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segunda-feira, 16 de março de 2026

O pecado de ser mulher



Não sou costela tirada do lado de ninguém e quando meu ventre reproduziu, não foi contando com homem nenhum, porque o que eu tinha era um estúpido, escroto e abusador, que logo perdeu o direito de caminhar comigo.

Fui mãe, trabalhadora, guerreira contra uma sociedade que nunca enxergou valor em mim. Transitei pela religião, pelas famílias tradicionais e ninguém verdadeiramente me olhou nos olhos. Tive que provar o tempo inteiro que prestava, inclusive para pessoas próximas.

Acumulei funções porque tinha que trabalhar, sustentar filho, cuidar de casa, roupa, comida, mas consegui construir minha casa própria com toda a dificuldade na segunda tentativa, porque a primeira ficou pelo caminho, consegui formar um homem aos trancos e barrancos e ir me equilibrando entre acertar e errar nas escolhas. Mas vim e cheguei, o mérito é meu porque ninguém segurou minha mão para dar suporte.

Meus dramas foram invisibilizados, meu cansaço e esgotamento chamados de desequilíbrio e loucura, mas sozinha me refiz, me dei outras chances, fui resiliente, me reconstruí, não devo nada a ninguém.

Recebi deslealdade, traição, isolamento, mas tudo bem porque de gente eu só espero o pior. Quando alguém me faz o bem é que me surpreendo. Quando não me cobra reciprocidade então, fico até sem reação, porque de mim só se aproximaram quem tinha uma intenção oculta, quem queria tirar proveito, quem usou da minha ingenuidade pra sugar.

Eu lutei, eu cresci, eu construí meu mundo do jeitinho que sonhei. Cuidei de filho, cuido de neto, entrei e saí de onde eu quis. Assinei embaixo das minhas escolhas sem pedir opinião, tudo isso sozinha, porque a vida me fez autônoma e independente.

Eu marquei o chão enquanto ele me marcava. Eu fui fora da curva o tempo inteiro. Não quero e nem preciso me vingar de ninguém, só não me obrigo a estar onde não me cabe ou não quero.

O fato de ser mulher num mundo onde o machismo é cultural e estrutural, me tirou muitas oportunidades, mas não sou objeto de uso, sou sujeito de decisão. Sempre fui, sempre serei. 

Tenho muito orgulho de mim e não faz o menor sentido alguém cair de paraquedas na minha história agora, depois de tudo. Até porquê não teriam dimensão do quanto lutei pra ser quem sou e talvez até tentassem me moldar. Não quero.

Na sociedade, quem não for exemplo de delicadeza, suavidade, beleza, recato e submissão, recebe logo um carimbo de inadequada. Por outro lado, quem luta pra se impor como ativista recebe a antipatia como resposta. Bom mesmo é não depender de aprovação, se lixar pra convenção social e simplesmente atender ao impulso de ser o que melhor lhe convier, sem máscara e sem culpa. Porque de qualquer forma, nosso primeiro pecado é nascer mulher. Tudo cai na nossa conta 

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