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sábado, 31 de janeiro de 2026

Últimas lições



Em seu último mês de vida, montaram um CTI no quarto, até surgir a vaga de um leito no CTI do hospital. E passamos a contar os minutos, a saturação descendo, a pressão baixíssima e a consciência cada vez mais longe. Ela mais dormia do que despertava, os dias de angústia eram longos para nós.

Coincidentemente, nos momentos mais difíceis, era eu que a acompanhava, apesar de estarmos todos revezando. Na primeira cirurgia, quando desceu pro CTI, quando o médico anunciou que provavelmente ela não resistiria, na segunda cirurgia, na segunda e última vez no CTI... Parecia que era mesmo eu que deveria estar alí para um último beijo.

E naquele dia, me disseram que apareceu a vaga. Já começaram as preparações no quarto. Não tinha mais onde furar, a pressão a 5, a 4 a mínima. Minha mãe estava indo... Não apenas do quarto, mas dá nossa convivência.

E Dali a esperança já estava por um fio. No dia seguinte, chego na visita e ela está acordada e começa a contar as experiências que teve durante a noite. Parecia muito melhor, consciente, falando bem, eu não sabia se prestava atenção no que ela contava, ou se tentava entender como uma pessoa podia sobreviver a uma pressão quase zerada e melhorar tanto no dia seguinte.

Ela começou: "ontem fui visitada por um mentor, um homem com a aparência de um indiano, com roupas compridas, era jovem, falava suave, me levou para um grande campo com árvores em volta, tinha pessoas em grupos e ele me falava sobre o amor.

A vida inteira eu demonstrei meu afeto presenteando as pessoas que gosto, com as coisas que achava que elas estavam precisando. Era minha forma de mostrar que amo, dando coisas. Ele começou a me explicar onde não entendi. Amor não é dar coisas, é dar de si..". Eu ouvia, mas estava em negação. Não queria acreditar que era uma experiência sobrenatural, queria me convencer que era apenas um sonho. Mas uma pessoa com um fio de vida, teria essa capacidade de sonhar com tantos detalhes, lembrar todo o diálogo, descrever a pessoa, o que ouviu e respondeu, principalmente voltar entendendo onde tinha faltado e o que só entendia agora... 

Ao mesmo tempo que eu achava engraçado, ela chegar nessa conclusão já idosa, sendo que para mim isso já era conceito, estava impressionada. Ela dizia ainda: "quantas vezes a gente se reúne e eu logo entro pra dormir cedo, não aproveito a companhia de vocês, sendo que o mais importante nessa vida é a troca. Se Deus me der a oportunidade de sair daqui, vou fazer tudo diferente."

Eu animada com a melhora dela só respondi: o importante é que você entendeu, amar é doar de nós, trocar a essência.

No dia seguinte ela estava tão bem que voltou para o quarto. E passou o restante do tempo aconselhando cada filho e netos, como a gente deveria proceder quando ela partisse. Começou a dizer que não voltaria mais pra casa. Teve outros sonhos com mensagens que guardo na memória e assim fomos nos despedindo, com dor mas sem desespero.

No fim das contas ninguém sabe tudo, o que vier a faltar, Deus completa. Independentemente da fé de cada um, há quem cuide de nós.

Um trecho de uma carta que ela nos escreveu dizia: "Não é um adeus, tanto amor não pode terminar assim." 

Não termina, eu a amo muito e sempre penso nela. Sei que se ela puder, também está pensando em nós. Mesmo sem ter entendido com clareza, ela doou muito de si e esse amor nos sustenta juntos até hoje.

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