Nunca me coloquei na caixa do feminismo, embora sempre tenha vivido fora do trilho do que a sociedade espera de uma mulher: que seja uma filha submissa, uma esposa bela, recatada e do lar, uma mãe perfeita digna de outdoor... Não. Eu fui a filha que questionava e mostrava os erros dos pais, fui a mulher que abriu mão do casamento quando me deparei com os abusos de um cara que era hostil, acomodado, possessivo e egoísta. E fui a mãe possível, cheia de erros, solo e que deixou a desejar em vários momentos, por ganhar pouco e ser sobrecarregada.
Mas era tudo muito visceral, eu não abracei ideologia nenhuma. Só tive jogo de cintura pra ir vivendo e aprendendo, errando e buscando reverter o erro, tentando de novo, buscando novos caminhos e posturas até dar certo.
Até que um dia, num grupo cristão calvinista, a esposa do dono da página, parabenizou as mulheres no dia 8 de março, falando sobre a submissão das esposas, que existem para auxiliar seus maridos, aprendendo com eles, etc e tal.
Minhas lombrigas se contorceram e eu comecei a dizer que o dia 8 de março é sobre direitos de igualdade, sobre mulheres que morreram reinvindicando em favor de muitas, que mulher não pode se conformar em apenas servir homem e criar filhos e cuidar de casa, que temos potencial para contribuir com a sociedade e com a Igreja em muitas áreas. Que se Deus é quem dá a sabedoria e capacita mulheres, porque elas continuam sendo subjugadas? E no fim das contas, a mulher me baniu e comigo todas as mulheres que concordaram comigo, nos chamando de feministas.
Acredita que eu vivi situações dentro da igreja e achava que eram homens pontualmente machistas, mas não atinava que o pensamento geral era este? Na minha cabeça, prevalecia o que estava escrito na Bíblia, que a Graça nos iguala, que o Espírito agrega à família de Deus para a Igreja cuidar, que as mulheres tem capacidade de estudar e ensinar porque um só dá o dom. E no fim das contas, o mais machista de todos, que humilha a esposa em público, que só diz absurdos, foi o que menos tolerava minha postura.
Me olhei e vi que de fato estou sempre entre os príncipes, interessada em esmiuçar os assuntos, diferente das rodas de mulheres neste meio, que geralmente só conversam amenidades ou falam da vida umas das outras. Odeio admitir, mas poucas se empenham no que de fato é importante. Parece que a bolha em que vivem é o suficiente pra elas.
Pra mim nunca foi. Aceitar cabrestos sobre mim sempre foi minha maior dificuldade. Tudo na minha vida aconteceu fora do script. De fato nunca me interessei pelos roteiros prontos, nem sempre foi suave, às vezes pago caro por ser quem sou, mas não me intimido quando preciso manifestar minha opinião.
Se isso é ser feminista eu não sei, mas valorizo o feminino e amo ser mulher. E mais ainda, amo minha história e não poderia ser diferente, mesmo com dedos apontados pra mim.
Sou mulher, mãe, avó, sempre trabalhei, construí minha casa, mobilhei e mantive todas as despesas sozinha, banco o direito de não agradar a todos, porque no fim das contas, estamos aqui para protagonizar a própria história e não para apenas ser coadjuvantes na história dos homens.
Acho que não preciso deste rótulo, porque vivi minhas experiências e nunca me baseando em cartilhas. Apenas tive voz, como muitas que conheço. Nada nasceu de ideologia, mas de consciência. Isso é mais sólido do que um rótulo, ser responsável pela própria história.
Não é rebeldia vazia, é lucidez.
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