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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Corpo gordo

Uma conhecida minha, obesa como eu, postou alguns historys falando de seu desconforto com a sociedade, não apenas rejeitando o corpo gordo, como cobrando das pessoas que emagrecem, não poder reganhar peso. Os fiscais não dão trégua.

Pois pra quem sofre de obesidade, é sabido que vai ter que se cuidar para o resto da vida por ser uma doença crônica. Um ex-gordo, ainda é um doente crônico, ainda sofre de obesidade, porque se parar com a dieta e exercícios, recupera tudo e ainda além. Engorda não apenas quando come errado, mas porque digere errado, com falhas no metabolismo.

A tristeza dela se refere a não ter paz, porque aos olhos críticos e dedo em riste, o obeso é culpado e ridicularizado o tempo inteiro por não conseguir se manter no padrão. As cobranças nunca cessam, os estigmas que carregamos é mais pesado que o corpo.

O que penso é o seguinte: amor, respeito e valor, é a gente que se dá. Quando eu era mais nova, diante de uma ridicularização, eu me deprimia e tinha mais compulsão ainda. Quando uma pessoa era perversa comigo, eu me odiava ainda mais, ao invés de impor respeito.

Eu não me arrumava, maquiava, mal me olhava por perceber os olhares de pena ou de maldade e sarcasmo. Um pouco mais velha, eu tomei gosto para comprar roupas, escovar os cabelos, fazer as unhas, me perfumar e aceitar usar modelos que me favoreçam e parei de me punir pelo que os outros achavam.

Passei a me ver como uma grande mulher e não apenas como uma mulher grande. 

Até porquê quando eu era dentro dos padrões, eu já era chamada de gorda e me enchia de comprimidos para emagrecer, o que prejudicou ainda mais o meu organismo.

Olha pra essa foto e vê se dá pra imaginar que essa garota de 17 anos merece carregar a plaquinha de gorda... Eu sofri a pressão e acatei que tinha que aceitar todo julgamento e claro, nunca mais parei de ganhar peso.

Anos depois, eu me assumi como mulher gorda e me sentia bem assim. Aliás, eu nem pensava no meu biotipo. Embora muita gente quisesse me alfinetar, eu não dava mais ouvidos e pelo menos perto de mim, ninguém ousava dizer nada, foi a época que recebi mais elogios, porque a aprovação vinha primeiro de mim.


Então, hoje bem mais velha, sempre obesa, tenho consciência que se não criticarem meu corpo, falarão da minha solteirice, ou da minha raça, ou do meu trabalho, ou da minha condição social, ou da minha fé, ou de qualquer outra coisa, porque as pessoas tem essa necessidade de diminuir o outro pra se sentir em vantagem de alguma forma.

Aqui, as críticas e olhares eram para meus cabelos grisalhos, pois resolvi assumi-los, queria conhecer como eram. Mas quando percebi que precisam de manutenção constante, porque a textura é mais porosa e amarelam, precisa matizar, o fio é mais rebelde, etc. Resolvi voltar para as tinturas. Não porquê me deixo levar pelas críticas, mas porque sou LIVRE e tenho paz para ser o que eu quiser.

Quando me olho, embora conheça cada um dos meus defeitos, me vejo um mulherão, porque minha alma está aprovada por mim. Sei que sou inteligente, guerreira, forte, segura, independente, sensível e leal entre outras coisas. Não será um dedo sujo apontado pra mim, que me fará diminuir (em vários sentidos).

Não me vejo como a mãe solteira, me vejo como a mulher que criou um filho sozinha e conseguiu formar o caráter de um homem. Não vejo a trabalhadora braçal, vejo a mulher que deu o sangue pra construir a própria casa e conseguiu. Não vejo um corpo, vejo uma pessoa completa e cheia de virtudes. Os outros só tem acesso ao que permito. Quem me sabe sou eu.

Pra moça, bem mais nova que eu, vivendo o que já vivi: moça, você não é um corpo, você é uma pessoa que primeiro tem que se abraçar. Curar essa dor e olhar o espelho não só para enfeitar o exterior, mas para olhar dentro dos próprios olhos e se reconhecer amada e aprovada não pela régua dos outros como quem precisa de aprovação, mas para se acolher com seu melhor sentimento, como quem contempla a obra de Deus. Consequentemente as pessoas vão se apagar diante do seu brilho. 

A gente se torna inatingível quando entende que é o âmago que faz toda a diferença e não essa carcaça que um dia vai se deteriorar tanto para os gordos quanto para os magros. Este é o veículo que você tem para experimentar a vida pelos sentidos, mas não é o que permanece. O que você é como essência é  o que importa.

No mais, você citou que a mulher sempre tem alguns kilos pra perder. Tem gente que já perdeu a humanidade e vive como pedra. Perder peso se você quiser, você pode. Mas esses só nascendo de novo.

Paz genuína vem de dentro para fora e ninguém toca se você não deixar. E o preconceito é problema do preconceituoso. Eles que tenham vergonha do que são.

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