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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quando nada sobra



Dez anos depois, aquela sombra sem viço, sem ânimo, sem o brilho da autoestima, sem grandes sonhos me surpreendeu no supermercado. Estava de costas escolhendo uma tintura para o cabelo, quando ela me cumprimentou receosa. Se eu tivesse realizado tudo o que já ensaiei em pensamento, teria ignorado e saído de perto, mas ao virar e me deparar com aquele sorriso amarelo, olhar triste, cabelos desgrenhados, devolvi um sorriso social e a abracei.

Até eu me estranhei. Uma grande amizade que tinha durado 15 anos, morrendo depois de agonizar tanto, sem remédio, sem vontade de tentar salvar, as tentativas duraram um ano antes, o luto foi antecipado, depois do fim não, eu decido uma vez só.

Parecia que abraçava um estranho, sem vínculo, sem energia, sem afinidade, sem história em comum. Mas também sem dor, sem o sangue esguichando depois do punhal, sem a surpresa de ser atacada pela pessoa que eu menos esperava. Apenas o abraço frio de quem não perde e nem ganha.

Depois de atualizar todas as notícias de quem lembramos, de ouvir suas queixas e constatar que aconteceu exatamente o que eu disse que aconteceria e que tanta soberba não a levou a canto nenhum, que a deslealdade não fez dela uma vencedora, que dez anos depois a vida parecia estar pior do que naquela época, porque o cansaço veio. Ela se despediu e foi.

Nenhum pedido de perdão, nenhum reconhecimento de erro, nenhuma certeza de ter podido evitar tanto desgaste emocional, apenas um convite para ir passar o dia com ela, como se pudéssemos continuar de onde paramos. Não irei; não sou mais a mesma, não sei mais quem ela é. Antes, nossas famílias se misturavam, hoje nem conhecemos os novos integrantes. Não somos as mesmas pessoas.

Triste de ver que às lutas dela nunca acabaram. Triste de ver que sequer evoluiu na maneira de pensar, triste ver que continua presa a um esteriótipo religioso, mas com tão pouca experiência com o que de fato vale a vida.

Eu nem sabia que estava curada... Paguei minhas compras, peguei um Uber e vida seguiu como se nada de diferente tivesse acontecido.

Quando a confiança quebra, não tem restauração. Apenas duas senhorinhas tentando se decifrar sem nenhuma conexão. Nem sei se valia tanto sofrimento da minha parte, que bom que não foi só o tempo que passou... 

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