causei uma polêmica com um texto sobre família https://janetecardoso.blogspot.com/2015/05/mes-da-familia.html
Alguém leu e foi fofocar. Um ogro de extrema direita, que ouviu poucas e boas porque sou dessas. Ele e uma meia dúzia promoveu em mim o desejo de nunca mais fazer parte desse meio. Um sepulcro caiado, uma raça de víboras que só tem religião, mas não sabe nada de Cristo.
Depois disso, participei de um grupo de whatsapp destinado a ler a Bíblia juntos. Um pastor certa vez fez um comentário sobre mulheres " encalhadas" desesperadas por um casamento que me incomodou muito e eu respondi que a igreja evangélica parece viver em 1950, quando tudo o que se podia esperar de uma mulher, era que ela fosse mãe e dona de casa. Que no nosso tempo, antes de pensar em constituir família, uma mulher pensa em estudar, ter uma carreira, contribuir com o crescimento, conquistar suas coisas, ter realizações pessoais, que só na igreja ela vive esse apontamento preconceituoso. Que por causa disso, já vi muitas mulheres mais velhas se deprimindo por estar "sobrando" e muitas meninas abrindo mão de suas conquistas para casar e viver em função de marido. O grupo se calou e eu me vi obrigada a sair. Num outro no Facebook fui banida porque num dia internacional da mulher, falei que não era sobre flores, feminilidade e afins, mas sobre direitos conquistados, sobre luta pela igualdade, etc. Crente é um trem difícil de conscientizar.
Enfim, não há lugar que haja mais preconceito do que no meio cristão, apesar do próprio Cristo preferir a companhia dos pecadores, minorias e oprimidos, do que dessa corja que se acha. Nada mudou... Nada entenderam sobre o amor.
...
1Co 12:22 a 25 "Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são muito mais necessários;
23 E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra.
24 Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela;
25 Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros."
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