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terça-feira, 10 de março de 2026

Vulto azul



Tem noção do que é ser reprovada de todas as formas, por nunca corresponder ao que esperam de mim? Minha aparência é criticada desde que eu era um bebê, com semblante descaído de tanto chorar, porque eu estava morrendo e resolveram cancelar.

E as crises de grito e choro, que as pessoas achavam engraçado provocar? E a malícia que me atribuíram por repetir os absurdos que me falavam? Eu nem imaginava o que estava falando, mas sabia que era algo ruim, pelo tom da acusação.

E as dores que eu disfarçava pra não ter que ser vista? E a solidão de não saber como interagir? E as máscaras sociais para pertencer? E o desgaste quando voltava pro meu mundo? A menina estranha se esconde no armário, embaixo da cama, foge das visitas.

E os apelidos, o bullying, a dor de ser motivo de riso? Quanto mal estar, que vontade de sumir... E quando me desregulava e agredia outras crianças? Eu não sabia explicar, mas me autofragelava.

O despreparo de quem cuidava, a incompreensão de quem convivia, a insensibilidade de quem castigava, se eu pudesse, nem de casa sairia.

Quantas brincadeiras solitárias, quantos personagens de papel, ouviam segredos de uma criança que tinha medo de crescer. 

O lixo que eu fuçava não supria o vazio, as punições não cortavam o vício, só a alma. Eu só conseguia ser quando alguém servia como ponte. Espontaneamente eu escolhia o silêncio.

Importunação sexual, olhares maliciosos, tiveram que virar segredo. Eu sabia que havia algo errado, mas não sabia exatamente o que. Tudo era tão difícil que isso era apenas mais um capítulo desse livro que eu nunca soube ler.

O mundo não foi feito para mim, ou não fui feita para o mundo? De uma coisa eu sei, com ou sem diagnóstico, não tenho nada para consertar. Não me esforço para caber, não procuro mais me encaixar. Sou o que fui feita para ser, estou onde deveria estar.

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